Em setembro de 1974, o Brasil recebeu uma visita que entraria para a história da música: os Jackson 5. Entre os dias 13 e 22 daquele mês, Michael Jackson e seus irmãos desembarcaram em um país que, em plena ditadura militar, raramente via apresentações internacionais de grande porte. Organizada pelo empresário George Ellis, a turnê seria a primeira do grupo fora da América do Norte e Europa, aumentando ainda mais a expectativa do público.
O clima político era hostil para eventos internacionais. Meses antes, Alice Cooper havia causado polêmica ao decapitar bonecas no palco e simular uma execução elétrica, algo que desagradou profundamente as autoridades. Desde então, o Brasil praticamente saiu do circuito de turnês internacionais, e qualquer show estrangeiro que se arriscasse por aqui enfrentava sérios problemas de infraestrutura.
Foi exatamente isso que aconteceu com os Jacksons. Em Belo Horizonte, a chuva afastou boa parte do público no Estádio da Independência, mas a banda manteve a disciplina e se apresentou para os poucos fãs que enfrentaram o mau tempo. Já em São Paulo, os contratempos se multiplicaram: microfonias, instrumentos desligados e um setlist encurtado marcaram a passagem do grupo pela cidade.
O momento mais inusitado ocorreu em São Paulo, quando a bateria da banda começou a desabar no meio do show. O percussionista não conseguiu continuar e a música parou. Foi aí que o jovem Michael Jackson, com apenas 16 anos, pegou um pandeiro para improvisar. Cantando, dançando e mantendo o ritmo, ele segurou a apresentação até que a bateria fosse recolocada. O gesto salvou o espetáculo e arrancou aplausos do público.

O caos antes do show em Brasília
Mas a maior confusão ainda estava por vir. Em Brasília, o show no Ginásio Nilson Nelson foi cancelado de última hora, já que os equipamentos não chegaram a tempo de Belo Horizonte. Com ingressos vendidos e o espaço lotado, o público enfurecido iniciou um quebra-quebra generalizado, destruindo janelas, cadeiras e até parte da estrutura do ginásio. O clima era de revolta.
A pressão foi tanta que até o Secretário de Segurança do Distrito Federal, coronel Aimeé Lamaison, interveio, afirmando que os Jacksons não deixariam Brasília sem se apresentar. Perseguidos até em hotéis, os irmãos foram obrigados a permanecer na cidade e, no dia seguinte, subiram ao palco do mesmo ginásio, agora parcialmente destruído, para um show que acabou sendo um dos mais marcantes da turnê, com coro emocionado do público.
Uma viagem que Michael jamais esqueceria
A experiência foi intensa e desgastante. Os Jackson 5 deixaram o Brasil com histórias que misturam improviso, caos e resistência. Para Michael, aquela passagem foi um divisor de águas: ele só voltaria ao país quase 20 anos depois, em 1993, já como astro solo consagrado, em outra era e diante de uma estrutura muito mais preparada para receber um artista de sua grandeza.




