Por Izabella Delfino, redatora e creator da Michael Jackson Culture
No dia 14/04, a pré-estreia da cinebiografia “Michael” ocupou as oito salas de cinema do shopping JK Iguatemi, em São Paulo. Ainda assim, não foi suficiente para comportar a demanda e, por isso, uma sessão extra foi aberta na sequência.
Fomos convidados pela Africanize e pela Universal Pictures Brasil para a primeira exibição, e eu também consegui acesso à sessão adicional, assistindo às duas exibições na tecnologia IMAX. Ainda do lado de fora, enquanto enfrentava as filas para acessar o cinema, ouvi um comentário que acabou guiando toda a minha noite: especialmente para quem é fã, talvez esse fosse um filme que exigisse mais de uma sessão.
A ideia fazia sentido. Entre olhos cheios de lágrimas, a nostalgia de ver os gloriosos anos 1980 recriados e a saudade tão profunda que sentimos de Michael Jackson, alguns detalhes inevitavelmente poderiam se perder. Logo, assistir a duas exibições, no mesmo dia e na sequência, foi uma forma de testar essa hipótese e também de separar o impacto inicial de um desejo mais atento de apreciar a obra, como se aprecia um bom vinho. Na primeira vez, a experiência disputa espaço com tudo aquilo que já existe antes do filme: memória, expectativa e emoção. Na segunda, esses elementos recuam o suficiente para que alguns detalhes apareçam com mais clareza.
A escolha de uma introdução musicada cumpre bem o papel de estabelecer o tom desde os primeiros segundos, mas ali ela faz mais do que isso. Quando os pés de Michael surgiram na já conhecida abertura de sua produtora, a reação do público não foi contida e pôde ser compartilhada entre as quase 400 pessoas presentes. Entre anônimos e nomes famosos como Xande de Pilares e Zeca Camargo, a sala vibrou como no início de um show ao vivo.
Som, performance e experiência de palco
A parte sonora é executada com maestria para o cinema, e a masterização de som é um dos seus maiores acertos. É ela que sustenta não apenas a imersão, mas a própria forma como o filme se revela.
Na primeira sessão, o impacto foi direto. O som envolve, preenche, atravessa. Uma espectadora ao meu lado dançou durante todo o filme. Eu, buscando me conter, não pude deixar de perceber que os meus joelhos tremiam. Em determinados momentos, especialmente nas cenas com público, eu realmente não conseguia distinguir de onde vinham os gritos, se do filme ou da própria plateia. Durante várias cenas do filme, não era claro se havia um estádio atrás de mim ou apenas as fileiras completamente lotadas da sala de cinema.
Na segunda sessão, esse mesmo efeito deixa de ser apenas sensação e passa a se revelar como construção técnica. Fica evidente o cuidado com a imersão do som, algo que só equipamentos de ponta conseguem entregar plenamente e que reforça que esse é, acima de tudo, um filme pensado para ser vivido no cinema, e em coletivo.
Em diversos momentos, especialmente nos trechos mais íntimos, é possível praticamente visualizar a tessitura vocal dos atores que interpretam Michael nas diferentes fases. Mais do que reproduzir a voz, o filme consegue reconstruir o efeito que ela provocava nas pessoas, despertando tanto a nostalgia de algo que muitos fãs jamais viveram quanto a gratidão por poder acessar essas camadas por meio dessa obra. “Michael” promove aos fãs uma representação privilegiada do que acontecia no backstage da criação de músicas, vídeos e coreografias, antes de tudo culminando no grande altar da música pop: o palco.
Nesse mesmo eixo, os instrumentos que dão o “molho”, o “funk” da sonoridade de Michael Jackson ganham protagonismo. Elementos como o bongo deixam de ser apenas base sonora e assumem papel de coadjuvantes importantes também visualmente, reforçando nuances que já fazem parte da experiência auditiva do público. As canções são apresentadas de forma integral, o que me remeteu diretamente ao anúncio feito por Michael em março de 2009, durante a coletiva da turnê This Is It: “I will be performing the songs my fans want to hear.”
Em inúmeros momentos, a sensação não é de recriação, mas de nova perspectiva de registro inédito, como se estivéssemos diante de imagens redescobertas de apresentações históricas, como no Motown 25, em 1983.
Narrativa e ponto de vista
Pela minha percepção, o roteiro não traz distorções da história e assume claramente um ponto de vista, como se o próprio Michael estivesse conduzindo sua narrativa. Ao assistir duas vezes, isso se torna ainda mais evidente: algumas escolhas que poderiam parecer simplificações passam a funcionar como recortes intencionais.
A cena inicial reforça essa leitura ao sugerir uma observação mediada, nunca totalmente objetiva, mas também nunca totalmente distorcida. Depende de nós, como público, enxergar o homem por trás da janela por onde ele escolhe abrir sua vida.
Para mim, entender desde a primeira sessão o filme como se o próprio Michael estivesse contando a sua história sustenta sua coerência integralmente. Ao assistir pela segunda vez, isso se consolida como uma escolha narrativa extremamente respeitosa.
Na infância, o jovem Michael é retratado com uma timidez marcante. Em alguns momentos, essa escolha pode soar como inexpressividade dentro do ambiente doméstico, mas a intenção parece ser justamente essa: construir contraste. O filme evidencia a ambiguidade entre talento, disciplina e opressão, sugerindo que a felicidade plena de Michael só se manifesta no palco ou fora da sombra de Joe.
Joe, Katherine e a Dinâmica Familiar
A atuação de Colman Domingo, que dá vida a Joe Jackson, merece mais do que uma menção. Existe um cuidado evidente em não transformar a personagem em caricatura. Ele não é suavizado, mas também não é simplificado.
