A Polêmica Antissemita de "They Don't Care About Us" | MJ Beats
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A Polêmica Antissemita de “They Don’t Care About Us”

Quando Michael Jackson entrou em estúdio para gravar o álbum HIStory: Past, Present and Future, Book I (1995), ele não buscava aprovação; buscava sobrevivência. Após suportar um escrutínio midiático desumano e acusações sem lastro, o artista canalizou sua fúria para a música. They Don’t Care About Us foi concebida como um hino de guerra contra o sistema, a brutalidade policial e o preconceito estrutural. A batida marcial, que mais tarde ganharia o sangue e o suor do Olodum nas ruas do Brasil, exigia uma letra visceral.

Para ilustrar a feiura do ódio, Michael tentou encarnar simultaneamente a vítima e o agressor. Mas a intenção esbarrou em um campo minado: a etimologia.

Ao cantar “Jew me, sue me, everybody do me / Kick me, kike me, don’t you black or white me”, ele utilizou dois dos termos mais radioativos do idioma inglês. O primeiro erro foi transformar a palavra “Jew” (judeu) em um verbo de ação colado à palavra “processar” (sue). Na gíria pejorativa, isso significa extorquir ou fraudar alguém, ressuscitando os piores tropos medievais europeus que associavam o povo judeu à usura e à ganância financeira.

O segundo termo foi o epíteto “kike”. Diferente de “Jew”, que é um substantivo deturpado, “kike” é um insulto racial direto. Sua origem remonta à Ilha de Ellis, no início do século XX, quando imigrantes judeus europeus, fugindo de perseguições e não compreendendo o inglês dos formulários americanos, recusavam-se a assinar com um “X” (símbolo associado à opressão cristã). Eles assinavam com um círculo – “kikel”, em iídiche. Os fiscais de imigração passaram a chamá-los pejorativamente de “kikes”. O termo carrega gerações de trauma e xenofobia.

A comunidade judaica global reagiu imediatamente. Para eles, as palavras não denunciavam o preconceito; elas o perpetuavam. Encurralado, Michael concedeu uma entrevista ao programa Prime Time Live e tentou provar que não abrigava ódio citando seus amigos mais próximos na elite de Hollywood: os magnatas Steven Spielberg, David Geffen e Jeffrey Katzenberg.

A resposta dos fundadores da recém-criada DreamWorks foi um distanciamento clínico e implacável. Spielberg, que anos antes o havia convidado para narrar E.T., emitiu uma nota fria informando que não endossava as letras de HIStory. As pesadas portas da indústria cinematográfica bateram na cara de Michael.

Ao perceber a dimensão real da dor que havia causado, Michael não ficou apenas nas notas de desculpas. Ele agiu financeiramente. Assumiu os custos milionários para interromper a prensagem do álbum e voltou ao estúdio. Nas edições subsequentes, os termos ofensivos foram afogados por efeitos sonoros agressivos de distorção e substituídos vocalmente pelas frases insípidas “do me” e “strike me”. Foi uma operação de controle de danos inédita na história da música pop, provando sua disposição em corrigir o erro na raiz da obra.

No entanto, a ironia mais amarga dessa história só ficaria evidente em junho de 2009.

Após a morte de Michael Jackson, a mesma elite da indústria que o havia exilado em 1995 apressou-se em emitir notas de pesar. Magnatas e executivos que viraram as costas quando ele se tornou um passivo de relações públicas de repente voltaram a chamá-lo de “gênio inigualável”. O silêncio estrondoso da cúpula de Hollywood sobre o próprio abandono – enquanto a indústria triturava a imagem do Rei do Pop por catorze anos – evidenciou o oportunismo corporativo em sua forma mais pura.

Eles não hesitaram em abraçar o mito e capitalizar sobre seu legado assim que o homem vulnerável, imprevisível e humano deixou de respirar. O episódio de They Don’t Care About Us prova que as palavras têm peso, mas também prova que, em Hollywood, a lealdade tem prazo de validade – e a conveniência póstuma é o negócio mais lucrativo de todos.