Poucos filmes biográficos musicais carregam uma carga psicológica tão intensa quanto Michael. Para Jaafar Jackson, assumir o papel do próprio tio não significou apenas reproduzir passos precisos, timbres vocais e gestos reconhecíveis em todo o mundo. O verdadeiro desafio surgiu quando a produção o levou a reviver o capítulo mais doloroso da vida de Michael Jackson, um período que não pertence apenas à história pública, mas também à memória íntima de sua família.
As filmagens principais foram concluídas em 2024, mas em 2025 o diretor Antoine Fuqua decidiu retornar ao set para refazer partes centrais do terceiro ato. As refilmagens exigiram extremo cuidado. Do ponto de vista legal, a produção precisou respeitar acordos antigos que limitam a forma como certos episódios poderiam ser retratados. Ao lado do produtor Graham King, Fuqua buscou preservar uma verdade emocional honesta, sem ultrapassar barreiras jurídicas, o que resultou em mudanças relevantes na estrutura do filme e no adiamento de seu lançamento.
Foi durante esse processo que surgiu a decisão mais ousada do projeto. Michael não será um único filme. A história será dividida em duas partes. A primeira se concentrará nas glórias, na ascensão meteórica, no talento revolucionário e no impacto cultural sem precedentes de Michael Jackson. A segunda abordará a tragédia, a pressão da fama, os conflitos públicos e os momentos mais sombrios de sua trajetória.
As filmagens da recriação da batida policial em Neverland, realizadas em abril de 2024, marcaram um ponto de virada emocional no set. Após várias tomadas, o impacto deixou de ser apenas psicológico e se tornou físico. Quando o diretor encerrou a gravação, Jaafar permaneceu em silêncio, visivelmente abalado. “Eu não conseguia respirar depois do take 5”, revelou mais tarde. Não era o desgaste comum das sequências de dança, mas algo mais profundo, o peso de representar uma experiência que sua família realmente viveu.
Parte desse desgaste veio da própria transformação física. Jaafar descreveu o uso da maquiagem prostética e do figurino da época como uma experiência perturbadora. Ver aquele rosto familiar no espelho, somado à tensão emocional da cena, criou uma sobreposição desconfortável entre personagem e realidade. Foi, segundo ele, o único momento em todo o processo em que considerou deixar o set.

Essa sequência exigiu não apenas preparo emocional, mas também extremo cuidado narrativo. As refilmagens de 2025 voltaram a impor limites legais à produção, especialmente na forma como a investigação poderia ser apresentada. Cada escolha precisou ser medida, equilibrando fidelidade emocional e responsabilidade jurídica.
O resultado foi uma reestruturação significativa do terceiro ato e o adiamento do lançamento para 24 de abril de 2026. A decisão, embora arriscada do ponto de vista comercial, reforçou o compromisso da equipe em não simplificar nem suavizar os momentos mais difíceis da história.
Nos bastidores, também surgiram especulações sobre a dimensão do projeto. Um corte inicial teria se aproximado das quatro horas de duração, o que fortaleceu a ideia de dividir Michael em duas partes. Uma dedicada à ascensão e ao brilho do artista, outra aos efeitos da fama e da exposição extrema. Independentemente do formato final, o elenco com nomes como Colman Domingo, Nia Long e Miles Teller sustenta o filme com interpretações sólidas e humanas.
À medida que o longa se aproxima de sua estreia internacional em Berlim, em abril de 2026, fica claro que o legado de Jaafar Jackson neste projeto não será definido apenas por passos icônicos ou performances musicais. Ele poderá ser lembrado, sobretudo, por um momento silencioso, quando permaneceu imóvel após o corte, carregando uma história que nunca foi apenas um papel. Algumas atuações assustam pela técnica exigida. Outras, pela memória que evocam. No caso de Jaafar Jackson, essa cena foi a mais aterradora e, ao mesmo tempo, a mais necessária.




