por Joice Castilho
Depois de décadas de distorções e do estigma corrosivo alimentado por tabloides, o filme MICHAEL finalmente chega para realizar uma espécie de justiça simbólica ao artista mais amado e mais perseguido do mundo. A obra não se limita a reproduzir os passos de dança icônicos ou a energia vibrante dos palcos, mas se debruça sobre a formação da personalidade e a construção do gênio que cresce sob uma tutela de ferro e busca sua independência em meio a um caminho marcado por talento extraordinário, disciplina e uma sensibilidade que o tornaria único.
Um dos pontos de maior debate nas críticas “especializadas” reside na figura de Joseph Jackson. Muitos alegam que o filme o transformou em um antagonista perverso para vitimizar o protagonista. Contudo, para quem conhece a fundo a história da família, a verdade é que Joseph era consideravelmente pior do que o retratado em tela. O roteiro optou por não esgotar o tempo de projeção com cenas repugnantes de adultério ou surras ainda mais brutais, que sabemos que ocorreram, preferindo focar no impacto psicológico dessa rigidez na formação do gênio.
Outro pilar de resistência dos críticos é a suposta “santificação” de Michael. O que essas vozes não conseguem processar é que a percepção pública foi tão contaminada pelo apelido pejorativo “Wacko Jacko” que qualquer representação da bondade genuína de Michael soa como ficção. Para quem teve sua vida devassada pela mídia, mostrar que ele era, de fato, um homem doce e um cara legal não é uma tentativa de criar um santo, mas apenas o resgate da sua humanidade.
A performance de Jaafar Jackson é assustadora em sua precisão técnica, capturando a textura da voz e a fluidez dos movimentos com uma reverência que apenas o DNA e o estudo profundo poderiam proporcionar. E, para os fãs mais atentos que comentam cada detalhe estético, inclusive os traços físicos que viralizaram nas redes sociais, fica claro que a caracterização buscou a perfeição, respeitando o espelho da alma de Michael.
MICHAEL não é um filme sobre um personagem intocável. É a história de um artista de pele de rinoceronte que, apesar de ter sido repetidamente dilacerado pelo mundo, nunca deixou de oferecer o seu melhor. É um convite para que o espectador deixe de lado preconceitos e narrativas já tão desgastadas e compreenda que, entre o auge e as turbulências de sua trajetória, existia alguém que apenas desejava o direito de ser amado, e cuja arte, essa sim, unânime até mesmo entre os críticos mais cínicos, permanece soberana ao tempo e agora se revela sem o filtro de escárnio para as gerações que finalmente poderão enxergá-lo para além da caricatura.




