No dia 14 de fevereiro de 1992, a vila de Krindjabo, capital histórica do Reino de Sanwi, na Costa do Marfim, testemunhou um evento de sincretismo cultural e diplomacia sem precedentes na história moderna. Michael Jackson, globalmente reconhecido como o “Rei do Pop”, foi oficialmente coroado como “Príncipe Michael Amalaman Anoh”, integrando-se formalmente à linhagem real do povo Agni.
O Contexto do Reino e a Legitimação da Coroação
O Reino de Sanwi é uma entidade política pré-colonial, fundada por volta de 1740 por migrantes Agni oriundos do Império Ashanti. A sua estrutura sociopolítica é centrada na figura do Rei, que ocupa o “Taburete” (Stool) sagrado, e a sucessão é regida pela matrilinearidade. A coroação de Jackson não foi um ato meramente promocional, mas baseou-se em protocolos tradicionais específicos:
- Identidade Ancestral: Líderes tribais afirmaram que Jackson descendia de uma linhagem real Sanwi, baseando-se em leituras místicas que o identificaram como um “filho da terra” retornando às suas origens.
- O Trono de Ouro (The Golden Stool): Na tradição Akan, a autoridade reside no trono, que é o receptáculo da alma da nação (Sunsum). Ao ser convidado a sentar-se no trono, Jackson foi integrado à substância espiritual do reino.
- O Nome Regencial: O título conferido, “Amalaman Anoh”, refere-se a um antigo nobre da história Sanwi, sugerindo que o artista representava a reencarnação ou a manifestação viva desse espírito ancestral.
A Cerimônia de 14 de Fevereiro de 1992
O ritual de entronização ocorreu sob a copa de uma árvore sagrada no centro de Krindjabo, local que funciona como o tribunal supremo da tradição local. O protocolo seguiu etapas fundamentais de transformação visual e jurídica:
A primeira etapa consistiu na transformação vestimentar, onde Jackson foi envolto em tecidos tradicionais Akan, ricos em padrões que denotam status real, simbolizando sua “africanização” espiritual. A atmosfera sonora foi marcada pelos tambores tam-tams, que transmitiam mensagens de boas-vindas na linguagem tonal dos Akan, criando um ambiente de consagração real.

O momento de maior relevância jurídica ocorreu com a assinatura de documentos oficiais do reino, formalizando o título dentro da lei consuetudinária. Este ato transformou a cerimônia em um contrato social vinculante entre o artista e o povo. Embora a mídia ocidental utilizasse o termo “Rei”, tecnicamente Jackson foi adotado como Príncipe Herdeiro (King-in-waiting), tornando-se o filho espiritual do Rei Nana Amon N’Douffou IV.
Diplomacia e Sucessão: O Vínculo Perpétuo
Diferente de honrarias celebrativas comuns, Jackson tratou o título como uma responsabilidade diplomática contínua. Em 1995, ele inverteu a dinâmica de anfitrião e convidou oficialmente o Rei Nana Amon N’Douffou IV para visitá-lo nos Estados Unidos. O monarca africano foi recebido na Califórnia, onde se reuniu com figuras da elite negra americana, fortalecendo as pontes entre a liderança afro-americana e a realeza tradicional africana.

A seriedade do vínculo estendeu-se à prole do artista. Em fevereiro de 1997, seu filho primogênito, Prince Michael Jackson I, teria sido simbolicamente inaugurado como “Príncipe Mikaeel Amalaman Anoh II”, indicando que Jackson via o título como uma herança hereditária.
O Luto Real e o Legado em Krindjabo
A morte de Michael Jackson em 2009 foi processada em Sanwi através das lentes da lei consuetudinária. O Conselho Real convocou uma reunião de emergência e solicitou oficialmente à família Jackson e à Embaixada Americana a repatriação do corpo, argumentando que um chefe não pode ser enterrado em terra estranha.

Diante da impossibilidade do sepultamento físico na Costa do Marfim, o povo de Sanwi realizou um funeral real in absentia em agosto de 2009. O rito seguiu protocolos rigorosos, incluindo libações e lamentos fúnebres dirigidos a Amalaman Anoh, confirmando postumamente o seu status de alto dignitário. A sucessão no “Stool” foi mantida com a coroação do Reverendo Jesse Jackson como Príncipe Nana em 2009, reafirmando a aliança entre o reino e a diáspora.

Há décadas, e com persistência ainda nos dias de hoje, o reino organiza sessões públicas de exibição da videografia de Michael Jackson.

- A Função do Rito: Essas exibições não são apenas entretenimento; são ritos pedagógicos. O objetivo do Conselho Real é garantir que as novas gerações conheçam a face, o talento e a história do seu Príncipe. Em Krindjabo, Michael é ensinado como um ancestral que venceu o mundo sem nunca esquecer o caminho de volta para casa.
Atualmente, Krindjabo permanece como um local de peregrinação cultural, onde a Árvore Sagrada serve como monumento ao dia em que o artista se integrou a uma estrutura de poder tradicional que transcendeu sua imagem pública ocidental.

“Os tambores e os sons enchiam o ar com ritmo… É isto. É daqui que eu venho. A origem.” — Michael Jackson, 1992.




