Era para ser apenas mais um dia no Universal Studios, em Los Angeles. Um trabalho rotineiro para Michael La Perruque, ex-policial e freelancer em segurança. O nome de Michael Jackson circulava no set, mas para aquele homem sério de uniforme, era apenas mais um cliente. Mal sabia ele que aquele aceno discreto de cabeça mudaria o rumo de sua vida para sempre.
As filmagens eram do clipe “You Rock My World”. Estavam presentes estrelas por todos os lados – até Marlon Brando fazia parte do elenco. Mas foi aquele artista gentil, perfeccionista e determinado, que repetia as cenas incansavelmente até que ficassem perfeitas, quem chamou a atenção de La Perruque. Jackson inspirava todos ao seu redor, sem precisar dizer uma palavra.
No início, os dois mal se falavam. Michael apenas sorria, agradecia e seguia seu caminho. Com o passar dos dias, La Perruque percebeu que aquele homem não era apenas uma celebridade — havia uma aura de paz, humildade e bondade que o tornava diferente de todos que ele já havia conhecido.
Os filhos de Michael, Prince e Paris, também estavam por perto. Ele era um pai presente, cuidadoso e amoroso. Sempre deixava um segurança no hotel, mesmo quando saía, caso algo acontecesse com as crianças. Era o pai que muitos sonham em ser, mas que a mídia nunca fez questão de mostrar.
O reencontro entre os dois aconteceu meses depois, nos bastidores da celebração de 30 anos de carreira de Michael, no Madison Square Garden, em setembro de 2001. Uma data que ficou marcada por algo ainda mais profundo. Na manhã seguinte ao segundo show, o mundo assistia, estarrecido, aos atentados terroristas contra as Torres Gêmeas.
Jackson foi evacuado de Nova York com seus filhos. Mas o que fez em seguida, poucos sabem: ele ordenou que sua equipe retornasse ao hotel para ajudar os fãs que haviam ficado presos na cidade. Muitos não tinham onde dormir nem como retornar para casa. Michael pagou a hospedagem de vários deles, sem nenhum alarde, como era de seu costume.
A convivência entre os dois cresceu. La Perruque passou a conhecer o Michael real — um homem generoso, preocupado com o próximo e com um senso de empatia fora do comum. Em certo momento, Michael pediu: “Não me chame mais de senhor. Me chame apenas de Michael.”

Pouco tempo depois, veio o convite inesperado: ser seu chefe de segurança pessoal. Michael confiava nele como em poucos. A partir dali, passaram a viver juntos quase todos os dias: viajavam, compartilhavam refeições e silêncios. E foi nesse convívio que vieram as maiores lições da vida de La Perruque.
Cansado de lidar com multidões de fãs, o segurança tentou uma solução prática: conduziu Michael por uma saída traseira, longe das pessoas. Ao entrar no carro, Michael perguntou: “Mike, por que evitou os fãs?”
Ele explicou que queria protegê-lo. A resposta foi marcante:
“Eles me amam. Eles me sustentam. Nunca me afaste deles.”
Naquele momento, La Perruque entendeu que estava diante de um homem com um nível de gratidão e humildade que poucos conhecem.
Michael o ensinou a olhar diferente para as pessoas. A ver humanidade em todos. Ele ajudava moradores de rua, mulheres em abrigos, crianças abandonadas. E fazia tudo em silêncio, porque o foco não deveria estar nele, mas em quem precisava de ajuda.
Em Londres, ao ver um sem-teto na rua, Michael entregou discretamente US$ 100. No Natal, encheu vans com brinquedos para crianças vítimas de violência. Mas proibiu câmeras. “Quero que o dia seja delas, não meu”, disse. Essa era sua essência.

Num episódio inusitado, ao ver um homem com o carro quebrado, pediu que seu motorista parasse. Depois, quis aprender a trocar o pneu. Sem plateia, sem vaidade. Apenas Michael sendo gente.
Ele dizia que aprendeu isso com a mãe, Katherine Jackson. Ela costumava parar o carro para ajudar estranhos. E ele seguia o exemplo, mesmo com toda a fama do mundo aos seus pés.
Mas a mídia não se importava com isso. Preferia distorcê-lo. Chamá-lo de “Wacko Jacko”, inventar histórias, editar fotos, alimentar o sensacionalismo. A verdade era que o Michael da imprensa jamais existiu.
Ele sofria. Perguntava a La Perruque, com tristeza: “Por que não me deixam em paz?”
Durante o julgamento de 2003, La Perruque foi uma das testemunhas que declarou com firmeza:
“Isso é mentira. Eu estava com ele 24 horas por dia.”
Mas o estrago já estava feito.
Michael temia que até seus fãs tivessem se afastado. Pouco antes de morrer, confessou: “E se eles não me amarem mais?” Era o medo de alguém que havia dado tudo ao mundo e recebia de volta apenas ataques e desconfiança.
Quando a notícia de sua morte chegou, La Perruque congelou. Vieram à mente as conversas, os abraços, as refeições simples divididas. As asas de frango apimentadas na van, a música clássica no carro, os conselhos sussurrados entre shows.
Michael La Perruque faleceu em 2015, vítima de câncer. Sua partida encerrou a vida de um homem que não apenas protegeu Michael Jackson fisicamente, mas defendeu sua verdade até o último dia. Seu legado vive nas histórias que contou — e, sobretudo, nas que viveu.




