O dia em que o Rei do Pop se curvou ao tambor: os bastidores de Michael Jackson no Pelourinho | MJ Beats
Michael Jackson em Salvador em 1996, ao lado de Bira

O dia em que o Rei do Pop se curvou ao tambor: os bastidores de Michael Jackson no Pelourinho

No caloroso verão da Bahia, há exatos 30 anos, Michael Jackson subiu as ladeiras do Pelourinho para protagonizar um dos momentos mais simbólicos de sua carreira e da cultura pop global. O artista promovia They Don’t Care About Us, uma de suas canções mais explícitas em tom de denúncia social, e escolheu Salvador – a cidade com a maior população negra fora da África – como cenário para um videoclipe que não buscava neutralidade.

À época, a decisão não foi consenso. Autoridades locais tentaram impedir as gravações, parte da imprensa internacional acusou o projeto de explorar imagens de pobreza e o clipe foi interpretado como um gesto político incômodo tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Trinta anos depois, o que permanece não é a controvérsia, mas a força de um encontro que atravessou fronteiras.

Quem revive essa memória com grande carinho é Bira Jackson, percussionista do Olodum, que participou da gravação do clipe e da produção de uma das versões da faixa. O músico concedeu uma entrevista exclusiva, detalhando os instantes ao lado de Michael Jackson naquele dia.

Primeiras impressões de Michael em Salvador

Ao ser questionado sobre o impacto da chegada de Michael Jackson, Bira descreve que a surpresa inicial foi rapidamente substituída por uma percepção de profunda humanidade e respeito por parte da maior estrela do planeta. Ele notou que, apesar da fama estrondosa, o cantor demonstrava uma postura de escuta e curiosidade genuína em relação aos artistas e ao território que o recebia.

“A primeira impressão foi de surpresa e respeito. Michael era extremamente reservado, observador e educado. Apesar de ser uma grande estrela, ele se mostrava atento a tudo, perguntava sobre os tambores, sobre a história do Olodum e sobre a cultura baiana. Não havia arrogância. Havia curiosidade e sensibilidade artística.”

A presença do cantor em Salvador extrapolou rapidamente o controle logístico da produção. O que estava planejado como uma gravação tornou-se um acontecimento popular que mobilizou a cidade. Uma multidão estimada em mais de cinco mil pessoas tomou as ruas estreitas do Pelourinho, cantando, dançando e acompanhando cada movimento.

“Ele ficou visivelmente impactado. O calor humano, o som dos tambores e a energia do povo baiano chamaram muito a atenção dele. Michael demonstrava emoção ao ver a multidão cantar, dançar e se reconhecer naquela música.”

O toque baiano que virou moda mundial

O calor intenso de Salvador impôs desafios até mesmo ao figurino de Michael. Originalmente vestindo uma camisa com a estampa do Olodum, o cantor decidiu improvisar para lidar com o clima: cortou a peça, criando uma abertura que acabou se tornando parte da estética definitiva do clipe.

“O sol da Bahia fez ele ‘criar’ um modelo especial de camisas do Olodum. Ele pediu nossas camisetas e cortou, fazendo uma abertura nelas. Virou um produto desejado mundialmente e reconhecido em todos os países que visitamos, até hoje!”, relembra Bira.

Mais do que uma solução prática, o gesto se transformou em símbolo. A imagem de Michael Jackson vestindo o Olodum correu o mundo, ajudando a consolidar o grupo como referência internacional da cultura afro-brasileira contemporânea.

Improviso, tambor e verdade

Sob direção de Spike Lee, o processo de gravação exigiu flexibilidade de todos os envolvidos. O pouco tempo para ensaios e a dinâmica viva da bateria do Olodum fizeram com que muitos ajustes rítmicos e coreográficos fossem definidos no próprio momento da filmagem.

“A dinâmica do Pelourinho e da bateria do Olodum é muito viva. Algumas entradas de tambor e movimentos acabaram sendo ajustados na hora, conforme a resposta do público e a energia do momento. Michael e a direção foram abertos a essas mudanças, porque perceberam que o improviso fazia parte da verdade daquele encontro.”

Essa abertura ao improviso foi essencial para que o clipe não soasse encenado ou turístico. O que se registrou ali foi um encontro real entre linguagens, corpos e histórias.

Um legado que segue ecoando

Neste mês de fevereiro, They Don’t Care About Us completa 30 anos. A canção, descrita pelo próprio Michael Jackson como um alerta contra o preconceito, o ódio e a violência institucional, permanece atual. O videoclipe gravado no Pelourinho e no Morro Dona Marta ultrapassa 1,2 bilhão de visualizações no YouTube.

Para Bira, a parceria com o Rei do Pop foi um divisor de águas na trajetória do Olodum.

“O impacto foi enorme. O Olodum passou a ser definitivamente reconhecido como um grupo de relevância mundial. Surgiram novos convites, parcerias e turnês internacionais. Mais do que isso, o Olodum passou a ser visto como um símbolo da cultura afro-brasileira contemporânea.”

Três décadas depois, a leitura histórica ajuda a reposicionar aquele momento. O clipe não foi um gesto de exotização, mas de alinhamento político e simbólico. Um artista negro global, um grupo percussivo negro brasileiro e um território marcado por memória e resistência se encontraram diante das câmeras.

“Foi um encontro histórico. Esse clipe mostrou ao mundo que a música negra é global, política e profundamente conectada às lutas sociais. Não foi apenas um videoclipe: foi um marco cultural que segue ecoando”, conclui Bira Jackson.

Entrevista e texto por Fabrícia Leite