O Discurso na Universidade de Oxford | MJ Beats
Michael Jackson chega para palestrar em Oxford, 2001.

O Discurso na Universidade de Oxford

Em 06 de março de 2001, na Oxford Union, Michael Jackson subiu ao púlpito não para cantar, mas para propor um ajuste moral: recuperar a infância roubada e reconciliar pais e filhos. No discurso que acompanhava a iniciativa Heal the Kids, ele alterna autobiografia e manifesto — da “Carta Universal dos Direitos das Crianças” ao perdão ao próprio pai — e oferece um raro autorretrato público. A seguir, a tradução integral, fiel ao texto original.


Obrigado, obrigado, queridos amigos, do fundo do meu coração, por uma recepção tão carinhosa e vibrante, e obrigado, senhor Presidente, pelo amável convite que tenho a honra de aceitar. Também quero expressar um agradecimento especial a você, Shmuley, que durante onze anos serviu como rabino aqui em Oxford. Você e eu temos trabalhado arduamente para formar a Heal the Kids, além de escrever nosso livro sobre qualidades infantis e, em todos esses esforços, você tem sido um amigo tão amoroso e presente. Gostaria ainda de agradecer a Toba Friedman, nossa diretora de operações na Heal the Kids, que hoje retorna à sua alma mater, onde foi bolsista Marshall, assim como a Marilyn Piels, outro membro central da nossa equipe.

Sinto-me humilde por palestrar em um lugar que já recebeu figuras notáveis como Madre Teresa, Albert Einstein, Ronald Reagan, Robert Kennedy e Malcolm X. Ouvi até que o Kermit, o Sapo, já apareceu por aqui — e sempre me identifiquei com a mensagem dele de que “não é fácil ser verde”. Tenho certeza de que, para ele, estar aqui em cima não foi mais fácil do que é para mim!

Enquanto caminhava por Oxford hoje, não pude deixar de notar a majestade e a grandeza desta grande instituição — sem falar no brilho das mentes talentosas que percorreram estas ruas por séculos. Os muros de Oxford abrigaram não apenas os maiores gênios filosóficos e científicos: também viram nascer alguns dos mais queridos criadores da literatura infantil, de J.R.R. Tolkien a C.S. Lewis. Hoje pude mancar até o refeitório de Christ Church e ver Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, imortalizada em vitrais. E até um conterrâneo meu, o querido Dr. Seuss, estudou por aqui antes de marcar a imaginação de milhões de crianças no mundo todo.

Suponho que eu deva começar listando minhas qualificações para falar a vocês esta noite. Amigos, não alego ter a bagagem acadêmica de outros oradores que já estiveram neste salão — assim como eles pouco poderiam alegar competência para fazer o moonwalk. E, sabem, o Einstein, em particular, era REALMENTE péssimo nisso.

Mas posso afirmar que vivi mais lugares e culturas do que a maioria das pessoas verá na vida. O conhecimento humano não se resume a bibliotecas de pergaminho e tinta: ele também é feito de volumes escritos no coração humano, talhados na alma humana e gravados na nossa psique. E, amigos, encontrei tanta coisa nessa vida relativamente curta que ainda me surpreende ter apenas 42 anos. Costumo dizer ao Shmuley que, em “anos de alma”, tenho pelo menos 80 — e hoje à noite estou até andando como se tivesse 80! Por isso, peço que ouçam minha mensagem, porque o que tenho a lhes dizer pode trazer cura para a humanidade e para o nosso planeta.

Pela graça de Deus, tive a fortuna de realizar cedo muitos dos meus anseios artísticos e profissionais. Mas isso, amigos, são conquistas — e conquistas, sozinhas, não definem quem eu sou. De fato, aquele garoto alegre de cinco anos que cantava “Rockin’ Robin” e “Ben” para plateias adoráveis não refletia o menino por trás do sorriso.

Hoje, me apresento menos como um ícone do pop (seja lá o que isso signifique) e mais como um ícone de uma geração — uma geração que já não sabe o que é ser criança.

