No jogo Ready 2 Rumble Boxing: Round 2, lançado para o PlayStation 2, uma das maiores surpresas não estava apenas nos golpes exagerados ou no humor escancarado. Estava na presença de Michael Jackson como personagem secreto jogável. O Rei do Pop surgia no ringue como um lutador desbloqueável, vestindo figurinos inspirados em seus trajes clássicos, com chapéu fedora e roupas elegantes. Seus movimentos misturavam boxe com dança, criando ataques rápidos, performáticos e totalmente alinhados ao estilo arcade do jogo. Era inesperado, ousado e simplesmente impossível de ignorar.
O Convite
A história começou antes da sequência. Em outubro de 1999, a Midway Games lançou Ready 2 Rumble Boxing para o Sega Dreamcast. O jogo se destacou pelo visual caricato, personagens cheios de personalidade e um estilo que não tentava ser realista demais, mas sim divertido. O sucesso foi imediato entre fãs de luta e jogadores casuais. Semanas depois, a equipe recebeu uma ligação improvável. Um fã queria participar da continuação. Esse fã era Michael Jackson.
A reação inicial foi de empolgação misturada com descrença. Era difícil imaginar que uma das figuras mais famosas do planeta estivesse ligando para falar sobre um jogo de boxe. Mas o ceticismo acabou quando a equipe foi convidada a visitar o rancho Neverland. Lá, ficou claro que o interesse era genuíno. Michael falava com entusiasmo sobre o quanto havia se divertido com o primeiro jogo e disse que queria estar na sequência. Ele não pediu pagamento. Queria apenas fazer parte do processo e se transformar, de verdade, em um personagem 3D.
Neverland, Arcades e Captura de Movimento
Michael era, acima de tudo, um jogador. Em Neverland, havia um espaço inteiro dedicado a máquinas de fliperama. Clássicos dos anos 80, edições especiais, consoles organizados como vitrines de loja. Ele colecionava, jogava e entendia do assunto. Não era sua primeira participação em videogames, mas seria a primeira vez em que seria modelado em três dimensões, com captura de movimentos e gravação de voz.

Ao longo do desenvolvimento de Round 2, a equipe manteve contato constante com ele. Michael visitou o estúdio em San Diego para gravar falas, tirar fotos para texturas e participar da captura de movimento. O momento mais marcante aconteceu quando o designer responsável mostrou storyboards com sequências de dança pensadas para o personagem. Michael fechou a pasta e pediu que os movimentos fossem demonstrados ali, na frente dele. O constrangimento era inevitável. Demonstrar passos de dança para o maior performer do mundo exigia coragem.
O que veio depois virou memória eterna. Após observar a versão simples e tímida dos movimentos, Michael os reproduziu com precisão e energia impressionantes. Em poucos segundos, o que era apenas um esboço ganhou vida. A tecnologia capturava cada gesto, mas o que realmente ficava registrado era a entrega. Ele precisava apenas de uma direção e transformava aquilo em espetáculo. O personagem digital começava a nascer ali.
Amizade, Música e um Legado Que Fica
O relacionamento profissional evoluiu para amizade. Conversas semanais sobre jogos, tecnologia e até sobre o álbum que ele produzia na época, Invincible. Houve encontros marcantes, como o convite para o concerto comemorativo no Madison Square Garden, em 2001. Eram momentos que misturavam admiração e surrealismo. Para um desenvolvedor de jogos, dirigir e trabalhar ao lado de um ícone global era algo difícil de colocar em palavras.
Com o tempo, o contato diminuiu. A vida seguiu caminhos diferentes. Meses antes de sua morte em 2009, houve tentativas de retomar a conversa, de atualizar histórias, de mostrar novos projetos. A notícia de sua partida trouxe choque e tristeza. Mas ficou algo maior do que a ausência. O legado não estava apenas na música, mas também nas experiências que ele criou fora dos palcos. Inclusive em um ringue virtual.
A participação de Michael Jackson em Ready 2 Rumble Boxing: Round 2 se tornou um dos momentos mais curiosos e memoráveis da era do PlayStation 2. Não foi apenas uma jogada de marketing. Foi o encontro real entre um artista apaixonado por videogames e uma equipe que teve a chance de transformar essa paixão em algo jogável. No fim, o Rei do Pop não entrou no ringue para provar força. Entrou para mostrar que sua criatividade cabia em qualquer palco, até mesmo dentro de um jogo de videogame:




