Muitos fãs de Michael Jackson ainda se dividem: há os que defendem o Espólio e a administração de John Branca, e há os que enxergam em sua volta às pressas, em 2009, uma manobra questionável. Para uns, ele salvou o legado financeiro de Michael; para outros, tirou proveito de uma situação nebulosa. Mas, neste texto, nossa intenção é diferente: explicar para fãs e não fãs o que está documentado, o que é alegado e o que ainda permanece como zona cinzenta.
1. O afastamento de Branca e o retorno às vésperas da morte
Michael demitiu John Branca em 2003 após receber suspeitas de possíveis conflitos de interesse e desvio de valores, acusações nunca comprovadas judicialmente. Dois anos depois, Karen Faye — maquiadora de longa data do cantor — também foi afastada. Ambos continuariam a carregar mágoas públicas dessa ruptura.
Karen voltou a ser maquiadora (make-up artist) após Abril de 2009 para os shows de This Is It. Uma exigência do próprio cantor.
Já em 17 de junho de 2009, apenas oito dias antes de sua morte, Michael assinou nova procuração reintegrando Branca como seu advogado. Documentos apresentados à corte confirmam essa recontratação, validada pelo Los Angeles Times. A decisão sugere que Michael buscava apoio jurídico para revisar contratos e resguardar seus interesses frente à AEG, promotora dos shows This Is It.
2. Linha do tempo de John Branca
- 1980s–2002: Branca esteve à frente de negociações históricas, incluindo a compra do catálogo dos Beatles.
- 2002 (importante): Antes da demissão, Michael havia assinado o testamento que nomeava John Branca e John McClain como co-executores de seu espólio. Esse documento nunca foi alterado.
- 2003: Michael o demite, citando perda de confiança.
- 17 de junho de 2009: Apenas oito dias antes da morte de Michael, Branca foi recontratado via power of attorney, segundo documentos apresentados à corte e reportagens do Los Angeles Times.
- 2009 (após a morte): O tribunal de Los Angeles reconheceu a validade do testamento de 2002 e reconfirmou Branca e McClain como executores.
Ou seja: mesmo que Michael tivesse dispensado Branca em 2003, ele nunca retirou seu nome do testamento. Essa brecha legal permitiu sua volta.
3. Quando os filhos recebem 100%?
Um ponto central para os fãs é: quando os herdeiros controlarão 100%? O trust estabelece um cronograma em três etapas (30/35/40 anos). Até lá, eles recebem distribuições graduais, enquanto o espólio continua administrado por Branca & McClain.
| Herdeiro | 30 anos (1ª parcela) | 35 anos (2ª parcela) | 40 anos (100%) |
|---|---|---|---|
| Prince (1997) | 2027 | 2032 | 2037 |
| Paris (1998) | 2028 | 2033 | 2038 |
| Bigi (2002) | 2032 | 2037 | 2042 |
Enquanto esse calendário corre, o trust não pode ser financiado integralmente por causa de uma disputa com o IRS (Receita Federal dos Estados Unidos) sobre a valoração do espólio. Em 2009, Michael deixou mais de US$ 400 milhões em dívidas, e até hoje há divergências sobre impostos não pagos. Isso não bloqueia as mesadas e distribuições, mas adia a transferência formal da gestão.
4. Honorários e questionamentos recentes
Mesmo com a reestruturação que transformou o espólio de endividado em lucrativo (incluindo acordos bilionários com a Sony), há críticas. Em 2025, Paris Jackson questionou judicialmente pagamentos de US$ 625 mil em honorários advocatícios “não documentados”. O espólio defendeu a legalidade desses gastos, mas o episódio reacendeu dúvidas sobre transparência.
Esse ponto sensível não é trivial: embora os filhos sejam beneficiários, não participam da administração diária, ficando dependentes das decisões dos executores até atingirem a idade de pleno controle.
5. Conclusão crítica
Karen Faye trouxe emoção em suas declarações recentes, mas também levantou questões legítimas sobre confiança e interesses. Do outro lado, defensores de Branca apontam para resultados concretos: dívidas eliminadas, legado rentável e resistência às acusações do documentário Leaving Neverland.
O que a linha do tempo mostra é simples: Michael desconfiou, afastou, mas também recontratou Branca pouco antes de sua morte. A verdade documentada é que o testamento de 2002 prevaleceu e que os filhos só terão pleno controle entre 2037 e 2042. Até lá, o debate entre gratidão e desconfiança deve continuar — com a ressalva de que a gestão do espólio, ainda que lucrativa, precisa lidar com transparência para não alimentar narrativas de abuso de poder.
A situação está longe de ser preto no branco:
- Fato: Michael desconfiava de Branca e o demitiu em 2003.
- Fato: Michael nunca alterou o testamento de 2002, permitindo que Branca reassumisse legalmente em 2009.
- Fato: o espólio transformou um patrimônio endividado em bilhões de dólares, mas mantém práticas contestadas, como honorários elevados.
- Zona Cinzenta: até hoje, não há provas dos desvios offshore, mas as acusações ecoam na memória de fãs e colaboradores próximos.
Portanto, mais do que escolher lados, compreender a complexidade do Espólio de Michael Jackson exige olhar para documentos oficiais, decisões judiciais e movimentações financeiras — sem desconsiderar a sensibilidade de vozes como Karen, Debbie e outros. Mas sem reduzir tudo a narrativas emocionais.
📚 Fontes:
- Testamento de 2002 (Michael Jackson Will) – DocumentCloud
- LA Times (01/jul/2009): “A Jackson will surfaces…”
- LA Times (12/ago/2009): nota com recontratação em 17/06/2009
- Carolina Family Estate Planning – idades 30/35/40 no trust
- Alatsas Law Firm – explicação escalonamento 30/35/40
- Carrell Blanton (28/jan/2025): análise recente do espólio
- People (31/mai/2024): trusts não podem ser financiados até resolver IRS
- People (28/jun/2024): dívida > US$ 500 milhões na morte
- People (jul/2025): Paris Jackson questiona pagamentos “premium”
- KPMG (2021): resumo decisão do U.S. Tax Court (IRS x Espólio)




