O julgamento fora do palco: como tribunais quase barraram Michael Jackson no Rio | MJ Beats
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O julgamento fora do palco: como tribunais quase barraram Michael Jackson no Rio

Dias antes do início das filmagens de They Don’t Care About Us, a produção enfrentou uma crise que quase inviabilizou tudo. Dois obstáculos surgiram ao mesmo tempo. Questões ligadas a vistos de trabalho e uma ação judicial coletiva levaram um júri federal a proibir as gravações no Rio de Janeiro por 20 dias. O clima era de incerteza total, e nos bastidores a palavra mais repetida era uma só: cancelamento.

Os rumores se espalharam rápido. Dizia-se que Michael Jackson não viria ao Brasil sob nenhuma circunstância. A decisão judicial foi recebida com críticas duras, sendo interpretada por muitos como censura prévia. Para um país que havia saído recentemente de mais de duas décadas de regime militar, o tema tocava em uma ferida ainda aberta.

Quando a justiça ameaça silenciar a arte

A pressão da opinião pública teve efeito. O mesmo juiz que havia imposto a proibição inicial recuou e reduziu o bloqueio de 20 para cinco dias. Pode parecer pouco, mas naquele contexto, cinco dias significavam a diferença entre existir ou não existir um videoclipe. O tempo, naquele momento, era o maior inimigo da produção.

Investigar esse período revelou como o processo jornalístico também é feito de altos e baixos. Há dias de absoluto desânimo e outros em que um único telefonema muda tudo. Foi exatamente isso que aconteceu quando, depois de várias tentativas frustradas, meu telefone tocou. Do outro lado da linha estava Gianna Nunes, advogada, 59 anos, dona de uma das histórias mais decisivas daquele episódio.

Gianna explicou que, ao longo de sua carreira, acumulou casos marcantes, mas poucos tiveram impacto coletivo tão grande quanto aquele. Nos anos 1990, ela foi responsável por obter a autorização judicial que permitiu a gravação do clipe de Michael Jackson no Morro Santa Marta, sob direção de Spike Lee. Na época, a disputa jurídica foi intensa e pública.

A batalha jurídica nos bastidores do clipe

Havia uma liminar concedida por outro advogado que impedia as filmagens. O caso chegou à Câmara dos Vereadores do Rio, onde o então vereador Antônio Pitanga, ligado à cultura e às comunidades populares, decidiu agir. Pitanga confiou a Gianna a missão de elaborar uma peça jurídica capaz de derrubar a liminar e garantir que o clipe fosse filmado.

Antônio Pitanga, um dos grandes nomes do cinema brasileiro, estava no último ano de seu mandato como cidadão-conselheiro. Seu foco sempre foi a cultura e as comunidades empobrecidas. Sua intervenção foi decisiva. Gianna lembra que estava em sua rotina de escritório quando recebeu a ligação que mudaria tudo.

A partir daquele momento, começou uma verdadeira corrida contra o relógio. Era preciso definir rapidamente qual ação propor, como demonstrar a urgência do caso e convencer o Judiciário da necessidade de um despacho imediato. O telefone não parava de tocar, cobrando respostas, prazos e soluções. Cada minuto contava.

Diplomacia, desconhecimento e a corrida contra o tempo

A tensão aumentou quando a equipe de Michael Jackson avisou que, se ele não embarcasse no dia seguinte, não embarcaria mais. Gianna então fez o que parecia impensável. Pegou o telefone e ligou diretamente para o embaixador. Explicou que o Brasil estava prestes a criar uma situação diplomática desnecessária e constrangedora.

O problema central era o desconhecimento. Havia uma confusão entre visto artístico e vínculo empregatício local. Tratava-se de um erro técnico transformado em crise política. Após a conversa, o embaixador compreendeu a situação, os vistos foram corretamente aprovados e o impasse começou a se dissolver.

No fim, a liminar foi concedida por um desembargador que demonstrou uma visão social rara e necessária no Judiciário. A gravação aconteceu. O clipe foi finalizado. Mas o episódio deixou claro como a arte, no Brasil, muitas vezes precisa vencer não apenas desafios criativos, mas barreiras jurídicas, burocráticas e políticas para existir.

O que quase impediu They Don’t Care About Us não foi falta de recursos ou de talento. Foi o medo do impacto. Porque quando a arte expõe desigualdades e aponta feridas reais, ela incomoda. E, como mostrou aquele episódio, às vezes é preciso lutar nos tribunais para garantir o direito de mostrar a verdade.

Para quem deseja aprofundar essa história, ouvir os personagens envolvidos e compreender como arte, política e resistência se cruzam nesse episódio histórico, vale assistir à docussérie Behind the Saturday Sun, de Manuela Bezamat. Mais do que um registro, a obra amplia o olhar sobre o impacto cultural, social e humano por trás de They Don’t Care About Us.