​O Diabo veste terno: Tommy Mottola e os Arquivos de Epstein | MJ Beats
​O Diabo veste terno: Tommy Mottola e os Arquivos de Epstein | mjbeats.com .br Tommy Motolla nos arquivos de Jeffrey Epstein

​O Diabo veste terno: Tommy Mottola e os Arquivos de Epstein

Há uma curiosa assimetria na forma como a mídia distribui sua indignação. Quando Michael Jackson subiu em um ônibus de dois andares em Londres, em junho de 2002, erguendo um cartaz e chamando Tommy Mottola de “o diabo”, a reação pública oscilou entre o escárnio e a piedade. Disseram que o Rei do Pop estava em declínio, soando paranoico ao expor os rumos de sua própria gravadora. A figura do executivo todo-poderoso da Sony Music permaneceu, para a imprensa, praticamente intocável — um homem de negócios operando estritamente dentro das regras do jogo corporativo.

O tempo costuma ser o mais irônico dos biógrafos. Em abril de 2026, um relatório contundente da revista Rolling Stone trouxe a público o que muitos tentavam abafar: a duradoura relação entre Mottola e o falecido predador Jeffrey Epstein. A divulgação de milhares de páginas de documentos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos revela uma teia de favores e encontros que perdurou até as vésperas da prisão de Epstein em 2019. Os registros mostram Epstein oferecendo a Mottola uma “sala de massagem extra com vidro à prova de balas”, enquanto usava o nome do executivo musical para atrair jovens mulheres com promessas enganosas de acesso ao topo da indústria fonográfica.

Para quem conhece a fundo a história de Michael Jackson, essa proteção institucional é um padrão conhecido. No mês de junho de 2002, Michael iniciou um ataque direto à Sony Music Entertainment e a Tommy Mottola, por causa da decisão de cancelar a promoção de Invincible. Pouco antes do lançamento do disco, Michael havia informado Mottola que não renovaria o contrato com a Sony Music, que estava para expirar em 2002. A retaliação do executivo foi implacável: todos os singles, filmagens de vídeo e promoções foram cancelados como resultado da discórdia.

Michael não se acovardou. Ele juntou forças com Johnnie Cochran e o Reverendo Al Sharpton e realizou uma conferência de imprensa e protestos contra a Sony Music em junho e julho. O artista acusou a gravadora de conspiração contra seus próprios artistas e atacou pessoalmente Tommy Mottola.

Em um movimento histórico, os fãs organizaram um protesto pacífico em frente aos escritórios da Sony Music em Londres, em 15 de junho, no qual Michael se juntou. No mesmo dia, ele celebrou sua independência e a lealdade de seu público na festa Killer Thriller, no The Equinox, com 2.200 fãs. A pressão expôs a corporação, e Tommy Mottola se demitiu da Sony Music Entertainment em janeiro de 2003.

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A dissonância na forma como a máquina midiática opera é perturbadora. Quando o desconforto bate à porta dos arquitetos do show business, a engrenagem corporativa asfixia o escândalo. Em contrapartida, figuras como Oprah Winfrey colocaram seu peso por trás de Leaving Neverland, um documentário que acusou Michael Jackson — um homem morto e incapaz de se defender. Oprah ignorou contradições dos acusadores e a evidente busca por compensações financeiras. A apresentadora usou seu poder para validar ataques a ícones negros, enquanto protegia, pelo silêncio ou conveniência, figuras da alta cúpula como Harvey Weinstein e o próprio Jeffrey Epstein.

A resistência de Michael Jackson enfrentou um sistema viciado, confrontando uma indústria que hoje tenta esconder conexões com redes criminosas obscuras. O “diabo” a quem Michael se referia nas ruas de Londres não era uma abstração ou exagero retórico. Ele avisou ao mundo quem essas pessoas eram. E o tempo, mais uma vez, provou que ele estava absolutamente certo.