A História que Tentaram Apagar: O Grito de Beyoncé, A Luta de Michael Jackson, e a Herança que Nunca Morrerá | MJ Beats
Beyonce e Michael Jackson - Texto da Mj Culture para a MJ Beats

A História que Tentaram Apagar: O Grito de Beyoncé, A Luta de Michael Jackson, e a Herança que Nunca Morrerá

A turnê Cowboy Carter, de Beyoncé Knowles-Carter, está há apenas um mês na estrada, mas já deixou o mundo inteiro em estado de reflexão. Ou deveria ter deixado. Nas redes, fãs da própria Beyhive e também moonwalkers atentos não demoraram a notar algo poderoso: uma série de referências visuais, sonoras e simbólicas que dialogam diretamente com o legado do maior artista da história, Michael Jackson.

Essa conexão não surge do acaso. Beyoncé nunca escondeu ser fã do Rei do Pop. No próprio ato final da turnê, ela surge ainda criança, em vídeo, cantando “I Wanna Be Where You Are”, enquanto imagens de sua trajetória passam no telão. Entre elas, o momento em que, reverente, entregou a Michael um prêmio humanitário na Radio Music Awards de 2003.

Mas as referências vão além de memórias. Vão além dos figurinos, que incluem calça preta de couro com fivelas, aviadores espelhados, tecidos luxuosos, dourados, pratas e cintos metálicos, e além da estética tecnológica e futurista.
A pergunta é: você realmente entende o que está acontecendo? Porque isso não é só música. Nunca foi.

Beyoncé, assim como Michael, entendeu que sua missão transcende qualquer conceito de entretenimento.
A missão é outra: resgatar a verdadeira história e gritar para o mundo que, se essa história não for contada, ela será enterrada viva.

Nos anos 80, quando tinha apenas 21 anos, Michael Jackson disse em entrevista:
“Quando você viaja, percebe o quanto a América é diferente. Eu odeio dizer isso, mas nosso povo sofre lavagem cerebral. E se esquecermos de onde viemos, nossa história será apagada. Eu quero que a gente se lembre.”

Décadas se passaram e, mesmo agora, a América insiste na mesma tentativa insana. Elege heróis brancos como ícones de sua cultura — Superman, Elvis, Capitão América… — ignorando a verdade mais incômoda que existe: nenhuma dessas figuras construiu a base da cultura americana. Nenhuma.

Michael falou sobre isso muitas vezes. Escreveu cartas em que dizia:
“Chegou a hora do primeiro rei negro.”

Nos protestos contra a Sony, nos anos 2000, ele subiu em um caminhão e escancarou o racismo da indústria fonográfica. Expôs como artistas negros são sistematicamente explorados, descartados e deixados para morrer na pobreza, enquanto homens brancos enriquecem eternamente às custas da sua arte.

Michael não era só um artista. Ele era um grito.

Um grito sufocado, censurado, ridicularizado, perseguido e destruído dia após dia.
Quando se foi, o mundo não perdeu apenas um cantor. O mundo perdeu um herói negro, que lutou até o último dia por sua história, sua comunidade e sua verdade.

E Beyoncé sabe disso. E sente isso. Seu novo álbum não é só um disco. É uma declaração de guerra.

Ela deixou claro: “Esse não é um álbum country. É um álbum Beyoncé.”

O que ela está fazendo é amplificar, sem pedir licença, a mesma mensagem que Michael dedicou sua vida para ecoar.
A história da música, da arte e da humanidade começa com homens e mulheres negros. Sempre começou.

Beyoncé é filha do Texas. Ela sabe muito bem onde nasceu o country. E Michael também sabia. Ele cresceu no subúrbio de Gary, Indiana, e foi criado sob a influência da mãe, Katherine Jackson, uma mulher nascida no Alabama, apaixonada por música country. Dona Kathe sonhava em ser uma estrela do gênero, mas a poliomielite e outras dificuldades a impediram. Mesmo assim, a música ecoava dentro de casa, e Michael, criança, se apaixonou.

Jonathan Moffett, baterista e amigo, contou que, nos anos de Bad e Dangerous, Michael o levou para um estúdio. Ele achou que iriam ensaiar músicas da turnê. Mas não.
Michael passou horas tocando clássicos do country e discursando, obsessivamente, sobre a verdadeira origem do gênero e sobre como roubaram dos negros algo que eles mesmos criaram.

Beyoncé sabe exatamente o que está fazendo. Assim como Michael sabia.
E Cowboy Carter dá continuidade ao manifesto que começou em Renaissance (2022), com uma verdade crua:
“America has a problem.” (A América tem um problema.)

Sim, tem. E esse problema é a negação da sua própria raiz.

A história foi sequestrada, editada, maquiada. E por muito tempo, tentaram nos convencer de que o herói americano tinha olhos azuis.

Mas a indústria não contava com duas forças imparáveis: Michael Jackson e Beyoncé Knowles-Carter.


Eles são o lembrete constante de que a América, e o mundo, só são o que são porque homens e mulheres pretos ergueram tudo. Tijolo por tijolo, acorde por acorde, ritmo por ritmo.

Olhe com atenção para a turnê de Beyoncé. Em um dos interlúdios, ela aparece gigante, caminhando pelos Estados Unidos. Ela segura estádios nas mãos, brinca com a Estátua da Liberdade e, encarando de frente a placa de Hollywood, deixa claro:
“Eu sou maior que o sistema. Maior que a indústria.”

O caos se instala quando ela chega ao Velho Oeste. O que isso significa?
Volte para Moonwalker (1988). Nos clipes de Leave Me Alone e Speed Demon, Michael faz exatamente a mesma coisa.

Em Leave Me Alone, ele surge gigante, caminhando no meio da cidade, pisando nas estruturas da indústria, zombando do circo que criaram ao seu redor.
É seu protesto visual contra uma mídia doente, racista e obcecada em destruí-lo.
Em Speed Demon, Michael foge desesperado pela cidade, atravessa o Velho Oeste, enquanto figuras grotescas, caricaturas da própria indústria, se juntam para persegui-lo.

Nada disso é coincidência. Porque tanto Michael quanto Beyoncé carregam a mesma cicatriz, a mesma missão, o mesmo peso.

Não estamos aqui comparando dores. Mas a verdade é uma só:
Ambos são a prova viva — e eterna — de que a verdadeira história não é a que contaram pra gente. E nunca será.

No álbum HIStory, Michael entregou ao mundo seu testamento.
Músicas como Earth Song, They Don’t Care About Us, Scream e a própria HIStory são gritos desesperados contra um mundo podre que destrói, que explora, que persegue, que tenta apagar.
Na turnê, ele ergueu bandeiras de várias nações. Mas fez com que, entre todas, a bandeira dos Estados Unidos fosse destacada. Um gesto que parecia patriotismo, mas que, na verdade, era protesto.

Porque a América nunca valorizou Michael. Nunca aceitou Michael. Fez de tudo para destruí-lo, assim como fizeram com Malcolm X, Martin Luther King e tantos outros heróis negros.

E hoje, Beyoncé segura essa mesma bandeira. Não como celebração. Mas como denúncia.

Ela não está só cantando. Ela está escrevendo, no palco, as páginas que a história tentou rasgar.

E ao referenciar Michael, ela deixa um recado claro: Essa história não vai ser apagada. Esse legado nunca morrerá.

Michael Jackson vive.

E enquanto houver uma voz preta que se recusa a se calar, eles nunca vão conseguir nos apagar.

Porque se eles não se importam com a gente… nós nos importamos.

Por Isaque Souza