Transformar Jaafar Jackson em Michael Jackson para o cinema exigiu muito mais do que maquiagem. O desafio era reproduzir, com precisão, diferentes fases da aparência do Rei do Pop e acompanhar as mudanças que marcaram sua trajetória visual ao longo dos anos.
Para chegar a esse resultado, uma equipe especializada foi reunida. O maquiador vencedor do Oscar Bill Corso, o designer de próteses indicado ao Oscar Christien Tinsley e a cabeleireira indicada ao Oscar Carla Farmer trabalharam juntos para transformar Jaafar em uma representação convincente de Michael.
O primeiro teste
O processo começou com estudos digitais e testes de maquiagem. Bill Corso desenvolveu diferentes possibilidades no computador antes de partir para a aplicação prática. O que inicialmente seria apenas um teste acabou se transformando em uma série de caracterizações para representar as principais fases de Michael no filme.
Para o primeiro teste de próteses, Corso contou com Andy Clement e sua empresa, Creative Character Engineering. O resultado foi registrado pelo diretor de fotografia Bob Richardson e enviado ao diretor Antoine Fuqua. A semelhança impressionou tanto que, segundo Corso, Fuqua chegou a questionar por que estavam enviando imagens de Michael Jackson.
De quatro visuais a quase 30 versões
Mesmo satisfeito com o primeiro resultado, Corso acreditava que era possível melhorar. Uma segunda bateria completa de testes foi realizada, desta vez com a participação de Christien Tinsley e seu estúdio.
Os testes aproximaram ainda mais Jaafar da aparência de Michael. O projeto passou de quatro grandes caracterizações para três visuais principais, mas cada um deles ganhou inúmeras variações. Ao todo, foram criadas quase 30 versões para acompanhar as diferentes fases representadas no filme.
Isso era fundamental porque Michael nunca teve uma aparência completamente estática. Cabelo, maquiagem, sobrancelhas, formato do rosto e outros detalhes mudavam constantemente. Reproduzir essa evolução foi uma das partes mais complexas do trabalho.






Corso, Tinsley e Carla Farmer trabalharam em conjunto para construir essa transformação. O cabelo também teve papel essencial, já que cada fase precisava manter a identidade visual correspondente ao período retratado.
O desafio do nariz de Michael
Um dos trabalhos mais delicados envolveu o nariz. A equipe precisava reproduzir características do rosto de Michael em diferentes momentos de sua vida, inclusive sua aparência antes das mudanças provocadas pelas cirurgias.
O desafio aumentava porque a estrutura facial de Jaafar é diferente da de seu tio. Seu rosto é mais comprido, enquanto Michael tinha proporções faciais menores, olhos grandes em relação ao rosto, queixo pequeno e um nariz proporcionalmente menor.
Por isso, as próteses precisaram ser cuidadosamente reduzidas e ajustadas. Além disso, parte do trabalho foi complementada digitalmente para aproximar ainda mais as proporções do rosto de Jaafar às de Michael.

O trabalho dos efeitos visuais, liderado por Louis Morin, também foi importante para aperfeiçoar esses pequenos detalhes. O objetivo não era simplesmente colocar uma máscara em Jaafar, mas criar uma transformação que funcionasse diante das câmeras e preservasse a naturalidade.
A evolução do tom de pele
Outro elemento essencial foi reproduzir a evolução do tom de pele de Michael ao longo das décadas. Na juventude, sua pele era mais escura, enquanto diferentes períodos posteriores apresentavam outras características.
A equipe ajustou cuidadosamente a maquiagem e as próteses para acompanhar cada fase da vida retratada. Também foi necessário representar visualmente a evolução do vitiligo, condição que provoca alterações na pigmentação da pele.
O resultado final nasceu justamente dessa combinação entre maquiagem, próteses, cabelo e efeitos visuais. Mais do que fazer Jaafar parecer Michael, o objetivo era fazer o público reconhecer diferentes versões de Michael Jackson ao longo de sua própria história.

É um daqueles trabalhos que acontecem longe dos holofotes, mas que podem definir a maneira como uma produção cinematográfica será lembrada. Em MICHAEL, cada detalhe do rosto, do cabelo e da pele de Jaafar foi pensado para reconstruir, década após década, a imagem de um dos artistas mais reconhecidos do mundo.
A terceira maquiagem de MICHAEL
A terceira caracterização de Jaafar Jackson representa uma fase marcante da trajetória de Michael Jackson no final dos anos 1980. O filme chega ao período em que Michael começa a se afastar da família e da influência de seu pai, durante sua última apresentação ao lado dos Jacksons.
Essas cenas foram filmadas no Estádio de Wembley, nos dois primeiros dias de produção. Para reproduzir aquele momento, a equipe precisou combinar maquiagem, próteses, cabelo, figurino e efeitos digitais, buscando recriar com precisão a aparência de Michael naquela época.