Todos nós somos produtos da nossa infância. Eu sou o produto da falta de infância — da ausência daquela fase preciosa e maravilhosa em que brincamos sem preocupações, cercados pelo carinho de pais e parentes, e nossa maior preocupação é estudar para o ditado de segunda-feira.

Quem conhece os Jackson 5 sabe que comecei a me apresentar aos cinco anos de idade e que, desde então, nunca parei de dançar e cantar. Embora performar e fazer música continuem entre minhas maiores alegrias, quando eu era pequeno queria, mais do que tudo, ser um menino típico. Queria construir casas na árvore, fazer guerras de balão d’água, brincar de esconde-esconde com os amigos. Mas o destino quis diferente, e tudo que eu podia fazer era invejar as risadas e o tempo de brincadeira que aconteciam à minha volta.

Não havia trégua na vida profissional. Mas, aos domingos, eu saía “pioneirando” — o termo que as Testemunhas de Jeová usam para o trabalho missionário. Nesses dias, eu podia contemplar a magia da infância dos outros.

Como eu já era uma celebridade, precisava usar disfarce: enchimento para parecer gordo, peruca, barba, óculos. E passávamos o dia nos subúrbios do sul da Califórnia, de porta em porta ou pelos shoppings, distribuindo a revista A Sentinela. Eu adorava entrar naquelas casas comuns e ver os tapetes fofos, as poltronas reclináveis, as crianças jogando Banco Imobiliário e as avós cuidando dos netos — todas aquelas cenas comuns e estreladas da vida cotidiana. Para muitos, isso pode não parecer grande coisa. Para mim, era hipnotizante.

Eu achava que era único no sentimento de não ter tido infância. Acreditava que poucas pessoas poderiam entender isso. Quando me encontrei recentemente com Shirley Temple Black, a grande estrela mirim dos anos 1930 e 40, não dissemos nada a princípio — apenas choramos juntos —, porque ela compartilhava uma dor que só outros, como minhas amigas Elizabeth Taylor e Macaulay Culkin, conhecem.

Não digo isso para ganhar sua simpatia, mas para enfatizar meu primeiro ponto importante: não são apenas as estrelas mirins de Hollywood que sofreram com a inexistência de infância. Hoje, isso é uma calamidade universal — uma catástrofe global. A infância se tornou a grande vítima da vida moderna. Estamos produzindo, por toda parte, legiões de crianças que não tiveram a alegria, a garantia, o direito de saber o que é ser criança.

Hoje as crianças são constantemente estimuladas a crescer mais rápido, como se a fase chamada infância fosse um fardo a ser suportado e despachado o mais depressa possível. Quanto a isso, posso dizer que sou um dos maiores especialistas do mundo.

Somos uma geração que testemunhou a ruptura do pacto entre pais e filhos. Psicólogos publicam bibliotecas inteiras sobre os efeitos destrutivos de negar aos filhos o amor incondicional, tão necessário ao desenvolvimento saudável da mente e do caráter. E, por causa dessa negligência, muitos de nossos filhos, na prática, precisam se criar sozinhos. Estão cada vez mais distantes dos pais, avós e outros familiares, enquanto o laço indestrutível que unia as gerações vai se desfazendo.

Dessa violação nasceu uma nova geração — vamos chamá-la de Geração O —, que agora herdou a tocha da Geração X. O “O” representa uma geração que tem tudo por fora — riqueza, sucesso, roupas e carros vistosos —, mas um vazio doendo por dentro. Essa cavidade no peito, essa aridez no centro, esse vácuo no âmago é o lugar onde antes pulsava o coração e onde o amor morava.

E não são só as crianças que sofrem. Os pais também. Quanto mais cultivamos “mini-adultos” em corpos de criança, mais nos afastamos das nossas próprias qualidades infantis — e há tanto, no ser criança, que vale a pena preservar na vida adulta.

