MICHAEL: a missão de recriar os figurinos que marcaram a história de Michael Jackson | MJ Beats
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MICHAEL: a missão de recriar os figurinos que marcaram a história de Michael Jackson

Esta reportagem foi originalmente publicada pelo Gold Derby, em entrevista conduzida pelo jornalista Marcus Errico com a figurinista Marci Rodgers.

Reproduzir no cinema o visual de Michael Jackson exigia muito mais do que encontrar roupas parecidas. Cada peça usada pelo Rei do Pop carregava uma história, uma identidade e detalhes que ajudaram a construir sua imagem ao longo de décadas. Para o filme MICHAEL, essa responsabilidade ficou nas mãos da figurinista Marci Rodgers, que mergulhou em uma extensa pesquisa para recriar alguns dos figurinos mais conhecidos da história da música.

Em entrevista ao Gold Derby, Rodgers revelou os bastidores desse trabalho, desde as primeiras pesquisas até a reprodução de peças emblemáticas, como a jaqueta vermelha de Thriller, a luva brilhante e o figurino usado na apresentação histórica de Motown 25.

A profissional, que também trabalhou em produções como BlacKkKlansman e Wu-Tang: An American Saga, contou que soube do projeto durante a greve dos roteiristas de Hollywood, em 2023. Na época, decidiu procurar o produtor Graham King e o diretor Antoine Fuqua para demonstrar seu interesse em participar da produção.

Ela sabia que não seria uma tarefa simples. Afinal, estava diante de um dos artistas mais fotografados e reconhecidos do mundo, cuja aparência foi cuidadosamente registrada ao longo de diferentes fases da carreira.

Antes mesmo de começar a desenhar, Rodgers decidiu conhecer de perto alguns lugares importantes para a história da família Jackson. Acompanhada pelo pai, que cresceu em Gary, Indiana, nas proximidades da antiga residência da família, ela visitou a cidade e passou por um pequeno museu dedicado aos Jacksons no Hard Rock Hotel and Casino.

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Marci com o pequeno Julianono set de MICHAEL

Foi nesse local que encontrou o colete usado por Jackie Jackson no videoclipe de ABC, uma das peças que precisaria reproduzir para o filme.

A figurinista descreveu a experiência como uma coincidência especial. Ao recordar aquele momento, afirmou que sentia que Michael começava, de alguma maneira, a guiá-la durante o processo.

Uma pesquisa de mais de 800 páginas para recuperar cada detalhe

O trabalho de Rodgers foi muito além de consultar fotografias disponíveis na internet. Seu material de pesquisa ultrapassou 800 páginas, reunindo referências de diferentes épocas, revistas antigas, vídeos, imagens e registros pessoais.

Uma das fontes mais importantes surgiu dentro da própria família. A irmã de Marci, que era uma grande admiradora de Michael Jackson, havia falecido alguns meses antes. Durante a infância, a mãe das duas costumava comprar os CDs do cantor, cujos encartes traziam fotografias e informações visuais sobre seus figurinos.

Rodgers entrou em contato com a mãe para perguntar se os antigos encartes ainda estavam guardados. A resposta foi positiva, e o material foi enviado para ajudar na pesquisa.

A figurinista também visitou o Museu do Grammy, onde encontrou uma réplica da famosa jaqueta de Thriller. Mesmo sem poder tocar na peça, protegida por uma vitrine, ela utilizou uma fita métrica para observar e registrar suas proporções, o comprimento, o zíper e outros elementos da construção.

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Os figurinos de MICHAEL por Marci Rodgers

Outra descoberta importante veio de profissionais que conheciam a história por trás das roupas originais. O fornecedor responsável por alguns dos chapéus usados por Jaafar Jackson havia sido aprendiz do homem que confeccionava os chapéus de Michael. Por isso, conhecia até mesmo o molde utilizado na época.

Rodgers também recebeu informações de uma loja de tecidos em Los Angeles, onde o proprietário revelou que Bill Whitten, um dos figurinistas de Michael Jackson, costumava comprar materiais. O estabelecimento ainda possuía tecidos daquela época ou opções semelhantes, o que ajudou na reprodução das peças.

Do Jackson 5 à consagração mundial

Cada período da carreira de Michael exigiu uma abordagem diferente. Para a fase do Jackson 5, Rodgers destacou dois figurinos que considerava indispensáveis: o visual usado em ABC e a roupa de estampa floral associada a uma conhecida fotografia do jovem Michael em uma feira.

Como o tecido original da camisa floral já não estava disponível, foi necessário produzir uma estampa especialmente para o filme, respeitando as características visuais da época.

Na fase de Off the Wall, a figurinista observou uma mudança importante. Depois dos figurinos coloridos e estampados do Jackson 5, Michael passou a apresentar uma imagem mais elegante e sofisticada, marcada pelo smoking, pela gravata-borboleta e pelas calças com barras mais curtas.

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Esboços do figurino de MICHAEL/Off the Wall

Esse detalhe também abriu espaço para outro elemento que se tornaria bastante conhecido: as meias brilhantes, que ganhavam destaque durante as apresentações. Segundo Rodgers, havia até uma brincadeira de que, quanto maior fosse o público, mais meias o artista precisava mostrar.

