A espera por um filme pode ser um ato de fé ou um exercício de masoquismo. No caso da biopic de Michael Jackson, lançada em capítulos invisíveis por uma Lionsgate calada como professor de ética após o escândalo de um colega no departamento, o que se vive é um misto dos dois. Estamos diante de um ritual que mais parece vigília do que campanha promocional: são fãs conectados dia e noite, esperando um sinal – qualquer sinal – como se Michael fosse aparecer de holograma e anunciar que o trailer está entre nós. Não está!
A comparação mais honesta talvez não seja com Hollywood, mas com Ayrton Senna no GP de Mônaco de 1988, quando liderava com trinta segundos de vantagem, até perder a concentração e bater na curva Portier. É isso que parece estar acontecendo com a produção: começou embalando com promessas, mas sumiu da pista, talvez hipnotizada pelo próprio mito que carrega. E o público, como Ron Dennis naquela tarde, só pode ficar estático, sem saber se grita ou se volta a fumar.

Nos grupos de WhatsApp onde acompanhei os fãs de 01 a 06 de novembro, vi mais angústia que em reunião de departamento para cortar bolsa de pesquisa. Gente que já comprou ingresso mentalmente, tirou folga no trabalho, planejou looks para a estreia. E ainda assim, nem pôster. Nem teaser. Nem uma imagem promocional feita no Paint por um estagiário. Nada. A essa altura, até o anúncio de que o filme seria adiado outra vez seria mais respeitoso do que esse silêncio que vem se prolongando como discurso de reitor em colação de grau.
Claro que, como todo bom culto, há os apóstolos e os hereges. Tem quem diga que “vai valer a pena”, que “a ausência de material promocional é estratégia”, que isso é “Beyoncé style: no visuals”. Outros respondem que até Beyoncé já lançou perfume novo, e a Lionsgate continua agindo como se o filme fosse uma espécie de evangelho secreto, mantido longe da imprensa por questões de segurança celestial. Ora, nem Jesus precisou de tanto mistério para lançar o Novo Testamento. E, convenhamos, ele teve bem menos orçamento.

O curioso é que, nessa ausência de conteúdo, tudo vira símbolo. Um fã viu na menção a lucros projetados para 2026 e 2027 um indício de que o filme será lançado em duas partes. A análise é feita com a mesma seriedade com que se interpretava a fumaça da chaminé no conclave papal. Mas aqui a fumaça é digital, e os cardeais são investidores falando de “Q4 earnings”.
A situação começa a lembrar a velha máxima kantiana sobre o sublime: aquela experiência que nos confronta com a imensidão, com o incompreensível, com o que excede nossos sentidos. Só que, no lugar do céu estrelado, temos a timeline do X (antigo Twitter), e no lugar da razão prática, temos fãs tentando montar um quebra-cabeça com peças que nem sequer foram fabricadas. Se Kant estivesse no grupo, talvez dissesse: “a moral exige que o filme estreie, mas a natureza parece conspirar contra”.
Talvez a melhor explicação para tudo isso venha mesmo da política: quanto mais vago o discurso, mais espaço se dá para a fé. E a Lionsgate, nesse sentido, se comporta como certos partidos que ganham eleições dizendo apenas “mudança”. O problema é que até a esperança precisa de algo palpável para se alimentar. Ninguém vota numa ideia vazia por quatro anos sem que ao menos se receba um santinho.
A produção de uma biopic sobre Michael Jackson não é apenas a tarefa de retratar um artista. É a tentativa de encapsular um mito em duas horas de cinema. E isso é pedir demais, até mesmo para Hollywood. Mitos, por definição, resistem à narrativa. O que os fãs estão tentando fazer, ao exigir teaser e pôster como se fossem provas de vida, é exercer controle sobre o incontrolável – algo que nem os deuses gregos conseguiam com seus próprios heróis. Nem Zeus saberia o que fazer com um filme sobre Michael.
Mas eis a questão: talvez o filme já esteja acontecendo. Não na tela, mas nas conversas, nos surtos coletivos, nas especulações furiosas. Talvez o verdadeiro espetáculo esteja nos bastidores, no teatro da espera, na partilha do desespero. Afinal, como disse Hume, a razão é escrava das paixões. E os fãs de Michael, coitados, estão apaixonados demais para aguentar racionalidades.
O que resta, então? Esperar. E torcer para que o filme chegue antes que o mundo acabe, ou antes que inventem mais um reboot da Marvel. Porque, convenhamos, se este filme demorar mais do que já demorou, até o Elvis pode resolver voltar e roubar a cena.