O amor, senhoras e senhores, é o legado mais precioso da família humana — seu mais rico bem, sua herança de ouro. E é um tesouro transmitido de geração em geração. Eras passadas talvez não tivessem a riqueza de hoje. Suas casas podiam não ter eletricidade e amontoavam muitos filhos em lares pequenos, sem aquecimento central. Mas não eram lares escuros nem frios: eram iluminados pelo brilho do amor e aquecidos pelo calor do coração humano. Pais, sem se distrair pela busca de luxo e status, colocavam seus filhos no centro da vida.

Como vocês sabem, nossos dois países se separaram pelo que Thomas Jefferson chamou de “certos direitos inalienáveis”. E, embora americanos e britânicos possam discutir a justiça dessa afirmação, nunca se discutiu que as crianças têm direitos inalienáveis — e a erosão gradual desses direitos levou a que muitas fossem privadas das alegrias e da segurança da infância.

Gostaria, portanto, de propor esta noite que instalemos em cada casa uma Carta Universal dos Direitos das Crianças, cujos princípios são:

  1. O direito de ser amado sem precisar merecer.
  2. O direito de ser protegido sem precisar justificar.
  3. O direito de sentir-se valioso, mesmo que você tenha chegado ao mundo sem nada.
  4. O direito de ser ouvido sem ter que ser interessante.
  5. O direito de ouvir uma história de ninar sem ter que competir com o telejornal.
  6. O direito à educação sem ter que desviar de balas na escola.
  7. O direito de ser considerado adorável — (mesmo que você tenha um rosto que só uma mãe poderia amar).

Amigos, o alicerce de todo conhecimento humano, o início da consciência humana, precisa ser a certeza de que cada um de nós é objeto de amor. Antes de saber se você tem cabelo ruivo ou castanho, antes de saber se é negro ou branco, antes de saber a que religião pertence, você precisa saber que é amado.

Cerca de doze anos atrás, quando eu estava prestes a começar a turnê Bad, um garotinho veio com os pais me visitar na minha casa, na Califórnia. Ele estava morrendo de câncer e me disse o quanto amava minha música e a mim. Seus pais me contaram que ele não viveria — que poderia partir a qualquer momento — e eu disse a ele: “Olha, vou abrir a turnê na sua cidade, no Kansas, daqui a três meses. Quero que você vá ao show. Vou te dar esta jaqueta que usei num dos meus clipes.” Os olhos dele brilharam: “Você vai me DAR?” Eu disse: “Sim, mas prometa que vai usá-la no show.” Eu queria que ele se agarrasse à vida. Eu disse: “Quando você for ao show, quero ver você com esta jaqueta e com esta luva”, e lhe dei uma de minhas luvas de strass — e eu quase nunca dou as luvas de strass. Ele ficou no céu.

Mas talvez estivesse perto demais do céu, porque, quando cheguei à cidade dele, ele já havia morrido — e o enterraram com a luva e a jaqueta. Tinha apenas dez anos. Deus sabe, eu sei, que ele tentou com todas as forças resistir. Mas, ao menos, quando partiu, sabia que era amado — não só pelos pais, mas também por mim, um quase desconhecido. Eu também o amava. E, com todo esse amor, ele soube que não entrou sozinho neste mundo — e certamente não o deixou sozinho.

Se você entra neste mundo sabendo que é amado e sai dele sabendo o mesmo, então tudo que acontece entre uma coisa e outra pode ser enfrentado. Um professor pode tentar degradá-lo, mas você não se sentirá degradado; um chefe pode esmagá-lo, mas você não será esmagado; um gladiador corporativo pode derrotá-lo, mas você ainda triunfará. Como alguém poderia prevalecer em puxá-lo para baixo, se você sabe que é digno de amor? O resto é embalagem.

Mas, se você não tem a lembrança de ter sido amado, fica condenado a vasculhar o mundo por algo que o preencha. E, não importa quanto dinheiro ganhe ou quão famoso se torne, o vazio permanece. O que você realmente busca é amor incondicional — aceitação sem qualificações. E foi justamente isso que lhe negaram ao nascer.

