Por Isaque Souza, fundador da Michael Jackson Culture
Preciso começar afirmando que Michael é a maior cinebiografia da história. Dito isso, vou destrinchar esse veredito ponto a ponto.
O filme propõe uma narrativa clássica: o protagonista jovem e talentoso em conflito direto com o antagonista — seu pai, Joe Jackson —, que o enxerga como uma máquina de gerar lucro. Para o público geral, essa dinâmica pode soar maniqueísta, quase como um conto de fadas entre vilão e mocinho; para quem é fã, entretanto, é apenas a materialização da realidade que lemos e ouvimos por décadas.
Dentro dessa estrutura, o longa traz cenas que podem parecer acessórias à primeira vista, enquanto deixa de lado eventos que, para quem não compreendeu a proposta narrativa, seriam essenciais. Definitivamente, não acho que suavizaram a relação de Michael com o pai. A cena da agressão física foi perturbadora o suficiente. Uma coisa é ler sobre um abuso; outra é ver e ouvir os gritos de Michael. Mais do que aquilo, e entraríamos no território do filme de tortura psicológica.
Acredito que o roteiro poderia ter aprofundado o quanto Michael buscava a aprovação de Joseph. Ele queria liberdade, sim — e essa é a espinha dorsal do filme —, mas seu perfeccionismo e megalomania eram, em grande parte, frutos dessa busca incessante pelo aval paterno. Para Joe, nada nunca era bom o bastante, e Michael cresceu sob uma mentalidade de excelência que nem sempre foi saudável.
Execução e Perspectiva
O filme é claro em sua proposta: Michael lutando contra a opressão de Joseph. Poderiam ter abordado outros temas? Com certeza. Mas escolheram essa perspectiva e, na minha opinião, entregaram uma obra excepcional dentro desse recorte.
Um aviso sério: assistam entendendo a narrativa. Não cobrem o que o filme não se propõe a ser. Certamente, não é um documentário para fãs que estudam a vida de Michael há décadas; é a celebração de um legado cujo tema central é a busca pela liberdade.
Cenas como a do Grammy de 1984, onde Michael conquistou o recorde de oito estatuetas, aparecem como flashes rápidos. Embora estranho de início, o ritmo ganha sentido quando entendemos que o filme não foca em “eras”, mas em um recorte emocional.
Lacunas e Ritmo
Ao mesmo tempo, concordo que o filme parece “picotado” em certos momentos. Sabe-se que Kat Graham gravou cenas como Diana Ross na década de 70, mas o material parece ter sido deletado. O corte brusco de 1970 para 1978 também incomoda: não mostrar como Michael conheceu Quincy Jones nos bastidores de The Wiz — projeto que marcou seu primeiro passo real de independência — foi um equívoco.
Temas como o vitiligo e as cirurgias plásticas foram tratados de forma direta e objetiva. Gostei dessa abordagem, pois ajuda a desviar o foco do supérfluo para mergulhar na alma do artista. Sobre o vitiligo, especificamente, o filme acertou ao não aderir ao melodrama. A condição foi tratada como uma questão dermatológica comum, como de fato é. Como o longa foca no período entre 1966 e 1984, época em que a condição ainda não era universal, a naturalidade foi o caminho correto.
Detalhes Técnicos e Elenco
Fiquei encantado com a inclusão de faixas menos óbvias na trilha, como Big Boy (primeiro single pré-Motown), We’ve Got a Good Thing Going, Dreamer e I Can’t Help It.
Quanto aos personagens secundários, a participação de John Branca foi limitada, embora estratégica. Já nas cenas de Thriller, o diretor John Landis é retratado de forma misteriosa, quase sem citações diretas, o que reforça que o Espólio evitou dar destaque a figuras com histórico de disputas judiciais. O mesmo vale para a ausência de Janet e Randy Jackson: além de não possuírem bom histórico com o Espólio, seriam irrelevantes para a narrativa central de Michael versus Joseph.
O que senti falta:
- The Jackson 5 no Ed Sullivan Show (1969);
- Michael saindo do Motown 25 decepcionado e sendo encorajado por uma criança;
- Cenas dele fisicamente escapando das surras de Joe;
- O processo de convencimento de Berry Gordy para performar Billie Jean;
- O dilema religioso antes do lançamento de Thriller.
Veredito Final
O filme encerra na Victory Tour, com uma cena “extra” de Bad simbolizando a liberdade finalmente conquistada. Jaafar Jackson está impecável, Juliano Krue Valdi esplêndido e Colman Domingo entrega um Joe assustador. A escolha do elenco foi, sem dúvida, um dos pontos altos.
Não existe público mais crítico do que a base de fãs de Michael Jackson. Pouco me importa a “crítica” de quem só conhece Billie Jean ou acha que ler um artigo da Rolling Stone sobre “Wacko Jacko” é ter embasamento. Esse tipo de comentário a gente ignora.
Como fãs, sempre veremos lacunas, mas é preciso entender que o cinema exige adaptações. A cronologia está ótima e o foco no conflito familiar é potente. Tudo indica que esta Parte 1 preparou o terreno para o que virá a seguir, abrangendo de 1984 a 2009.



