Por: Brad Sundberg, diretor técnico de Michael Jackson por 18 anos
”A primeira vez que uma bala de menta acertou meu braço no estúdio, ela caiu no chão sem fazer barulho. Quando olhei em direção à mesa de som, Michael estava com um sorriso contido, os olhos brilhando de quem tinha acabado de aprontar. E naquele momento, entendi: era o início de mais uma das nossas brincadeiras silenciosas.
Trabalhei com Michael Jackson por quase duas décadas como seu diretor técnico, acompanhando de perto ensaios, gravações e turnês. Mas as memórias que mais me acompanham não envolvem palcos iluminados ou efeitos grandiosos. São as pequenas coisas, aquelas que só quem convive entende.
Michael era conhecido por suas pegadinhas, mas não do jeito que o público imagina. Nada de tortas na cara ou armadilhas cinematográficas. As brincadeiras dele eram mais sutis, muitas vezes até bobas — mas carregadas de afeto e cumplicidade.
Em Neverland, era comum ser surpreendido por um jato de água de Super Soaker ou um balão d’água vindo do nada. Em dias quentes, confesso, eram até bem-vindos. Mas os momentos mais marcantes não foram esses. Eles nasceram nos bastidores, nos estúdios, onde o silêncio era quase sagrado.
Tínhamos sempre à mão latas de Altoids, aquelas balas de menta. Durante longas sessões, eu pegava uma e colocava em cima de um dos faders da mesa de som, na frente dele, sem dizer nada. Pouco tempo depois, ele devolvia o gesto, colocando uma na minha frente.
Assim começava uma espécie de “duelo mudo” com balas de menta. Depois de três ou quatro, ele começava a rir. Às vezes, deixávamos todas ali o dia inteiro. Era um jogo nosso, só nosso. Como se dois meninos tivessem criado um segredo no meio da complexidade técnica de uma gravação internacional.

Em outra ocasião, gravávamos um coral infantil em Nova York para o álbum HIStory. Eu estava com a câmera, registrando tudo. Michael estava mais ao fundo, ouvindo nos fones. Quando virei a lente para ele, fez uma careta e mostrou a língua — como uma criança que confia no amigo para rir com ela, não dela.
Esses momentos eram mágicos justamente por serem simples. Ele sabia que podia ser ele mesmo. Sem personagem. Sem pressão. E eu também.
Michael nunca contou piadas sujas, nem zombava das pessoas. Não era o estilo dele. Claro, ria de coisas bobas ou até ousadas que surgiam no estúdio, mas preferia aquele tipo de humor que nasce no olhar, no gesto, na leveza.
Era como voltar no tempo. Como reviver aquelas amizades da escola, quando qualquer bobeira se tornava motivo de riso. A diferença é que agora estávamos adultos — cercados por microfones de última geração, engenheiros de som e deadlines — mas ainda havia espaço para jogar jelly beans pelo ar e esconder sapatos alheios.
Sim, esconder sapatos. Michael adorava fazer isso com Bill Bray, seu segurança de longa data. Bill tirava os sapatos para descansar no sofá do estúdio e, quando acordava, precisava procurar por eles — enquanto Michael se divertia observando.
Essas não eram só brincadeiras. Eram lembretes de que, mesmo vivendo sob holofotes, Michael ainda preservava um lado puro, quase infantil, que buscava conexão verdadeira. E quem estava por perto percebia isso nos detalhes.
Eu poderia listar grandes momentos técnicos, decisões de mixagem, desafios de palco. Mas, no fim, o que mais ficou foi o som abafado de uma bala caindo no chão… e o riso contido logo em seguida.
Você não encontra amizades assim todos os dias. Mas, por quase 18 anos, tive o privilégio de trabalhar ao lado de alguém que nunca deixou de brincar. E quando uma Altoid voava na minha direção sem aviso, eu sabia exatamente quem era o autor.




