Desde que Michael Jackson se tornou uma figura pública de alcance global, surgiram inúmeras biografias não autorizadas — muitas recheadas de suposições, distorções e sensacionalismo. Uma delas é Michael Jackson – Uma História Sem Fim, escrita por Antero Leivas e lançada em janeiro de 2010, poucos meses após a morte do artista. Com 135 páginas, publicada pela editora Escala como parte da coleção “Pop Bio Star”, a obra oferece um retrato repleto de equívocos e afirmações sem respaldo.
Este artigo vai além de uma simples revisão do conteúdo do livro: é um convite à leitura crítica e à reflexão sobre a responsabilidade de narrar a história de figuras públicas — especialmente alguém tão complexo e explorado quanto Michael Jackson. Porque, ao contrário do que sugere o título, essa história precisa, sim, ter um fim. Mas um fim digno, justo e baseado na verdade.
Já na introdução, o tom adotado por Leivas acende o alerta: Jackson é descrito como “mesmo sendo branco, mesmo sendo o Peter Pan, mesmo sendo personagem live-action de Steven Spielberg”. Uma frase que, na tentativa de ser espirituosa, reforça estereótipos que a mídia sensacionalista cultivou por décadas. Em vez de contextualizar transformações físicas e escolhas artísticas, o autor recorre a clichês rasos — muitos dos quais Jackson já havia desmentido publicamente.
Mais adiante, o padrão se mantém. Frases como “Michael dubla Os Simpsons, volta à mídia mundial com a politicamente correta Black or White (vanguardismos em vídeo again…), canta com o Olodum na favela (‘Michael, eles não ligam pra gente’. Pois é, nem ele)…” revelam um uso sistemático de ironia ácida para reduzir momentos cruciais da carreira do artista a piadas superficiais. A gravação de They Don’t Care About Us com o Olodum, um gesto culturalmente relevante, vira alvo de um comentário que beira o deboche.
Ao longo do livro, Michael é retratado de forma caricata, com desprezo pelo rigor jornalístico que até mesmo uma biografia não autorizada deveria respeitar. Leivas parece mais interessado em reforçar rumores e impressões pessoais do que em entender o homem por trás do mito. Questões de saúde, batalhas legais e episódios íntimos são tratados com sarcasmo, sem qualquer esforço de contexto ou empatia.
E é aqui que está o problema central: a tentativa de parecer crítico se esgota em comentários maldosos e leituras simplistas. O passo moonwalk, por exemplo, é descrito como algo que no Brasil teria sido apelidado de “pisei na merda” — uma piada que ignora o peso simbólico e o impacto cultural de um dos movimentos mais icônicos da história da música pop.
Em outro momento, ao analisar o clipe Remember the Time, Leivas se refere à “fase BRANCA” de Jackson. Essa escolha de palavras desconsidera o diagnóstico de vitiligo universal que o cantor enfrentou — além de apagar o gesto político do clipe, que trouxe um elenco 100% negro representando a realeza egípcia. Um dos poucos exemplos da época em que uma superprodução exaltava a negritude em um contexto histórico tão significativo.
Há também insinuações desnecessárias, como ao sugerir que a canção Ben poderia ser uma declaração de amor gay. Escrita para um filme sobre a amizade entre um menino e um rato, a música sempre foi descrita por Jackson como um hino à aceitação e ao afeto genuíno. Reduzir isso a uma especulação sexual gratuita diz mais sobre a abordagem do autor do que sobre a obra ou seu intérprete.
O padrão se repete: piada fácil no lugar de análise séria, comentários zombeteiros em vez de questionamentos relevantes, e uma constante recusa em tratar Michael como ser humano. O resultado é um livro que se vale do nome Jackson para vender, mas sem qualquer compromisso com a verdade ou com o mínimo de respeito.
Michael Jackson merece mais. Muito mais. Ele não foi só o “Rei do Pop”, mas um artista que transformou a indústria, enfrentou preconceitos, rompeu barreiras e emocionou o mundo. Sua trajetória não se resume a escândalos e rumores — e quem insiste nisso revela mais sobre sua própria superficialidade do que sobre o artista.
Ao desmontar livros como o de Antero Leivas, o objetivo não é apenas desmentir absurdos, mas afirmar a importância de narrativas comprometidas com a verdade e com a humanidade das figuras que retratam. Jackson não era um “ser esquisito”. Era um homem negro que cresceu sob os holofotes, enfrentou racismo sistêmico, e teve sua vida moldada por uma fama sufocante — a ponto de precisar se disfarçar para fazer coisas simples, como ir a um supermercado.
O livro de Leivas não dá conta dessa complexidade. Pelo contrário: se apoia em gracejos grosseiros e interpretações enviesadas. Ignora a dor, o contexto, e a luta por dignidade.
Felizmente, temos o próprio Michael para nos guiar. Em sua autobiografia Moonwalk, lançada em 1988, ele nos entrega uma visão sincera de sua vida: infância, carreira, fama, arte, medos e sonhos — sem filtros de tabloide. É o retrato mais honesto do homem por trás do espelho.
Que a gente continue fazendo esse contraponto. Denunciando o sensacionalismo, exigindo respeito, e celebrando o verdadeiro Michael: o visionário, o criador incansável, o homem que ousou dançar além dos limites.
Por Kauê Rodrigues de Lima




