Texto elaborado com base na reportagem de Zack O’Malley Greenburg para o ZogBlog
No fim dos anos 1980, Michael Jackson assistiu a uma apresentação do Cirque du Soleil no píer de Santa Monica, na Califórnia. Para evitar os fotógrafos que costumavam acompanhar seus passos, o cantor chegou ao local em uma van sem identificação, acompanhado de seu advogado de longa data, John Branca. Durante o espetáculo, Michael ficou tão impressionado com os artistas que, no intervalo, fez questão de conhecê-los pessoalmente.
Aquela experiência ajudou a despertar uma admiração que, anos mais tarde, se transformaria em um dos projetos mais duradouros ligados ao seu legado. Em 2013, o Cirque du Soleil e o espólio do artista uniram forças para criar Michael Jackson ONE, espetáculo permanente apresentado no hotel Mandalay Bay, em Las Vegas. Desde sua estreia, a produção já recebeu mais de 6,5 milhões de espectadores em mais de 5.500 apresentações, consolidando-se como uma das atrações de maior bilheteria da cidade.
O espetáculo caminha para alcançar US$ 1 bilhão em receita acumulada, marca que, segundo as projeções divulgadas, poderá ser atingida em 2027. O resultado reforça a força comercial da obra de Michael Jackson mesmo anos após sua morte e ajuda a explicar por que o artista conquistou um novo título simbólico: o de Rei de Las Vegas.
Da admiração de Michael pelo Cirque du Soleil ao nascimento de ONE
A ideia de transformar a admiração de Michael pelo Cirque du Soleil em uma produção oficial começou a ganhar forma alguns meses após sua morte, em 2009. John Branca, que assumiu a função de coexecutor do espólio do cantor, iniciou conversas com Guy Laliberté, fundador do Cirque du Soleil. O projeto previa duas produções diferentes, capazes de apresentar a música e a trajetória de Michael por meio da linguagem visual e acrobática da companhia.
A primeira delas foi Michael Jackson The Immortal World Tour, que estreou em 2011. A turnê alcançou grande sucesso comercial e, no primeiro semestre de 2012, tornou-se a excursão de maior bilheteria da América do Norte naquele período. Encerrada em 2013, acumulou aproximadamente US$ 350 milhões em vendas de ingressos. Antes disso, a produção também passou por Las Vegas durante um mês, atraindo mais de 150 mil pessoas.
O sucesso de Immortal abriu caminho para a segunda produção: Michael Jackson ONE, criada para permanecer em cartaz em Las Vegas. A proposta era oferecer uma experiência imersiva, na qual o público não apenas assistisse ao espetáculo, mas também se sentisse parte dele.
Desde o início, a montagem foi pensada para envolver os espectadores por todos os lados. Telões de grandes dimensões, sistemas de som distribuídos pelo teatro e artistas circulando pelos corredores ajudam a criar essa sensação. Em algumas cenas, acrobatas caracterizados como fotógrafos se aproximam da plateia e simulam registros dos espectadores, incluindo os próprios convidados especiais.
Ao longo da apresentação, um grupo de artistas percorre diferentes referências da carreira de Michael. Objetos que marcaram sua trajetória, como o chapéu preto e a luva brilhante, aparecem em cena como elementos centrais da narrativa. As músicas ganham novas interpretações por meio de acrobacias, coreografias e recursos visuais característicos do Cirque du Soleil.
Entre os momentos de maior impacto está a sequência de Dirty Diana, que apresenta uma artista realizando movimentos acrobáticos em um poste. Já em Stranger in Moscow, a atmosfera muda completamente: uma acrobata se movimenta em uma fita suspensa enquanto uma neve cenográfica cai sobre o palco e desaparece antes de alcançar o chão.
Mais de uma década de sucesso e uma nova geração de fãs
Quando a pandemia interrompeu as atividades de Las Vegas, no início de 2020, Michael Jackson ONE já estava em cartaz havia sete anos. A produção conseguiu atravessar o período de paralisação e, em 2024, recebeu uma renovação de vários milhões de dólares. A atualização trouxe novas músicas, figurinos e tecnologias, incluindo 64 drones que sobrevoam o público dentro do teatro.
As mudanças também ampliaram a presença de Michael no espetáculo, oferecendo novos detalhes para quem já havia assistido à produção. A proposta é manter a experiência atualizada e criar motivos para que os fãs retornem ao teatro, mesmo depois de várias apresentações.
O sucesso continua em um cenário cada vez mais competitivo. Las Vegas passou a receber novas atrações, equipes esportivas profissionais e espaços de entretenimento de grande porte, como a Sphere. Ainda assim, ONE mantém seu público e teve suas metas de receita para 2026 superadas em milhões de dólares, de acordo com as informações divulgadas sobre a produção. O espetáculo também foi estendido até 2030, o que poderá colocá-lo entre as produções mais duradouras da história do Cirque du Soleil na cidade.

O lançamento do filme MICHAEL também contribuiu para renovar o interesse pelo artista. O aumento no consumo de sua música nas plataformas de streaming após a estreia do longa foi estimado em 350%, com cerca de metade desse crescimento vindo de ouvintes da Geração Z. O resultado mostra como projetos ligados ao legado de Michael podem apresentar sua obra a pessoas que não acompanharam sua carreira durante os anos de maior sucesso.
Esse movimento faz parte de uma estratégia mais ampla do espólio, que inclui produções audiovisuais, lançamentos musicais e espetáculos. Além de gerar novas receitas, esses projetos mantêm a obra do cantor em circulação e ajudam a alcançar públicos de diferentes idades e países.
Durante sua vida, Michael Jackson acumulou pouco mais de US$ 1 bilhão em ganhos, valor que se aproxima de US$ 3 bilhões quando corrigido pela inflação. Após sua passagem, as receitas relacionadas ao Rei do Pop cresceram ainda mais, impulsionadas por negócios envolvendo seu catálogo musical e por novas produções autorizadas pelo espólio.
Mais de uma década depois de sua estreia, Michael Jackson ONE demonstra que o impacto do Rei do Pop vai muito além dos discos e dos grandes shows de sua carreira. A produção reúne música, dança, tecnologia e acrobacias para apresentar sua obra a novas gerações. Em Las Vegas, cidade conhecida por seus espetáculos grandiosos, Michael Jackson continua ocupando um lugar de destaque, mantendo viva uma conexão que atravessa gerações, culturas e idiomas.




