Há um hábito curioso na imprensa britânica que sempre me lembra aquelas visitas inconvenientes que não sabem a hora de ir embora: a necessidade quase litúrgica de abrir qualquer notícia sobre Michael Jackson pelo laudo da autópsia. O Daily Mail anuncia que The Essential Michael Jackson, uma coletânea lançada sem grande alarde em 2005, é o álbum mais vendido de 2026 até o momento. Mas, antes de chegarmos à música – ou ao quase um bilhão de dólares que sua cinebiografia arrecadou nos cinemas -, o leitor precisa ser devidamente informado, logo no segundo parágrafo, sobre a intoxicação aguda por propofol e o nome do médico condenado. É um cacoete fascinante. Como se o sucesso póstumo fosse uma anomalia jurídica que exigisse, por precaução, a anexação do atestado de óbito.

No fundo, compreende-se o desconforto. Durante anos, o mercado editorial e fonográfico trabalhou com a hipótese reconfortante de que o trono estava vago, pronto para um loteamento mensal. A cada estação, somos apresentados a uma nova realeza fabricada com a urgência de quem precisa fechar o balanço trimestral. Aqui, é o charme calculado de Harry Styles; ali, a frescura vocal de Olivia Dean; mais adiante, aquele fenômeno de engajamento que transformou a indústria musical em uma grande gincana de colecionáveis – onde legiões de Swifties compram quatro variantes do mesmo vinil não necessariamente porque a música exija repetição, mas porque o pertencimento ao clube requer o cumprimento de metas.
Byung-Chul Han talvez visse nisso a perfeição do consumo contemporâneo: a arte esvaziada de sua estranheza e reduzida a um espelho narcísico, onde o fã não admira uma obra que o transcende, mas consome a própria identidade embalada em edições limitadas e pulseiras da amizade. É um modelo de negócios brilhante, admito. Só não sei se tem muito a ver com música.
O problema das coroas distribuídas por algoritmos e departamentos de marketing é que elas pesam pouco. Funcionam muito bem enquanto dura a turnê ou a polêmica da semana nas redes sociais, mas sofrem de uma obsolescência programada quase imediata. E então acontece o imprevisto – ou o que só parece imprevisto para quem confunde barulho com permanência. Um homem morto há dezessete anos, sem lançar uma nota inédita, sem trinta versões digitais da mesma faixa para inflar gráficos e, convenhamos, carregando um arquivo de controvérsias que os tabloides fazem questão de requentar no micro-ondas a cada quinze linhas, simplesmente passa à frente. Mais de meio milhão de cópias no Reino Unido em alguns meses, puxando Thriller e Bad de volta para o top 20 como quem leva os filhos para passear no domingo.
Claro que dirão que tudo não passa do efeito colateral de um filme de sucesso. E têm lá sua razão. Mas a explicação esbarra em um detalhe incômodo: cinebiografias musicais viraram praga em Hollywood nos últimos anos, e nem por isso vimos o público jovem trocando seus ídolos de ocasião por catálogos da década de 1980 com tamanha voracidade. Para que a tela do cinema empurre meio milhão de pessoas de volta às lojas e plataformas, é preciso que exista algo para além do roteiro – uma substância artística que o marketing pode até iluminar, mas que ele definitivamente não sabe fabricar do zero.
A ironia, se é que podemos chamar assim, é que o próprio aparato que tentou reduzi-lo a uma nota policial de rodapé continua dependendo do nome dele para vender anúncios, enquanto assiste aos seus reis e rainhas de papelão perderem fôlego na subida. Talvez a realeza pop não seja um cargo eletivo, decidido pelo volume de gritos na internet ou pela eficiência de uma base de fãs treinada como força de vendas. Se um morto de 2009, com uma simples coletânea de vinte anos atrás, ainda precisa pedir licença para passar por cima dos fenômenos mais bem engendrados do nosso tempo, fica a dúvida: estamos diante de um fantasma que se recusa a descansar ou são os nossos vivos que ainda não descobriram como existir de verdade?




