Entre Cofres e Canções: Bryan Loren, o colaborador de 'Dangerous' que ajudou a moldar Michael Jackson | MJ Beats
Entre Cofres e Canções: Bryan Loren, o colaborador de 'Dangerous' que ajudou a moldar Michael Jackson | michael jackson bryan loren tribute 1 1920x768 1 scaled

Entre Cofres e Canções: Bryan Loren, o colaborador de ‘Dangerous’ que ajudou a moldar Michael Jackson

Bryan Loren, produtor, compositor e multi-instrumentista por trás de parte do material inédito de Michael Jackson na era Dangerous, morreu aos 58 anos. A confirmação veio por meio de seu irmão, Geno, no último fim de semana. Considerado um prodígio musical, Loren iniciou sua trajetória nos estúdios Alpha International, na Filadélfia, participando de sessões com nomes como Rose Royce, Tavares e Harold Melvin & the Blue Notes. Em 1984, lançou seu álbum de estreia autointitulado, totalmente autoral. O single “Lollipop Luv” alcançou o 23º lugar nas paradas de R&B, enquanto “Do You Really Love Me?” permaneceu 17 semanas nos charts, sinalizando um talento que ainda estava apenas começando a ser percebido.

O Legado de Bryan Loren

Ao longo da carreira, Loren construiu um currículo impressionante. Trabalhou com Sting no álbum Nothing Like the Sun, escreveu “Feels So Good” para Whitney Houston e produziu sucessos de Vesta Williams, como “Something About You” e “Don’t Blow a Good Thing”. No fim dos anos 1980, fazia algo muito semelhante ao que Teddy Riley, outro colaborador de Michael Jackson, também desenvolvia: a fusão de funk, soul e produção digital, que daria origem ao New Jack Swing. Riley acabou colhendo maior sucesso comercial e reconhecimento público, mas Loren estava ali, na linha de frente dessa primeira onda criativa.

Em 1990, Bryan Loren recebeu o Sony Innovator Award in Sound, entregue por George Benson, que resumiu bem seu potencial ao dizer: “Bryan tem o poder do talento; a imaginação dele o levará longe.” Sua colaboração mais conhecida com Michael Jackson foi “Do the Bartman”, do álbum The Simpsons Sing the Blues. Loren escreveu e produziu a faixa; Jackson participou com backing vocals, mas não foi creditado por questões contratuais com a Sony. Os dois também trabalharam extensivamente durante o processo de criação de Dangerous, com Loren sendo chamado por Jackson antes mesmo de o álbum ter um título definido. O objetivo era ambicioso: alcançar a coerência musical de Off the Wall e afastar Michael do pop dominante da época, conduzindo-o a um território mais cru, funk e R&B.

Os Bastidores da Parceria Entre Jackson e Loren

O método de trabalho entre os dois era orgânico. Loren apresentava ganchos, melodias e bases, e Jackson preenchia esses espaços com letras próprias, lapidando tudo ao longo das sessões em estúdio. Loren tocou bateria e percussão em faixas que chegaram ao álbum final. Ainda assim, a maior parte desse material permanece guardada nos cofres do espólio. Canções como “Serious Effect”, “Work That Body” e “Seven Digits” sobreviveram apenas em demos que circularam entre fãs, revelando um Michael Jackson experimentando grooves mais pesados e uma produção mais agressiva do que a que acabou sendo lançada. Mais tarde, Teddy Riley assumiria a maior parte da produção de Dangerous, mas a impressão digital de Bryan Loren segue presente no álbum.

Em 1992, Loren lançou “Music from the New World” pela Arista Records. Michael Jackson participa com backing vocals em “To Satisfy You”, faixa que havia sido descartada durante Dangerous, mas que Jackson aceitou cantar quando Loren decidiu guardá-la para si. Após a morte de Jackson, em 2009, Loren demonstrou frustração com o vazamento de músicas inacabadas em que haviam trabalhado juntos. Para ele, a questão era de princípio: nem ele nem Michael tiveram a chance de concluir e apresentar aquelas faixas da forma como imaginaram.

Legado

A morte de Bryan Loren representa a perda de mais uma fonte primária da história criativa de Michael Jackson. Ano após ano, desaparecem pessoas que estiveram dentro do estúdio, levando consigo contextos insubstituíveis sobre como aquelas músicas nasceram e o que Jackson realmente pretendia. Talvez o futuro biográfico ajude a reforçar a importância de se lançar material desenvolvido por colaboradores reais, como Loren. Como escreveu seu irmão Geno: “Meu irmão era filho de seu pai… um músico brilhante que viveu sua vida sem pedir desculpas. Seu talento era ELITE, e seu caráter era verdadeiro… recebeu o dom e deixou sua marca no mundo.”

Uma marca que poderia e deveria ter brilhado muito mais. Afinal, uma constelação não é um único ponto de luz no céu. E Michael Jackson sempre soube disso.

por Ryan Smith