Você precisa saber: é para sempre. Um relato de fã | MJ Beats
Você precisa saber: é para sempre. Um relato de fã | mjbeats.com .br Michael Jackson 2007

Você precisa saber: é para sempre. Um relato de fã

por Kevin Rodrighero

Ouço For All Time tocar ao longe enquanto escrevo este texto e penso comigo o quanto ela ainda me fascina. Para quem não se recorda, For All Time foi a última música “nova” lançada por Michael Jackson em vida. Digo nova entre aspas porque, em verdade, tratava-se de uma gravação antiga, já conhecida, que calhou de encaixar em um relançamento do álbum Thriller.

Lembro-me vivamente da sensação de ouvi-la em CD naquele ano, a sensação de uma primeira vez, embora eu soubesse até a sua letra de cor. Havia ali um misto de nostalgia com a emoção do novo. Era como se o passado distante (quando foi gravada) de algum modo pudesse coexistir com o presente (2008), provando que a obra de Michael se atualizava por si só. Algo muito bonito e que, hoje assim interpreto, apenas poderia ser sentido plenamente por um fã.

Foi essa mesma sensação que Michael, a cinebiografia do Rei do Pop, conseguiu reproduzir em mim. Não há fatos novos, não há músicas novas, não há nada de realmente inédito na narrativa. Todos sabemos sobre a origem da família em Gary, os abusos de Joe Jackson, os bastidores dos álbuns e dos clipes, sejam eles em parceria com os irmãos, sejam em carreira solo. Sabemos da solidão e dos dramas que atormentaram a vida do nosso ídolo. Ainda assim, ver tudo isso recriado em vídeo, e com tal grau de precisão e cuidado, gera um certo ineditismo, uma nova perspectiva até ao mais banal dos detalhes da vida de Michael Jackson. Talvez por isso o filme seja tão emocionante.

Saiba de antemão que, ao longo das pouco mais de duas horas do longa, é impossível fugir das lágrimas – ora de tristeza, ora de felicidade. Mas são estas últimas que prevalecem. E elas trazem consigo sorrisos, pés inquietos querendo dançar, estalar de dedos e sussurros em coro a cada apresentação que surge na tela. Revivem sentimentos antigos e criam uns tantos novos até diante de fatos que remontam a quase seis décadas.

Em alguns momentos, Michael transcende a experiência que se espera de um filme e mais parece um show do próprio astro – coisa a que muitos, e nisso me incluo, nunca tiveram e nem terão a oportunidade de assistir. Essas cenas, e cito aqui Human Nature e Bad como minhas favoritas, levam o mais resistente espectador ao delírio e são parte do motivo pelo qual a experiência de assisti-lo no cinema é mais que recomendada.

Preciso ressaltar que a obra, obviamente, não é feita apenas de música. Michael não se exime de contar a história sem filtros, inclusive os seus pontos baixos, e nisso também merece crédito. Afinal, é preciso conhecer o homem por completo para que se possa compreendê-lo. Temas como vitiligo, problemas de autoimagem, sequelas do acidente da Pepsi, relação com a família etc., não são esquecidos e nem suavizados.

A alternância entre músicas e cenas de carga dramática trazem ritmo. E essa dinâmica quase frenética na ordem de eventos, embora possa prejudicar o aprofundamento de alguns assuntos, só nos fazer querer adentrar mais e mais naquela história. Ao fim dos créditos, a curiosidade pelo homem e pelo artista fica ainda maior, não se esgota, o que é uma qualidade muito rara em cinebiografias.

Outros dois pontos altos são, sem dúvida, a atuação e a caracterização dos personagens. Jaafar Jackson e Juliano Valdi não interpretam Michael Jackson, eles o incorporam. Colman Domingo, se é que é preciso dizer, está simplesmente aterrorizante como Joe Jackson. Tudo funciona muito bem e, sem que percebamos, esquecemos que eles são atores e não os próprios interpretados.

A meu ver, esse é um tributo digno de um Rei, alguém que ainda consegue movimentar milhões de pessoas mesmo após dezesseis anos da sua partida. É um registro de que seu legado segue vivo e se renova a cada geração. Nós sabemos, e aqui referencio a música do início, que ele é para sempre.