A indústria fonográfica descobriu, finalmente, os perigos de se lucrar com vozes fabricadas. Em ampla matéria investigativa publicada pelo diário britânico Financial Times, a Sony Music declarou guerra aberta à proliferação descontrolada de músicas falsificadas geradas por inteligência artificial em plataformas de streaming.
Sony declara guerra às vozes artificiais
Os números revelados pela corporação impressionam pelo volume: até o encerramento do último trimestre, a gigante japonesa solicitou a remoção emergencial de mais de 260 mil faixas geradas por ferramentas sintéticas – praticamente o dobro dos pedidos formalizados seis meses antes.
A justificativa corporativa soa impecável: trata-se de uma prática em escala industrial que prejudica criadores, induz o público ao erro e compromete a ética da inovação tecnológica.
Michael Jackson também está no alvo da indústria sintética
No centro da tempestade estão astros globais contemporâneos e lendas imortais cujo patrimônio sonoro segue rendendo cifras estratosféricas. O catálogo de Michael Jackson figura entre os alvos prioritários de softwares como o Suno e de agregadores digitais que despejam áudios clonados nas plataformas para inflar esquemas de streaming farms geridos por robôs.
Para Dennis Kooker, presidente de Negócios Digitais Globais da Sony Music, até 10% de todas as reproduções nos serviços digitais já podem ser fraudulentas, custando um rombo estimado em US$ 2,2 bilhões anuais ao setor.
Até aqui, a defesa da propriedade intelectual e do ofício humano mereceria aplausos universais.
O problema é a desmemória seletiva do mundo corporativo.
Quando a defesa da autenticidade encontra a própria história
Para a comunidade de fãs que preserva e estuda a obra de Michael Jackson com rigor milimétrico, ver a Sony Music encarnar o papel de “guardiã inflexível da pureza vocal” chega a ser uma ironia refinada.
Afinal, a gravadora não precisou de inteligência artificial nem de redes neurais para se envolver em um dos mais controversos episódios de autenticidade vocal da era do entretenimento moderno.
Em dezembro de 2010, no lançamento do primeiro álbum póstumo de estúdio, intitulado simplesmente Michael, a mesma Sony Music ignorou os alertas da família Jackson, de produtores históricos e de milhões de ouvintes ao redor do mundo.
A gravadora empacotou, prensou e comercializou internacionalmente três canções – Breaking News, Monster e Keep Your Head Up – cuja autoria vocal foi contestada desde o lançamento e posteriormente atribuída ao cantor ítalo-americano Jason Malachi.
2010: as três faixas que incendiaram a era pós-Michael
A controvérsia das chamadas faixas Cascio se transformou em uma das maiores disputas envolvendo o catálogo póstumo de Michael Jackson.
As músicas foram defendidas pela gravadora em meio a uma intensa discussão pública sobre sua autenticidade. A disputa chegou aos tribunais da Califórnia, onde os advogados da Sony sustentaram, entre outros argumentos, que a comercialização das faixas estava protegida como expressão comercial.
Foram necessários anos de disputa judicial, desgaste para a reputação do projeto e uma controvérsia que ultrapassou os limites da comunidade de fãs até que, em 2022, a Sony chegasse a um acordo judicial e as três músicas fossem retiradas das plataformas digitais.
A ironia que a inteligência artificial não inventou
A Sony tem razão quando afirma que clonar o timbre de Michael Jackson desrespeita a arte e pode prejudicar financeiramente quem cria.
A questão é que a história também registra uma situação muito mais desconfortável: a discussão sobre vozes artificiais e autenticidade não começou com a inteligência artificial.
Em 2010, quando o dinheiro de um lançamento de fim de ano estava em jogo, a própria Sony se viu no centro de uma controvérsia envolvendo três gravações cuja autenticidade vocal foi questionada desde o primeiro momento.
Hoje, a tecnologia permite produzir milhares de faixas sintéticas em uma escala que seria inimaginável naquela época. O problema mudou de dimensão, mas a pergunta continua praticamente a mesma:
quem deve decidir quando uma voz é autêntica o suficiente para ser vendida em nome de um artista?
A diferença é que, agora, a inteligência artificial tornou o problema grande demais para ser ignorado pela indústria…