Nos anos 1980, a transformação visual de Michael ganhou proporções ainda maiores. A apresentação de Motown 25, os videoclipes de Thriller e Beat It, além da cerimônia do Grammy, reuniram alguns dos figurinos mais reconhecidos de sua trajetória.

Os segredos por trás da luva, da jaqueta de Thriller e dos figurinos históricos

Um dos maiores desafios foi reproduzir o figurino usado por Michael na apresentação de Motown 25, em 1983, quando realizou pela primeira vez na televisão o passo que ficaria conhecido mundialmente como moonwalk.

Rodgers explicou que a jaqueta preta com lantejoulas usada naquela ocasião pertencia à mãe de Michael, Katherine Jackson. Jaafar Jackson colaborou com o processo ao disponibilizar uma réplica da peça. A família também possuía uma versão rosa.

O desenho das lantejoulas originais já não existe no mercado atual. Por isso, a equipe precisou encontrar materiais que chegassem o mais próximo possível do modelo usado por Michael, observando o tamanho das peças, a construção da roupa e os tecidos disponíveis.

A pesquisa também revelou conexões entre diferentes fases da carreira. A camisa com detalhes metálicos usada em Motown 25, por exemplo, apresentava elementos que remetiam ao visual do comercial da Pepsi e a peças utilizadas durante a era Off the Wall.

Para reproduzir a jaqueta vermelha de Thriller, Rodgers conversou com Deborah Landis, figurinista responsável, ao lado de sua equipe, pelos figurinos originais do videoclipe. Durante a conversa, descobriu um detalhe que não estava registrado nos materiais consultados: a calça de Michael precisou ser tingida porque a Levi’s não fabricava modelos vermelhos naquela época.

A informação fez diferença no trabalho. A equipe testou diferentes versões de tecido tingido até encontrar uma tonalidade que correspondesse à escolhida para o filme.

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Marci e Jaafar no set de Thriller/MICHAEL

Rodgers também se preocupou com os figurinos dos zumbis. Para ela, não bastava reproduzir corretamente a aparência de Michael. Os personagens que aparecem ao seu redor também precisavam respeitar os detalhes do videoclipe original, incluindo a roupa rosa da zumbi e as pérolas usadas pela personagem.

Outro figurino que exigiu atenção foi a jaqueta de Beat It. A figurinista observou o peso das correntes metálicas sobre os ombros, o zíper e a largura dos punhos. Sua intenção era evitar que as roupas parecessem fantasias e fazer com que Jaafar transmitisse a sensação de estar realmente incorporando Michael.

A roupa usada na cerimônia do Grammy também escondia uma particularidade. À primeira vista, parecia ser feita de lantejoulas, mas, na verdade, era composta por pequenas contas aplicadas manualmente à camisa. Para observar a peça com mais precisão, Rodgers pediu a uma antiga assistente que fosse ao Rock and Roll Hall of Fame, em Cleveland, e fotografasse o figurino pessoalmente.

Um momento que emocionou quem viveu aquela história

Entre todas as experiências durante as filmagens, Rodgers destacou a recriação da apresentação de Motown 25 como o momento em que percebeu que o trabalho estava realmente tomando forma.

Enquanto preparava o elenco para a gravação, recebeu uma mensagem de Barbara Ling, responsável pelo design de produção do filme, dizendo: “Brava, a camisa está dançando no palco”.

Ao chegar ao cenário, Rodgers viu Jaafar usando a jaqueta de lantejoulas de Katherine e a camisa com detalhes brilhantes. Naquele instante, percebeu que a equipe estava conseguindo recuperar a atmosfera daquela apresentação histórica.

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Jaafar Jackson recria a apresentação do ‘Motown 25’

Mas houve outro momento que tornou a experiência ainda mais especial. Nas proximidades estava Suzanne de Passe, profissional que trabalhou com Berry Gordy durante aquela época. Ao observar a cena, ela ficou emocionada e disse a Rodgers que se sentia novamente naquele momento do passado.

Para a figurinista, ouvir aquilo foi uma das maiores recompensas de todo o trabalho.

A preocupação em respeitar a memória de quem realmente viveu aqueles acontecimentos esteve presente durante toda a produção. Durante a recriação da Victory Tour, Marlon Jackson visitou o cenário e, ao observar seu próprio figurino, reconheceu a roupa que havia usado na época.

Rodgers explicou que esse tipo de reação era especialmente importante para ela. Michael deixou familiares, amigos e profissionais que acompanharam sua trajetória, e todos poderiam reconhecer quando algum detalhe não estivesse correto. Por isso, sua principal preocupação era fazer justiça à memória dessas pessoas e aos acontecimentos retratados.

Ao falar sobre a possibilidade de uma continuação do filme, Marci Rodgers demonstrou entusiasmo com a oportunidade de trabalhar em novas fases da carreira do artista. Ela afirmou que espera manter o mesmo compromisso com a precisão histórica e com a emoção de trazer esses momentos de volta ao público.

Para a figurinista, participar de MICHAEL foi uma experiência de valor inestimável. Afinal, recriar aquelas roupas significou muito mais do que reproduzir tecidos, cores e acessórios: foi ajudar a recuperar visualmente capítulos de uma trajetória que continua presente na memória de milhões de pessoas.