Um dos grandes destaques foi a dedicação de Jaafar. Ele passou cerca de dois anos se preparando, ensaiando e praticando para interpretar o tio. Durante esse período, manteve uma postura profissional, concentrada e positiva, algo que impressionou toda a equipe.
Para essa terceira fase, Bill Corso e Christien Tinsley criaram novas próteses para modificar as proporções do rosto de Jaafar. O nariz ficou menor e mais arrebitado, enquanto uma nova prótese foi desenvolvida para reproduzir a pequena fenda no queixo que Michael apresentava naquele período.
Contorno, sombra e pequenos detalhes
Grande parte da transformação, porém, não estava apenas nas próteses. A equipe utilizou pintura, contorno e sombreamento para alterar visualmente características que Jaafar não possuía naturalmente.
O trabalho incluía a definição do maxilar, das bochechas, da testa e do contorno dos olhos. Até uma pequena marca abaixo dos olhos, característica do rosto de Michael, precisou ser recriada com maquiagem e escultura.
O nariz também recebeu contornos constantes para criar a proporção desejada. A equipe ainda trabalhou no formato da boca, já que Michael tinha características diferentes das de Jaafar.
Para completar essa transformação, Jaafar utilizou próteses dentárias que ajudavam a modificar o formato da boca e aproximá-lo ainda mais das características de Michael.
O resultado mostra que a transformação de Jaafar em Michael não dependia de um único elemento. Era a soma de dezenas de pequenos ajustes, feitos por uma equipe especializada, para recriar um rosto que o mundo reconhece em poucos segundos.






A caracterização também recebeu uma nova peruca, diferente silhueta e ajustes no tom de pele. Cada detalhe foi pensado para reproduzir a imagem de Michael durante aquela fase de sua carreira, especialmente sua aparência associada à era Bad.
Entre tantos momentos marcantes de MICHAEL, a recriação de Thriller ocupa um lugar especial. O clássico de Michael Jackson, dirigido por John Landis e com a lendária maquiagem criada por Rick Baker, ganhou uma nova versão para o filme, com Jaafar Jackson assumindo o papel de Michael.
Para Bill Corso, responsável pela maquiagem do filme, recriar essa sequência significava voltar a uma parte importante de sua própria infância. Por isso, ele e Christien Tinsley fizeram questão de reproduzir a maquiagem de zumbi utilizando técnicas semelhantes às empregadas no videoclipe original.
De volta à rua de Thriller
A equipe teve apenas uma noite para filmar a recriação. Para isso, Christien Tinsley preparou kits especiais para os maquiadores, com próteses de plástico termoformado, aparelhos faciais de espuma, maquiagem para efeitos especiais e o característico material utilizado na boca dos zumbis.
Corso também entrou em contato com Rick Baker para entender como a maquiagem original havia sido construída. O objetivo era chegar o mais perto possível do trabalho realizado no início dos anos 1980.

A equipe optou por técnicas tradicionais. As próteses de Jaafar foram feitas com espuma, enquanto a maquiagem utilizou RMG, uma máscara de borracha própria para pintura facial. Até as cores foram estudadas a partir das técnicas utilizadas por Baker no videoclipe original.
O resultado transformou Jaafar em uma versão do zumbi que marcou a história da música. Ao lado dele, uma verdadeira horda de dançarinos também recebeu caracterizações inspiradas nos zumbis originais.

Para a equipe, aquela noite teve um significado especial. Recriar Thriller em uma locação real, com a música tocando e todos os elementos reunidos, criou a sensação de voltar no tempo e reviver um dos momentos mais importantes da cultura pop.
Bill Corso interpreta Rick Baker
A homenagem ainda ganhou um detalhe especial. Bill Corso não apenas recriou o trabalho de Rick Baker, como também o interpretou em uma participação dentro do filme.
A ideia surgiu durante o desenvolvimento do roteiro. Em vez de apresentar apenas um maquiador fictício retocando Michael, Corso defendeu que o personagem fosse baseado no próprio Baker, responsável pela maquiagem original de Thriller.
E a história ganhou um momento curioso quando o verdadeiro Rick Baker visitou o set e encontrou Corso caracterizado como ele próprio. O encontro entre os dois maquiadores transformou a recriação em uma espécie de passagem de bastão entre duas gerações.

Mais do que reproduzir uma maquiagem famosa, a sequência de Thriller em MICHAEL representa uma homenagem cuidadosa ao trabalho que ajudou a transformar o videoclipe original em um marco da cultura pop.
E talvez seja justamente isso que torna essa cena tão especial: Jaafar não está apenas interpretando Michael Jackson. Ele está recriando, décadas depois, uma imagem que ajudou a definir a história da música, do cinema e dos videoclipes.
Fonte e créditos: Esta matéria foi produzida com base no artigo publicado pela Stan Winston School, intitulado “Behind the Makeup of Michael: Transforming Jaafar Jackson Into Michael Jackson”. O conteúdo apresentado reúne trechos selecionados e informações adaptadas da matéria original




