01 de janeiro de 2026. O mundo acorda meio torto, dividido entre promessas exageradas e ressacas morais. As academias ainda estão cheias, os planos ainda parecem possíveis e a sensação geral é aquela mistura estranha de esperança e cansaço antecipado. Para a maioria, é apenas mais um ano começando. Mas, para quem acompanha a trajetória de Michael Jackson com um mínimo de atenção histórica, e não apenas emocional, há uma energia diferente no ar.
Estamos entrando, ao que tudo indica, na chamada Biopic Era. O cinema resolveu olhar para trás, revisitar seus ídolos e reorganizar a memória coletiva. Nesse movimento, Michael reaparece como um ponto de convergência inevitável. A prometida Michaelmania não é exagero de fã. É um fenômeno cultural em gestação.

O entusiasmo é compreensível. Ver o nome de Michael novamente associado à arte, e não ao escândalo, provoca uma sensação curiosa de justiça tardia. Há uma geração inteira que nunca o conheceu fora da caricatura: fragmentos de vídeos no TikTok, manchetes enviesadas, documentários mais interessados em chocar do que em compreender. A ideia de que o cinema possa devolver humanidade, contexto e complexidade a uma figura tão maltratada pela narrativa midiática é sedutora.
Mas convém conter a euforia. A história já mostrou que Michael Jackson nunca retorna sozinho. Sempre que ele volta ao centro do palco, seus “fantasmas” o acompanham. No caso dele, relevância sempre funcionou como moeda de duas faces: quanto mais luz, mais sombra se projeta.
Não é realista imaginar que 2026 será apenas um desfile de homenagens. A indústria do escândalo continua ativa e atenta. Ela não precisa criar nada novo, basta esperar o momento certo. O sucesso incomoda, mas a reabilitação simbólica incomoda muito mais. Muita gente construiu carreira, audiência e autoridade moral em cima da destruição desse legado. Isso não se desfaz sem resistência.
Preparem-se, portanto, para o cheiro conhecido de coisa guardada em gaveta antiga. Velhas mentiras, já enfrentadas em tribunais e investigações sérias, voltarão embaladas como “novas discussões”. Nada de realmente inédito será apresentado. O que muda é apenas o enquadramento, pois o ultraje continua sendo um produto rentável.
Esse é o paradoxo cruel das grandes figuras culturais: quanto mais se tenta recolocá-las no lugar da arte, mais esforço alguns fazem para puxá-las de volta para a lama. Não se trata exatamente de ódio. Trata-se de mercado.
Entramos em 2026 com um otimismo que precisa ser adulto. A cinebiografia de Michael Jackson tem tudo para se tornar um marco cultural. Mas ela exigirá algo que talvez tenha faltado no passado: um público menos histérico, menos apressado e mais disposto a distinguir julgamento de espetáculo.
A questão nunca foi a inexistência de uma verdade sobre Michael. Ela sempre esteve disponível para quem quisesse ir além da manchete fácil. A questão é outra: o que fazemos quando a versão confortável da história que consumimos por anos começa a perder o controle? A Michaelmania está voltando. Resta saber se, ao trazermos o Rei de volta ao centro do palco, teremos estômago para lidar também com os bobos da corte e os carrascos que sempre fizeram questão de ocupar as primeiras filas.
Talvez 2026 não seja o ano do consenso. Mas pode, e deveria, ser o ano em que a lucidez volte a valer alguma coisa.



