Escrito por: Ana Luiza (redatora MJC)
Dono de um talento sem precedentes, não é segredo para ninguém que Michael Jackson cantava ao vivo em seus shows e performances. Mesmo com intensas coreografias, produções grandiosas e figurinos pesados, o cantor mantinha o compromisso com a estabilidade e qualidade da voz, um feito ainda mais notável se observado a partir da perspectiva da época.
No início dos anos 60, época em que iniciou sua jornada musical, os monitores intra-auriculares (IEMs), ainda não eram o padrão a ser utilizado por artistas em cima do palco, e, mesmo no auge de sua carreira nos anos 80, os dispositivos ainda não eram frequentemente utilizados. O cantor dependia majoritariamente dos monitores de palco e de sua própria percepção auditiva em meio ao som ambiente. Nota-se que, isso inclui não somente a música vinda da banda, mas também, da multidão entoando as canções, seus gritos eufóricos e a energia coletiva, que integrava o show.
Esse cenário tornava a precisão vocal significativamente mais difícil, e, mesmo sem o auxílio dos monitores, Michael entregava um espetáculo completo. Provando, mais uma vez, sua excelência como artista.
Como Funcionam os IEMs?
Popularizados nos anos 90, IEMs (in-ear monitors ou monitores intra-auriculares), são dispositivos como fones de ouvido, projetados especialmente para músicos ou artistas ao vivo, e permitem que seu usuário ouça sua própria voz e a banda sem a interferência de sons externos, além de diferentes mecanismos, como o metrônomo e guias rítmicos. Diferente dos monitores de palco, onde caixas de som no chão viradas para o artista e banda garantem o retorno, os monitores intra-auriculares enviam diretamente para o ouvido exatamente o que o músico precisa ouvir. Com a precisão do aparelho e o tamponamento causado por seu formato, ruídos externos são drasticamente reduzidos, proporcionando clareza e maior definição do som mesmo em ambientes caóticos.

Estudos da saúde auditiva, como “Uma proteção auditiva para músicos profissionais”, pela UFSC, apontam que a exposição frequente a altos níveis de ruídos são prejudiciais aos ouvidos, podendo provocar danos irreversíveis a longo prazo. Performances ao vivo expõem músicos a níveis superiores a 100 decibéis, acima do limite seguro, a longo prazo, a alta exposição pode causar danos irreversíveis à audição, além da possibilidade de comprometer a percepção sonora e estabilidade vocal na performance. Além da utilidade profissional dos intra-auriculares, há também o fator atuante dos fones na preservação da saúde e longevidade dos ouvidos.
A mesma precisão dos dispositivos implica diretamente em uma sensação de isolamento. A filtragem de sons externos cria uma atmosfera quase exclusivamente interna, e, para um performer cuja arte tinha como um dos pilares a troca com o ambiente e seus sons e respostas do público, essa mediação poderia significar perder a visceralidade e veracidade da obra proposta.
Como Michael Conduzia o Show Mesmo sem IEMs?
Em 2009, durante os ensaios de This Is It, Michael demonstrou desconforto ao usar os monitores. Acostumado a depender unicamente dos monitores de palco e do som ambiente, ao tentar se adaptar à nova tecnologia, relatou: “Quando estou tentando ouvir, parece que o punho de alguém está sendo empurrado no meu ouvido. É muito difícil. Eu sei que vocês têm boas intenções, mas estou tentando me adaptar aos fones intra-auriculares, ok?”, evidenciando a experiência como “intrusiva” e sua dificuldade pontual com a escuta isolada sendo perceptível. Dessa maneira, para Michael, era como se a música deixasse de existir como sua constelação particular, e ele, alheio ao seu lugar cósmico nativo, reduzido a uma estrela fora de órbita, estava perdido em uma constelação desconhecida.

Com uma experiência de mais de 20 anos, Michael conduzia os shows com maestria a partir de seu instinto nato, aprimorado pelas vivências na música como algo palpável, seu corpo atuando como um instrumento afinado pelos anos de prática. A percepção do ambiente e as vibrações da música o guiavam. Por que usar artifícios externos quando a música vive dentro de você? Ou melhor: quando você é, de fato, a música. Intérprete e som se tornando um só, como uma corrente viva.
Controle e Entrega
Em tempos onde perfeição sintética é parâmetro, com inteligências que refinam e corrigem, Michael surge em contraponto, oriundo de uma era de recursos limitados, ele compensou a escassez de tecnologia e a incorporou em si.
Sua presença de palco residia na entrega completa a música. Fosse com erros ou acertos, imprevistos ou previstos, o Rei do Pop estava de acordo. Partindo do fato de que seu corpo atuava como sua principal tecnologia, em uma metáfora sensorial, pode-se dizer que Michael era “cegamente” guiado pela vibração dos sons; todo o retorno necessário para o andamento do show era recebido pelos cinco sentidos, a coerência interna era ser fiel ao momento. Desde a reverberação dos graves do baixo em sua caixa toráxica até o cheiro característico da fumaça cênica, se forma um trajeto de referências inconscientemente memorizadas, uma espécie de cartografia sensorial e a ancoragem perfeita para garantir a consistência e fluidez da apresentação.
Mais do que um artista técnico, Michael foi um ser humano em estado de expressão plena e verdadeira.
A Música como “Entidade”
Michael Jackson, dotado de sensibilidade, falava da música como se fosse algo sólido, e ironicamente, a nível espiritual. Adverte seu espectador que, se há algo que não pode ser fabricado, é o fragmento de segundo em que a música se funde com a alma humana.

Mais do que algo que se escuta, a música é um fluxo que se atravessa, e que também, atravessa quem a escuta. Mediante essa perspectiva, existe um breve momento no tempo em que a música deixa de ser um elemento que o artista controla para se tornar algo que ele habita. Nesse ponto, o artista incorpora, essencialmente, a música. Khalil Gibran em sua máxima conclui que “A música é a linguagem do espírito”.
A Autenticidade Reside na Liberdade
No fim, mesmo com o avanço dos IEMs e sua segurança, a postura de Michael dialoga com o arquétipo clássico do artista que vive pelo lema “morrer pela arte”, o princípio antigo do Romantismo de entrega total à obra, comprovado pelos longos e árduos ensaios documentados ao longo de sua vida.
No contexto contemporâneo onde padrões e aparelhos técnicos foram consolidados, a trajetória de Michael Jackson exibe uma rota alternativa na relação música e palco. A ausência do uso dos chamados popularmente “retornos”, demonstra um modelo de performance construído acerca das percepções corporais além dos ouvidos. Mais do que uma regra, o artista deve estar ciente de sua liberdade e metodologia própria referente ao que se conhece como tecnologia. Seu uso deve seguir a lógica de que a mesma deve se adaptar ao artista e em casos como o de Michael, partir do artista, e nunca o contrário.
A fidelidade às próprias percepções são o que sustentam a autenticidade de uma performance. Nessa autonomia reside a liberdade do artista: a capacidade de fazer com que a tecnologia não sobreponha aquilo que vem de dentro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FERNANDES CÂNDIDO, Paula Emanuela ; DIAZ MERINO, Eugenio Andrés; AMARAL GONTIJO, Leila. An auditive protection for professional musicians. PubMed, 2012. Disponível em:
NCBI – WWW Error Blocked Diagnostic
. Acesso em: 01 abr. 2026.
GIBRAN, Khalil. A Voz do Mestre. São Paulo: Mantra, 2018.
ORTEGA, Kenny. Michael Jackson’s This Is It. Estados Unidos: Columbia Pictures; The Michael Jackson Company; AEG Live, 2009. 1 DVD (filme).




