O cineasta e especialista em efeitos visuais Colin Chilvers teve uma missão que poucos profissionais de Hollywood poderiam imaginar: transformar uma ideia de Michael Jackson em uma experiência cinematográfica que misturava música, dança, efeitos especiais e fantasia.
O resultado foi “Smooth Criminal”, um dos momentos mais marcantes de Moonwalker, lançado em 1988.
O título do livro de memórias de Chilvers, The Faith That Man Can Fly (em português, A Fé Que O Homem Pode Voar), faz referência ao filme Superman, de 1978, pelo qual recebeu um Oscar de efeitos visuais. Como observou um entrevistador, seu trabalho em diversos comerciais de brinquedos também ajudou a transformar Chilvers em um dos grandes nomes dos efeitos especiais de sua geração.
Quando um videoclipe virou uma aventura de 40 minutos
Chilvers descreveu o projeto como “um ambiente carregado de criatividade onde a imaginação de Michael vagava”. O que inicialmente seria apenas um videoclipe acabou se transformando em uma apresentação de música e dança repleta de efeitos especiais e elementos cinematográficos.
Diferentes profissionais ficaram responsáveis por partes específicas da produção, mas havia uma regra clara: Michael Jackson dava a palavra final. Se queria mudar uma cena, acrescentar um elemento ou alterar determinado momento, ele fazia isso, mesmo que fosse necessário comunicar a decisão por meio de seu empresário, Frank Dileo.

Michael era apaixonado por cinema e admirava especialmente De Volta para o Futuro. A ideia do DeLorean capaz de viajar no tempo despertava seu interesse. Para seu novo projeto, ele queria ir ainda mais longe: imaginava seu personagem se transformando em um carro, um robô e uma nave espacial.
Nas palavras de Chilvers, era como “uma aventura em quadrinhos ganhando vida”.
Foi Kevin Pike, responsável pelos efeitos especiais de De Volta para o Futuro, quem recomendou que Michael procurasse Chilvers para realizar o projeto. O Rei do Pop já havia tentado trabalhar com alguns diretores de cinema que admirava, mas eles estavam envolvidos em outros trabalhos.
Naquela época, segundo Chilvers, muitos dos principais diretores de Hollywood já estavam contratados com até dois anos de antecedência.
O método de Michael Jackson nas filmagens
Um dos aspectos mais curiosos do relato de Chilvers é sua descrição da maneira como Michael trabalhava durante as filmagens.
O método lembrava o processo utilizado por Charlie Chaplin, um dos grandes ídolos cinematográficos de Michael. Chaplin costumava filmar uma cena, assistir ao material, fazer anotações e então voltar a filmar até alcançar o resultado desejado.
Michael seguia uma lógica semelhante.
“Michael sempre mudava de ideia e pedia coisas que não estavam nos planos originais”, recorda Chilvers. Depois de assistir às filmagens, novas possibilidades eram discutidas e a equipe encontrava maneiras de melhorar determinadas cenas.
Esse processo era bastante diferente do modelo tradicional de Hollywood, normalmente marcado por cronogramas rígidos e controle de orçamento. No caso de Smooth Criminal, porém, Chilvers compreendeu que essa forma de trabalho fazia parte do projeto. Michael estava financiando a produção e tinha liberdade para decidir os rumos das filmagens.

Os primeiros encontros entre o diretor e o astro aconteceram na residência da família Jackson, em Encino. Chilvers também conta como Michael se comportava diante de pessoas que ainda não conhecia bem.
Embora fosse um artista extremamente dinâmico no palco, fora dele Michael era tímido, cauteloso e procurava evitar conflitos. Com o passar do tempo, porém, Chilvers percebeu que, depois de estabelecer confiança, o cantor se tornava muito mais aberto e relaxado.
O resultado dessa parceria chegou ao público no final de 1988. Moonwalker, incluindo a sequência de “Smooth Criminal”, foi lançado nos cinemas da Europa e da América do Sul enquanto Michael ainda estava em plena Bad World Tour.
Na América do Norte, entretanto, o caminho foi diferente: o filme foi lançado diretamente em vídeo.
Chilvers admite que ficou “desapontado, para dizer o mínimo”. Na visão do diretor, uma mudança dos cinemas para o mercado de vídeo doméstico normalmente indicava que determinada produção não tinha qualidade suficiente para justificar uma exibição na tela grande.
Para ele, porém, esse definitivamente não era o caso de Moonwalker ou de “Smooth Criminal”.
Até hoje, Chilvers afirma não saber exatamente por que o lançamento norte-americano seguiu esse caminho.
Apesar disso, trabalhar ao lado de Michael Jackson acabou tendo um impacto importante em sua trajetória profissional. A experiência abriu novas oportunidades, permitindo que continuasse trabalhando em filmes para televisão e produzisse episódios de diferentes séries.
Depois da conclusão de Smooth Criminal, porém, o diretor nunca mais voltou a ter contato com Michael Jackson.
“Essa é a realidade de trabalhar com o Rei do Pop”, resumiu Chilvers.

Décadas depois, “Smooth Criminal” permanece como um dos exemplos mais marcantes da forma como Michael Jackson unia música, dança e cinema. O que começou como um videoclipe acabou se tornando uma sequência de aproximadamente 40 minutos, com efeitos especiais, transformações e uma narrativa própria.
Colin Chilvers ajudou a transformar essa ideia em imagens, deixando sua marca em uma das produções mais lembradas da carreira de Michael Jackson.




