Poucos profissionais conheceram Michael Jackson tão de perto quanto Brad Buxer. Tecladista, arranjador e um dos colaboradores mais próximos do Rei do Pop, ele trabalhou ao lado do artista por quase duas décadas, participando da criação de alguns dos maiores sucessos de sua carreira. Em novembro de 2009, poucos meses após a morte de Michael, Buxer concedeu sua única entrevista à revista francesa Black & White, revelando lembranças, curiosidades e bastidores inéditos do processo criativo do artista.
A entrevista mostra um lado pouco conhecido de Michael: o perfeccionista que confiava na equipe, o amigo bem-humorado e o músico que, mesmo sem dominar um instrumento, possuía uma compreensão extraordinária da música.
Uma amizade que começou pela música
Brad Buxer contou que conheceu Michael em 1986, enquanto fazia turnê com Stevie Wonder. Como Michael admirava profundamente Stevie, acompanhava de perto os músicos que trabalhavam com ele. O primeiro encontro entre os dois foi marcante.
Segundo Buxer, a conexão aconteceu imediatamente. A música aproximou os dois de forma natural, transformando uma parceria profissional em uma amizade que duraria quase vinte anos.

Pouco tempo depois, Michael o convidou para trabalhar nas primeiras sessões do álbum Dangerous. Antes mesmo da chegada de Teddy Riley, Buxer e Bill Bottrell já haviam produzido demos de músicas que se tornariam clássicos, como Who Is It, Black Or White e Heal The World.
O controle criativo de Dangerous
Na entrevista, Buxer também explicou por que Dangerous foi o primeiro álbum solo de Michael sem a produção de Quincy Jones.
Segundo ele, não existia qualquer desentendimento entre os dois. Michael continuava admirando Quincy profundamente. O que mudou foi seu desejo de assumir o controle completo do processo criativo. Ele queria comandar cada detalhe do álbum, das primeiras ideias até a versão final.
Mesmo assim, Quincy participou da etapa de conclusão do projeto. Depois de ouvir o trabalho pronto, declarou que o álbum era uma obra-prima. Para Michael, essa aprovação teve grande importância.
Um músico que não precisava tocar instrumentos
Um dos momentos mais curiosos da entrevista envolve justamente uma característica que surpreendia quem trabalhava com Michael.
Buxer revelou que Michael praticamente não tocava instrumentos musicais e chegou até a pedir aulas de piano. As aulas, porém, nunca foram muito longe. Segundo ele, Michael não tinha paciência para estudar técnica tradicional.
Isso, no entanto, jamais limitou sua criatividade.
Buxer explica que Michael simplesmente cantava cada detalhe das músicas. Baixo, bateria, cordas, sintetizadores e harmonias surgiam primeiro em sua voz. Cabia aos músicos transformar aquelas ideias em realidade.
Foi exatamente dessa forma que nasceram canções como Who Is It, Morphine, In The Back e Stranger In Moscow.
Segundo Buxer, em algumas músicas Michael sabia exatamente como cada instrumento deveria soar. Em outras, deixava que ele experimentasse diferentes caminhos até encontrar aquilo que imaginava.

Sonic 3 e a origem de Stranger In Moscow
Outro assunto que voltou à tona foi o famoso projeto de Sonic 3.
Buxer confirmou que ele e Michael realmente compuseram músicas para o videogame. No entanto, Michael ficou decepcionado com a qualidade sonora dos consoles da época e preferiu não ter seu nome associado oficialmente ao projeto.
Ele também revelou um detalhe curioso: parte das ideias criadas para o jogo acabou sendo reaproveitada mais tarde em Stranger In Moscow, considerada por muitos uma das maiores obras-primas da carreira de Michael.
Embora Buxer tenha participado intensamente da estrutura da música e gravado praticamente todas as partes instrumentais, ele afirma nunca ter se preocupado em receber créditos de composição.
Segundo ele, trabalhar com Michael já era um privilégio suficiente.
Os últimos anos de criação
Mesmo após Invincible, Michael continuava produzindo novas músicas.
Buxer destacou From The Bottom Of My Heart, composta para arrecadar recursos destinados às vítimas do furacão Katrina, como uma das últimas faixas desenvolvidas pelos dois.
Ele rejeitou completamente a ideia de que Michael estaria vivendo um declínio criativo.
Pelo contrário.
Segundo seu amigo e parceiro musical, Michael estava cheio de novas ideias e produzia músicas ainda mais originais do que nos anos anteriores. As dificuldades pessoais que enfrentou, especialmente após o julgamento de 2005, acabaram fortalecendo sua criatividade.
A lembrança mais marcante
No fim da entrevista, Brad Buxer deixou de lado os aspectos técnicos e falou sobre o homem por trás do artista.
Ele recordou as brincadeiras nos hotéis, as guerras de comida e as muitas risadas que dividiram ao longo dos anos.
Mas nenhuma lembrança ficou tão viva quanto o sorriso de Michael quando uma música finalmente ficava pronta.
Segundo Buxer, naquele sorriso era possível enxergar orgulho, amor e respeito pela música. Sentimentos que resumiam perfeitamente a forma como Michael Jackson encarava sua arte e as pessoas que caminhavam ao seu lado.




