Rio, Salvador e Michael Jackson: Bastidores de Um clássico que incomodou o poder | MJ Beats
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Rio, Salvador e Michael Jackson: Bastidores de Um clássico que incomodou o poder

A gravação de They Don’t Care About Us, no Brasil, não foi apenas uma decisão artística de Michael Jackson. Foi um enfrentamento. Em 1996, o artista mais conhecido do planeta escolheu transformar sua visibilidade em denúncia. A música já nascia como um grito contra a exclusão, o racismo e o abandono social. O clipe ampliaria esse grito, levando-o para imagens reais, lugares reais e pessoas reais.

O Brasil foi escolhido justamente por concentrar contradições que se repetiam em escala global. Um país exaltado por sua cultura, mas marcado por desigualdade extrema e por uma estrutura social que empurrava milhões para a margem. O Rio de Janeiro sintetizava esse cenário. Em poucos quilômetros, a cidade reunia luxo, pobreza, ausência do Estado e resistência cotidiana.

Michael Jackson não ignorava esse contexto. Ele já havia passado pelo Rio em 1974, ainda jovem, com o Jackson 5. Anos depois, com maturidade artística e consciência política, voltou com outro olhar. Não buscava paisagens. Buscava verdades incômodas.

O clipe como denúncia e não como entretenimento

Desde o início, They Don’t Care About Us foi concebida como uma música de confronto. A letra falava de violência institucional, perseguição, racismo e descaso do poder público. O clipe precisava refletir essa mensagem. Não poderia ser neutro, nem confortável.

A produção original previa apenas Salvador como locação. A Bahia representava ancestralidade, identidade negra e resistência histórica. Mas Michael insistiu que o Rio de Janeiro também estivesse presente. A cidade funcionava como vitrine internacional e, ao mesmo tempo, como prova das desigualdades que o discurso oficial tentava esconder.

A escolha do Rio não foi bem recebida por todos. Desde o anúncio das filmagens, surgiram pressões políticas e tentativas de interferência. O incômodo não era com a logística. Era com a imagem. Mostrar favelas, comunidades e realidades excluídas contrariava a narrativa turística que se queria preservar.

Bastidores de tensão e obstáculos institucionais

A produção local ficou a cargo da Skylight, uma das maiores produtoras do país. A equipe brasileira passou a lidar com um ambiente de tensão constante. Autorizações eram questionadas, informações vazavam para a imprensa e declarações oficiais tentavam desestimular as gravações em áreas pobres.

Relatos de profissionais envolvidos mostram que o clima fora do set era de vigilância e pressão. Havia o receio de que o Brasil fosse retratado como um país desigual. Mas era exatamente esse o ponto do projeto. A desigualdade não era uma invenção do clipe. Era a realidade que o clipe revelava.

Na Bahia, a presença do Olodum fortaleceu ainda mais o discurso. O grupo não representava apenas música, mas uma história de enfrentamento ao racismo estrutural. O encontro entre Michael Jackson, Spike Lee e o Olodum transformou o videoclipe em um manifesto visual contra a exclusão social.

O Olodum nasceu no Pelourinho, entre moradores que transformaram cultura em resistência. Educação, identidade e consciência racial sempre estiveram no centro de sua atuação. Ao integrar They Don’t Care About Us, o grupo levou essa narrativa para uma escala global.

A reação ao espelho que o clipe apresentou

Quando ficou claro que o clipe mostraria favelas, rostos reais e ausência do Estado, a reação institucional se intensificou. O governo do Rio tentou impedir as filmagens em comunidades. O argumento era preservar a imagem da cidade. Mas a imagem que incomodava não era falsa. Era real.

Michael Jackson seguiu adiante. Ele compreendia que a música e o clipe falavam sobre um problema que não era exclusivo do Brasil. O abandono, o racismo e a violência institucional atravessavam fronteiras. O Brasil era um exemplo visível de uma estrutura global de exclusão.

They Don’t Care About Us não pedia permissão. A música denunciava. O clipe mostrava. Juntos, formaram um grito contra a injustiça, ecoando vozes que raramente tinham espaço nos grandes meios de comunicação.

Ao final, o que ficou não foi apenas um videoclipe histórico. Ficou um registro incômodo. Um documento audiovisual que expôs tensões sociais, enfrentou o poder e mostrou que a arte, quando decide olhar para a realidade, pode se tornar uma forma direta de resistência.

Para quem deseja aprofundar essa história, ouvir os personagens envolvidos e compreender como arte, política e resistência se cruzam nesse episódio histórico, vale assistir à docussérie Behind the Saturday Sun, de Manuela Bezamat. Mais do que um registro, a obra amplia o olhar sobre o impacto cultural, social e humano por trás de They Don’t Care About Us.