Há trinta anos, o Brasil se tornava palco de um dos capítulos mais intensos e simbólicos da história da música pop. Em 1996, Michael Jackson escolheu o país para gravar o clipe de “They Don’t Care About Us”, uma obra que ultrapassaria o entretenimento e se consolidaria como um manifesto audiovisual sobre desigualdade, exclusão e resistência.
A decisão de filmar em solo brasileiro não foi aleatória. Sob a direção de Spike Lee, o projeto buscava cenários reais, vivos e socialmente marcados. Michael queria que a câmera não apenas mostrasse imagens impactantes, mas que revelasse territórios, pessoas e tensões coerentes com a mensagem da canção.
O Rei do Pop entendia que aquele clipe precisava incomodar. Mais do que um sucesso musical, ele deveria provocar reflexão. Por isso, cada escolha, do roteiro aos locais foi pensada como parte de um discurso maior.
Salvador e o Pelourinho diante do mundo
No dia 9 de fevereiro de 1996, Michael Jackson desembarcou em Salvador. A notícia correu rápido, impulsionada por rumores, rádios e jornais, em uma época sem redes sociais. Em poucas horas, o Pelourinho começou a se transformar.
Naquela manhã, o Centro Histórico não era apenas um cartão-postal. Era um espaço em suspensão. Ruas normalmente cheias estavam tomadas por expectativa. Moradores, fãs e curiosos se misturavam, conscientes de que algo extraordinário estava prestes a acontecer. O mundo estava prestes a olhar para Salvador.
As gravações reuniram cerca de 200 músicos do Olodum, cujos tambores ecoaram pelas ladeiras de pedra como um chamado coletivo. Segundo estimativas da Polícia Militar, aproximadamente 5 mil pessoas acompanharam o processo, criando um ambiente ao mesmo tempo festivo, tenso e histórico.

O encontro entre Michael Jackson e o Olodum foi mais do que musical. Foi simbólico. A cultura afro-brasileira ocupava o centro da cena, dialogando com uma das maiores figuras da música mundial. Ali, não havia figurantes: a comunidade fazia parte da narrativa.
Cada take carregava mais do que técnica. Carregava identidade, pertencimento e força cultural. O Pelourinho deixou de ser cenário e passou a ser personagem central daquela história.
Do Pelourinho ao Morro Dona Marta
Dias depois, em 11 de fevereiro de 1996, a produção seguiu para o Rio de Janeiro. O destino era o Morro Dona Marta, na zona sul da cidade. Assim como Salvador, a escolha do local tinha peso social e político.
A chegada da equipe foi cercada de tensão. Naquele período, a comunidade vivia sob o domínio do tráfico, associado ao nome de Marcinho VP, e a presença de uma produção internacional exigiu negociações delicadas e cuidados extremos com segurança. Ainda assim, Michael Jackson fez questão de seguir adiante.
Gravar no Dona Marta não era apenas um desafio logístico. Era uma afirmação. O clipe não buscava suavizar a realidade, mas evidenciá-la. Vielas, lajes e escadarias passaram a integrar uma narrativa vista por milhões de pessoas ao redor do planeta.

O impacto foi imediato. O clipe gerou debates, críticas e aplausos. Mas, acima de tudo, consolidou-se como uma das produções mais corajosas da carreira de Michael Jackson, justamente por não evitar o desconforto que a música propunha.
Homenagem
No encerramento daquela jornada, o Morro Dona Marta ganhou mais do que imagens para um videoclipe. Anos depois, o local passou a abrigar uma estátua em homenagem a Michael Jackson, erguida exatamente no ponto onde o Rei do Pop gravou uma das cenas mais emblemáticas de “They Don’t Care About Us”.

Um legado que atravessa décadas
Com o passar dos anos, o alcance da obra só cresceu. Hoje, “They Don’t Care About Us” é a segunda produção mais assistida no canal oficial de Michael Jackson no YouTube, ultrapassando 1 bilhão de visualizações, um marco que confirma sua relevância cultural.
Mais do que números, o clipe permanece atual porque fala de temas que seguem urgentes: desigualdade, racismo, violência e invisibilidade social. O que foi registrado em 1996 continua ecoando com força no presente.
Trinta anos depois, Salvador e Rio de Janeiro permanecem ligados para sempre à trajetória de Michael Jackson. Não apenas como cenários, mas como símbolos de uma obra que ousou levar as margens para o centro do palco.




