[Opinião] Espólio vs. Paris Jackson: Transparência ou Tranquilidade? | MJ Beats
Paris Jackson ilustrada com o busto de seu pai, Michael Jackson, ao fundo. Imagem criada por IA.

[Opinião] Espólio vs. Paris Jackson: Transparência ou Tranquilidade?

Em toda disputa de herança, o que está em jogo raramente é só dinheiro. É confiança. E confiança, uma vez trincada, não se repara com cifras, mas com luz.

No processo que Paris Jackson move contra os executores do espólio de seu pai, a discussão imediata parece prosaica: horas de advogado não registradas, pagamentos antecipados, “presentes” de seis dígitos a profissionais já bem pagos. Mas, no fundo, estamos diante de um dilema filosófico e jurídico antigo: até que ponto quem administra bens alheios pode agir no campo nebuloso entre a legalidade formal e a moralidade da função?

O executor testamentário é, por definição, um fiduciário. Isso significa que não basta trazer bons resultados — é preciso chegar a eles de forma que todos os beneficiários possam auditar, compreender e, idealmente, aprovar. Caso contrário, o sucesso vira argumento de autoridade: “ganhamos bilhões, logo, merecemos confiança”. É o mesmo raciocínio que regimes autoritários usam quando apontam para pontes e arranha-céus, como se prosperidade fosse sinônimo de legitimidade.

O problema, já intuído por Aristóteles, é que virtude não se mede em metros de construção ou em dólares arrecadados. Mede-se na qualidade do processo, no respeito a limites, na capacidade de resistir à tentação de confundir poder com propriedade. Locke diria que a posse legítima exige, além do trabalho, a observância das regras comuns. No caso de um espólio, isso se traduz em uma palavra: prestação de contas.

Paris não está pedindo a implosão da gestão. Reconhece méritos, mas cobra método. E, talvez sem perceber, expõe um paradoxo que vai além dos tribunais: às vezes, para preservar um legado, é preciso aceitar o desconforto da desconfiança. É o preço de evitar que a autoridade, mesmo bem-sucedida, se torne absoluta.

Porque, no fim, a pergunta não é “quanto o espólio vale?”, mas “quanto vale a nossa capacidade de questioná-lo?”. E, como lembraria Rousseau, há momentos em que a paz aparente só se mantém ao custo da liberdade real.