A notificação apitou. Um convite de colaboração no Instagram vindo direto da Rolling Stone Brasil. O objetivo? Unir forças para promover o relançamento de uma “edição especial de colecionador” sobre Michael Jackson. O timing da investida é puramente mercadológico e cínico: estamos em Junho, o mês que marca a dolorosa despedida física do artista.

Querem aproveitar o estrondoso sucesso de bilheteria da iminente cinebiografia, o aquecimento vertiginoso do catálogo nas plataformas de streaming e a febre de consumo evidenciada pelos recentes shows de tributo esgotados pelo país – impulsionados por artistas como Rodrigo Teaser. A nossa resposta, no entanto, é nítida e irrevogável: NÃO.
Para o leitor casual, uma parceria entre um dos mais antigos portais sobre o Rei do Pop no mundo e uma marca clássica do “jornalismo musical” pareceria um movimento óbvio. Mas a história não é feita de movimentos óbvios. Ela é forjada na memória. E memória é algo que nós cultivamos com absoluto rigor documental.
É preciso voltar no tempo para entender a ironia desse convite:
No final dos anos 1970, quando um jovem Michael Jackson entregou ao mundo a obra-prima fonográfica Off The Wall, a matriz americana da revista simplesmente fechou as portas. O argumento velado nos corredores editoriais da época era brutal e racista: artistas negros não vendiam capas de revista. Michael, com a sagacidade que lhe era peculiar, avisou que chegaria o dia em que eles implorariam por uma entrevista. E imploraram. Quando Thriller eletrizou a cultura pop com um impacto visual irreversível, a revista precisou estampar o rosto que antes rejeitava apenas para não se tornar irrelevante nas bancas.
A relação nunca foi pautada pelo respeito à arte, à energia rítmica ou à textura de suas performances, mas estritamente por conveniência de caixa. Durante décadas, a publicação optou por ignorar o gênio criativo para alimentar o monstro do sensacionalismo de tabloide. Distorceram a realidade inúmeras vezes, preferindo a caricatura barata e o deboche às análises musicais profundas que dedicavam com reverência a outros ícones do rock.
Poderíamos tentar ser indulgentes e argumentar que essa postura antiética é um problema restrito à matriz norte-americana – a mesma que recentemente publicou tutoriais vergonhosos ensinando o público a burlar bloqueios geográficos para consumir a obra de ficção Leaving Neverland. Mas a hipocrisia também opera em território nacional. No dia 1º de junho, a própria Rolling Stone Brasil usou o X para celebrar e indicar ativamente aos seus seguidores onde assistir a essa mesma peça difamatória.

Eles promovem o linchamento virtual do artista em um dia e, no outro, batem à nossa porta pedindo ajuda para vender uma revista comemorativa com o rosto dele na capa.
A MJ Beats não é um balcão de negócios. São mais de duas décadas de arquivos, pesquisas e curadoria dedicados a preservar e investigar a verdade sobre a vida e a obra de Michael Jackson. Nós não pegamos atalhos, não apagamos a história e, definitivamente, não emprestamos nossa credibilidade – construída com independência e muito ceticismo – para chancelar quem tenta lucrar desesperadamente com o legado que passou a vida inteira tentando destruir.
Eles podem imprimir quantas revistas quiserem. Mas a nossa assinatura, eles não terão.