Joe aparece como uma força estruturante e, ao mesmo tempo, opressiva. A rigidez não é suavizada, mas também não é explorada de forma sensacionalista. Ao assistir duas vezes, essa construção ganha outra camada, tornando mais perceptível sua influência não apenas pela violência física, mas também por aspectos psicológicos de controle e manipulação.
Isso é valioso também por permitir que o filme alcance diferentes públicos. Ao não recorrer ao excesso, ele abre espaço para que famílias assistam juntas, algo que ouvi repetidamente de pais durante minhas visitas recentes a cinemas em busca de materiais promocionais: o desejo de pais e avós de apresentar Michael Jackson às novas gerações.
Katherine Jackson, por outro lado, assim como na vida, opera em um registro completamente diferente. Sua presença é silenciosa, mas decisiva. A interpretação de Nia Long respeita essa natureza contida e não tenta ampliá-la além dos limites reais da personagem. Ela quase nunca ocupa o centro da cena, mas sustenta o que está ao redor. Em pequenos detalhes, como o jeito de andar e de se posicionar, é possível perceber o cuidado em representar uma força que sempre foi interna e silenciosa.
Sobre os irmãos, há uma escolha interessante: suas presenças são mais contidas, quase silenciosas, reforçando que este é um filme sobre Michael, e não sobre a família como um todo.
Performance e construção do ícone
Jaafar Jackson entrega uma das performances mais consistentes de qualquer filme biográfico recente. A vantagem natural de ser um membro da família Jackson poderia facilmente se converter em uma pressão descomunal, mas nada disso aparece em cena.
Existe um equilíbrio delicado entre homenagem e recriação, evitando o caricatural mesmo diante de um material altamente icônico. O respeito que Jaafar entrega ao seu tio é evidente e contribui diretamente para a construção do personagem, já que recriar Michael Jackson exige, antes de tudo, compreendê-lo minuciosamente.
Sua fisicalidade, especialmente no uso das mãos e na precisão corporal, emociona. Quem conhece Michael sabe que certos detalhes não são facilmente replicáveis, especialmente no uso expressivo das mãos. Até então, a experiência mais próxima disso vinha de nomes como Rodrigo Teaser, por meio de seu show “Tributo ao Rei do Pop”. O filme, de certa forma, passa a ocupar esse mesmo território, mas oferecendo novas perspectivas dessa imagem tão familiar, mas agora mais próxima.
O filme acerta ao apresentar Michael em sua complexidade: artista, pessoa espiritualizada e construtor consciente da própria imagem. O que foi polêmica aparece na medida certa, enquanto o controle sobre sua estética surge como extensão direta de sua expressão pessoal e desenvolvimento artístico. O tempo em tela que poderia ser usado para justificar polêmicas infundadas é empregado na justa representação da proximidade de Michael com seu público e com suas inspirações negras, sendo um dos pontos mais relevantes para quem esteja, porventura, conhecendo sua obra nos dias atuais.
O que eu gostaria de ver mais na Parte 2:
Alguns elementos da trajetória de Michael aparecem aqui de forma mais contida, abrindo espaço claro para desenvolvimento futuro.
A era Off The Wall surge de maneira concentrada, ainda que sua recepção pública tenha sido fundamental para a construção de Thriller. Não há presença mais aprofundada de vozes críticas especializadas nem uma exploração mais ampla da recepção global de suas obras.
Da mesma forma, detalhes do impacto cultural, estético e industrial de Thriller ainda não recebem a dimensão que merecem. A inserção de cenas curtas de grande impacto, já consolidadas na memória dos fãs, poderia contribuir para isso, como a narrativa da ligação de Fred Astaire para Michael após o Motown 25. O desenvolvimento de uma cena que demonstrasse o álbum Thriller “varrendo” o Grammy de 1984 contribuiria muito para reforçar a perspectiva de um fenômeno nunca antes visto em termos de sucesso de público e crítica.
Há também espaço para expandir a visão sobre sua carreira global, tratando-o não apenas como um astro, mas como um fenômeno que rompeu barreiras. Esse legado se consolida tanto por sua face filantrópica quanto pelo desenvolvimento de tecnologias que redefiniram padrões, desde a complexidade dos figurinos até a produção de seus curta-metragens.
Mais do que ausências, esses pontos funcionam como expectativa. Indicam que a história ainda não terminou de ser contada.
Ainda assim, o filme cumpre algo difícil e raro, como a lapidação de um diamante. O sonho dos fãs se realizou e todos nós ganhamos muito com essa celebração. Ao final, não há necessidade de lamento, apenas saudade.
Quando me perguntaram o que dizer sobre o filme sem spoilers, a resposta me veio quase automática, lembrando a fala de Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui: “Nós vamos sorrir. Sorriam!”
Michael Jackson ainda está aqui e nos dá motivos para sorrir. E isso é o mais importante.
If you smile through your fear and sorrow, smile and maybe tomorrow you’ll find that life is still worth a while if you just smile.

Para o público, a estreia de “Michael” chega acompanhada de uma proposta que dialoga diretamente com essa experiência. Para assistir pela primeira ou segunda vez, o fã-clube e núcleo criativo Michael Jackson Culture preparou uma parceria com a rede de cinemas Kinoplex para uma experiência única no Brasil.
No dia 23/04, o Michael: Legacy Night reúne sessões especiais e simultâneas em três cidades, com exibição do filme, convidados especiais, brindes e ativações pensadas para fãs.
📍 Rio de Janeiro — Shopping Nova América
📍 São Paulo — Shopping Vila Olímpia (ingressos esgotados!)
📍 Brasília — ParkShopping


Izabella Delfino é Redatora e Creator do Hub Criativo Michael Jackson Culture.




