Em setembro de 1974, o Brasil recebeu pela primeira vez um grupo que já era fenômeno mundial: os Jackson Five. Entre os irmãos, o mais jovem a brilhar era Michael Jackson, então com apenas 16 anos, mas já dono de um carisma que o destacava no palco. A turnê passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília, marcando a memória de milhares de fãs.
A chegada ao Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio, no dia 16 de setembro, foi um evento à parte. Com uma comitiva de mais de 30 pessoas, entre tias, seguranças e até babá, os irmãos desembarcaram com expressões sérias, mas chamaram atenção pelas roupas coloridas e o estilo jovem. Um detalhe curioso foi o encontro inesperado com Roberto Carlos, que passava pelo aeroporto e, apesar de já ser um ícone nacional, foi completamente ignorado pelo público.

Inicialmente, o grupo deveria descansar em Itacuruçá, na Costa Verde, mas preferiu se hospedar no Hotel Nacional, em São Conrado, para sentir o ritmo da cidade. No dia seguinte, concederam uma coletiva à imprensa, onde apareceram sorridentes, com os cabelos em black power e roupas vibrantes. Michael, apesar de ser o mais jovem entre os principais integrantes, foi o mais falante, demonstrando já ter clareza sobre a dimensão do grupo.
Ele explicou que o sucesso dos Jackson Five vinha de acompanhar o gosto do público, mas de uma forma mais elaborada e única. “Não existe outro conjunto com nosso estilo”, disse o jovem que mais tarde se tornaria o Rei do Pop. A declaração mostrava a confiança de quem já entendia o impacto da música na juventude, mesmo sendo apenas um adolescente.

Durante a coletiva, os irmãos revelaram conhecer apenas a obra de Sérgio Mendes, vizinho deles em Los Angeles. E entre comentários descontraídos, Randy, de apenas 12 anos, se encantou com as roupas coloridas dos cariocas, enquanto Jermaine ficou surpreso com a quantidade de Volkswagens nas ruas. Michael, por sua vez, arrancou risos ao confessar uma decepção curiosa: “Eu esperava encontrar esmeraldas nas ruas, como li nos livros de História”.

No palco, o grupo mostrou porque já era uma sensação mundial. Em São Paulo, no Anhembi, a performance foi elogiada até por críticos que inicialmente os viam como “comerciais demais”. No Rio, os sucessos como “ABC” e “I’ll Be There” ecoaram no Maracanãzinho, com abertura da Portela, que trouxe o samba para dividir a noite com o soul americano.
Nem tudo, porém, foi festa. Em Brasília, o show marcado para 21 de setembro virou confusão quando os equipamentos não chegaram a tempo. O público já estava no ginásio quando o cancelamento foi anunciado, e a frustração resultou em tumulto e depredação. Os Jacksons tiveram que sair escondidos, cercados por fãs revoltados. Após negociação, o show foi reagendado para o dia seguinte, e o grupo se redimiu com uma apresentação histórica para mais de 20 mil pessoas.

A turnê de 1974 pode não ter recebido a cobertura respeitosa que Michael Jackson teria em seus anos de consagração solo, mas foi um marco.
O garoto de 16 anos que esperava encontrar esmeraldas pelas ruas brasileiras começava ali a criar memórias em um país que, décadas depois, ainda o reverencia como um dos maiores artistas que já pisaram em seus palcos. Michael retornaria ao Brasil em 1993 com a gigantesca “Dangerous World Tour” e, em 1996, dançou com o Olodum, imortalizando o clipe de “They Don’t Care About Us” nas ruas de Salvador e no Morro Dona Marta, Rio de Janeiro.
Acervo Globo




