Michael Jackson era um homem negro orgulhoso e fez mais por sua comunidade do que muitos dos que hoje questionam sua identidade. Mesmo com acesso fácil à informação, ainda há quem repita o mito de que ele clareou a pele, ignorando seu diagnóstico de vitiligo. Essa desinformação alimentou a falsa narrativa de que ele teria rejeitado suas raízes.
Comentários aparentemente inofensivos nas redes sociais, como “ele realmente era um homem negro”, revelam um desconhecimento básico. Filho de dois pais negros e irmão de oito negros, Jackson nunca deixou de ser quem era. A ideia de que alguém pode simplesmente mudar de raça após o sucesso de Thriller não se sustenta. O que mudou foi sua dimensão artística, não sua identidade. Questionar sua negritude diz mais sobre o preconceito estrutural do que sobre ele.
A barreira quebrada na MTV
No início dos anos 1980, a MTV se recusava a exibir o curta de “Billie Jean”. A justificativa oficial era que o vídeo não se encaixava na programação de rock, mas o que estava implícito era claro: artistas negros não tinham espaço na rotação principal. A situação só mudou quando Walter Yetnikoff, então presidente da CBS Records, ameaçou retirar todos os artistas da gravadora da emissora. Quando o vídeo finalmente foi ao ar, o impacto foi imediato.
O sucesso de “Billie Jean”, seguido por “Beat It” e “Thriller”, não apenas consolidou Jackson como um fenômeno global, mas abriu portas para inúmeros artistas negros que vieram depois. Ele mudou a indústria na prática.
Oportunidades reais para profissionais negros
Ao longo da carreira, Michael Jackson impulsionou talentos negros em posições de destaque. Wesley Snipes teve em “Bad” seu primeiro grande papel, antes de se tornar astro de Hollywood nos anos 1990. Jackson também trabalhou com produtores como Teddy Riley e Rodney Jerkins, fortalecendo suas trajetórias na música. Convidou John Singleton para dirigir “Remember the Time” e colaborou com Spike Lee em “They Don’t Care About Us”. Não eram gestos simbólicos, eram decisões estratégicas que geravam impacto profissional e financeiro real.
O apoio às mulheres negras também foi consistente. Modelos como Iman e Naomi Campbell foram protagonistas em seus projetos. Cantoras como Siedah Garrett participaram da criação de “Man in the Mirror” e dividiram vocais com ele. O grupo Brownstone foi contratado para seu selo MJJ Music, e ele ainda apoiou o uso de “Human Nature” pelo grupo SWV sem cobrança. Nos bastidores, contratava profissionais negros para cargos administrativos, criativos e técnicos, fortalecendo carreiras longe dos holofotes.
Seu compromisso também foi financeiro e institucional. Em 1986, criou o Michael Jackson UNCF Endowed Scholarship Fund, destinando 1,5 milhão de dólares para estudantes de artes e comunicação. Em 1988, doou 600 mil dólares arrecadados em show no Madison Square Garden ao United Negro College Fund e recebeu doutorado honorário da Fisk University.

Após sua passagem, a NAACP destacou suas contribuições à África e às comunidades carentes, lembrando inclusive seu reconhecimento no Guinness por filantropia. Em Neverland, levava crianças de bairros periféricos para dias de lazer, longe da realidade difícil que enfrentavam.
Muitas dessas ações nunca foram divulgadas por ele mesmo. Antes de perguntar o que Michael Jackson fez por sua comunidade, talvez a pergunta mais justa seja outra: o que cada um de nós tem feito pela nossa?
por Jael Rucker, Decked Out Magazine




