Parasitas do Legado: Como celebridades usam Michael Jackson para se manter em evidência | MJ Beats
Parasitas do Legado: Como celebridades usam Michael Jackson para se manter em evidência | ChatGPT Image 3 de out. de 2025 08 16 52

Parasitas do Legado: Como celebridades usam Michael Jackson para se manter em evidência

A memória, curiosamente, opera como um mercado de futuros. Investe-se hoje em narrativas sobre o passado na esperança de um rendimento de atenção amanhã. E poucas figuras póstumas oferecem um ativo tão seguro quanto Michael Jackson, cuja ausência parece ter apenas intensificado sua força gravitacional. Em torno dele, orbitam satélites de todos os tamanhos — amigos de ocasião, colegas de uma era dourada, biógrafos tardios —, cada qual buscando um pouco de luz refletida para aquecer a própria relevância.

O mecanismo é quase previsível. Quando a carreira arrefece ou a autobiografia precisa de um capítulo de impacto, o nome de Michael ressurge. Não como lembrança afetuosa, mas como um recurso estratégico, uma espécie de fiador de interesse. Vemos isso em Frank Cascio, que de amigo fiel metamorfoseou-se em credor de memórias, apresentando agora uma fatura emocional que inclui acusações graves. O que era lealdade se converte em litígio. O que era intimidade vira um ativo a ser monetizado. É uma transmutação que nos diz menos sobre Michael e mais sobre a natureza fluida das nossas relações na indústria do espetáculo.

O fenômeno se repete com uma constância que beira o ritual. Priscilla Presley evoca Michael para se reconectar à realeza de um outro rei; Brooke Shields modula a natureza de sua amizade conforme a necessidade do relato do momento; Elton John e Lionel Richie, gigantes por mérito próprio, ainda assim recorrem a anedotas com o astro para garantir aquele tempero de polêmica que a mídia tanto aprecia. Não se trata de julgar a veracidade de cada história, mas de observar o padrão: a memória de Michael Jackson não é um patrimônio a ser preservado, mas uma matéria-prima a ser explorada.

Nesse ecossistema, a mídia não é um espectador passivo. Ela atua como a curadora do leilão, oferecendo o palanque para quem der o lance mais sensacionalista. O escândalo vende mais que a arte, a controvérsia gera mais cliques que o legado. E nós, o público, consumimos essas narrativas com uma avidez que nos torna cúmplices silenciosos do saque. Alimentamo-nos do drama, talvez porque ele nos distraia da incômoda genialidade do artista — uma grandeza que, por ser inalcançável, preferimos ver humanizada, ou melhor, manchada por relatos terrenos.

Resta a incômoda sensação de que a obra, vasta e complexa, vai sendo soterrada por um anedotário de segunda mão. O legado artístico, que deveria ser o centro, torna-se ruído de fundo para as ambições alheias.

Afinal, quando nos debruçamos sobre essas histórias, estamos tentando entender Michael Jackson ou apenas testemunhando a luta desesperada de outros para não serem esquecidos? E o que diz sobre nós o fato de continuarmos a dar palco a esse espetáculo?