Quando o Deadline revelou que o corte inicial da cinebiografia “Michael” incluía referências a Jordan Chandler — e que essas cenas precisaram ser removidas por um acordo legal — uma pergunta inevitável surgiu: como contar a história do Rei do Pop sem abordar 1993?
Para quem não sabe, esse ano é um marco: foi quando Michael Jackson soube, durante os ensaios da Dangerous World Tour, que seria acusado de conduta irregular com menor. Segundo informações de bastidores, o roteiro inicial começava justamente com a polícia invadindo o rancho Neverland, um início impactante que abriria espaço para uma grande retrospectiva da vida do artista.
Com a exclusão dessa parte, o longa precisou ser reestruturado. Mas isso não significa que a narrativa perdeu força — pelo contrário, pode ter ganhado um novo ponto de vista, mais íntimo e focado no homem por trás do mito.
Uma história mais íntima e psicológica
Sem o arco direto sobre 1993, a produção tem agora a oportunidade de explorar mais a fundo os conflitos internos de Michael. Isso inclui:
- Traumas familiares: a relação com Joseph Jackson foi um dos pilares do comportamento e da imagem do cantor. Joseph chegou a dizer que o nariz de Michael era “terrível” e que isso vinha da família de Katherine, algo que afetou profundamente o filho. Muitos especialistas apontam que as cirurgias plásticas de Michael estavam ligadas a esse trauma — um desejo de não se parecer com o pai.
- Joh’Vonnie Jackson — a filha fora do casamento: Joseph teve uma filha com Cheryle Terrell, Joh’Vonnie, nascida em 1974, um dia após o aniversário de 16 anos de Michael. Ao contrário dos filhos com Katherine, Joh’Vonnie o chamava de “daddy” e recebia atenção especial, algo que alimentou tensões profundas entre os irmãos e a figura paterna.
- Timidez e vitiligo: Michael lidava com a timidez e com o avanço do vitiligo maquiando as manchas, no início, para que seu tom de pele permanecesse uniforme. Com o tempo, as áreas atingidas foram se tornando grandes demais para cobrir, levando-o a fazer o processo inverso: despigmentar a pele. Um artista performático que usava maquiagem para esconder fragilidades acabou transformando sua aparência em parte da própria narrativa artística.
Esses elementos permitem que o filme conte uma história humana — não apenas sobre o ícone, mas sobre um homem tentando sobreviver à pressão da fama e aos próprios demônios internos.
Conflitos familiares transformados em música
Michael Jackson também canalizava essas tensões em sua arte. Um exemplo emblemático é “Wanna Be Startin’ Somethin’”, de 1982, que traz versos sobre “pessoas que criam atritos”. Há quem interprete essas indiretas como recados à irmã LaToya Jackson, com quem ele vivia períodos de fortes desavenças. Essa capacidade de transformar dor pessoal em música é um dos aspectos mais poderosos de sua obra — e um potencial narrativo riquíssimo para o filme.
Pontos polêmicos que podem aparecer
Mesmo com a exclusão de partes do roteiro, ainda existem temas que podem ganhar espaço no filme — ainda que de forma sutil — para construir um retrato completo de Michael. Entre eles:
- A relação com a mídia sensacionalista, que o apelidou de “Wacko Jacko” e criou rumores sobre sua vida pessoal.
- O isolamento em Neverland, construído como um refúgio para reviver a infância que ele nunca teve.
- O uso de medicamentos após acidentes e cirurgias, que posteriormente se transformou em problema, inclusive com ajuda de Elton John na recuperação.
Esses temas ajudam a entender melhor a complexidade de Michael Jackson e podem dar ao público um retrato mais nuançado de sua vida, longe das caricaturas midiáticas.
Pincelar 1993 sem aprofundar: um desafio necessário
Mesmo sem entrar no caso Chandler, é impossível ignorar 1993. Essa foi uma virada de chave na vida do artista, afetando sua carreira e sua saúde emocional. O filme pode abordar isso de forma sutil, sem detalhar o processo judicial.
Uma declaração de isenção pode ajudar o público a entender os limites narrativos:
“As acusações civis contra Michael Jackson resultaram em um acordo, sem admissão de culpa. Na esfera criminal, não houve condenação por falta de provas.”
Isso preserva a integridade do filme e mantém a transparência com o espectador.
Do espetáculo ao íntimo: a chance de um retrato mais humano
Com o corte do arco inicial, “Michael” pode surpreender ao priorizar o que os fãs e o público em geral sempre quiseram ver: o homem por trás da lenda. Um artista sensível, que transformou suas dores em arte e que viveu sob o peso de ser um ícone mundial — sem nunca deixar de ser um ser humano tentando lidar com cicatrizes profundas.



