A infância não é trend | MJ Beats
Michael Jackson na infância com fita na boca em protesto: Adultização

A infância não é trend

Texto em parceria com a MJ Culture.

Passa um vídeo, acende-se a indignação. A pauta vira febre, multiplicam-se análises apressadas, todo mundo toma posição. Depois, o algoritmo muda de assunto. A infância segue fora do centro.

Felca, um YouTuber brasileiro, cutucou um nervo recente; Michael Jackson avisou antes, na Oxford Union em 06 de Março de 2001: “A infância tornou-se a grande vítima da vida moderna.” Não é slogan, é acusação contra a rotina — e rotina não dá IBOPE.

Preferimos o espetáculo da denúncia às reformas do cotidiano. A sociedade exibe virtude em público e, em casa, negocia presença. Tela antes do abraço, agenda de adulto para corpo de criança, privacidade trocada por engajamento. Não precisa crime para produzir ferida; basta a soma diária de pequenas ausências. Resultado: abundância por fora, vazio por dentro.

 A infância não é trend

O alerta de Michael foi impopular porque exigia o recurso que menos entregamos: tempo. Ele virou personagem de controvérsia enquanto a mensagem — colocar a criança no centro — era empurrada para fora de cena. Quando a ideia incomoda, ataca-se o mensageiro. Funciona há décadas.

O fenômeno atual repete o padrão. Muda o nome do dia, a coreografia é a mesma: hashtags, promessas, monetização da virtude. A realidade pede outra coisa: constância silenciosa. A presença que não se filma. O limite que não rende cliques. O “não” que protege sem virar pauta.

Não se trata de comparar pessoas, mas de alinhar princípios. Felca reacende a conversa; Michael legou um mapa moral. O caminho não passa por discursos inflamados, e sim por casas menos terceirizadas ao feed. Quer mudança? Troque performance por cuidado. Feche a tela no jantar. Faça perguntas que não caibam em comentários. Não transforme a infância em conteúdo. Respeite o tempo de crescer.

A indignação pública é passageira. O dano privado, não. Se não aprendermos a diferença, repetiremos o escândalo do dia e abandonaremos a criança de sempre. A infância vem primeiro. O resto aprende a esperar.