Amigos, deixem eu pintar um quadro. Num dia típico nos Estados Unidos, seis jovens com menos de 20 anos cometem suicídio; doze crianças com menos de 20 morrem por armas de fogo — lembrem-se: isso é em um DIA, não em um ano; 399 crianças são detidas por uso de drogas; 1.352 bebês nascem de mães adolescentes. Isso acontece em um dos países mais ricos e desenvolvidos da história.

Sim, no meu país há uma epidemia de violência sem paralelo entre as nações industrializadas. É assim que muitos jovens nos Estados Unidos expressam sua dor e sua raiva. Mas não pensem que seus pares no Reino Unido não sintam a mesma dor e angústia. Estudos aqui mostram que, a cada hora, três adolescentes no Reino Unido se ferem deliberadamente — muitas vezes cortando ou queimando o corpo, ou tomando uma overdose. É assim que escolheram lidar com a dor da negligência e a agonia emocional.

Na Grã-Bretanha, até 20% das famílias só se sentam para jantar juntas uma vez por ano. Uma vez por ano! E quanto à tradição de ler uma história para dormir? Pesquisas dos anos 1980 mostraram que crianças que ouviam histórias tinham muito mais letramento e desempenho significativamente melhor na escola. Ainda assim, menos de 33% das crianças britânicas de 2 a 8 anos escutam regularmente uma história de ninar. Talvez isso não pareça tão grave — até lembrarmos que 75% dos pais delas ouviram histórias nessa idade.

Não é preciso perguntar de onde vêm tanta dor, raiva e violência. É evidente: as crianças estão trovejando contra a negligência, tremendo contra a indiferença e gritando apenas para serem notadas. As diversas agências de proteção à infância nos EUA estimam que milhões de crianças são vítimas de maus-tratos na forma de negligência a cada ano. Sim, negligência. Em casas ricas, privilegiadas, cheias de eletrônicos. Lares em que os pais chegam, mas não estão realmente presentes, porque suas cabeças continuam no escritório. E os filhos? Bem, se viram com as migalhas emocionais que recebem. E você não tira muito de uma dieta interminável de TV, videogames e vídeos.

Esses números duros e frios — que, para mim, arrebentam a alma e sacodem o espírito — devem indicar por que dedico tanto do meu tempo e recursos para fazer da nossa nova iniciativa Heal the Kids um sucesso colossal.

Nossa meta é simples: recriar o vínculo entre pais e filhos, renovar sua promessa e iluminar o caminho de todas as crianças lindas que um dia caminharão por esta Terra.

Mas, como esta é minha primeira palestra pública, e vocês me acolheram tão calorosamente no coração, quero lhes contar mais. Cada um de nós tem sua história — e, nesse sentido, as estatísticas podem se tornar pessoais.

Dizem que educar filhos é como dançar: você dá um passo, seu filho dá outro. Descobri que levar os pais a se rededicarem aos filhos é apenas metade da história. A outra metade é preparar as crianças para reaceitar seus pais.

Quando eu era bem pequeno, tínhamos uma cadela vira-lata chamada “Black Girl”, mistura de lobo com retriever. Além de não ser uma boa guarda, era tão assustada e nervosa que me surpreende não desmaiar toda vez que um caminhão passava ou uma tempestade varria Indiana. Minha irmã Janet e eu demos tanto amor àquela cadela, mas nunca recuperamos a confiança que o antigo dono lhe roubara. Sabíamos que ele a espancava. Não sabíamos com o quê. Mas fosse o que fosse, foi suficiente para sugar o espírito daquele animal.

Muitas crianças hoje são como filhotes feridos que se desmamaram da necessidade de amor. Não dão a mínima para os pais. Soltas por conta própria, prezam a independência. Seguiram em frente e deixaram os pais para trás.

E há casos piores: crianças que guardam animosidade e ressentimento contra os pais — e qualquer gesto que estes façam é devolvido com força, direto no rosto.

Hoje, não quero que cometamos esse erro. Por isso, conclamo todas as crianças do mundo — a começar por nós, aqui — a perdoarmos nossos pais, se nos sentimos negligenciados. Perdoem-nos e lhes ensinem a amar de novo.

Imagino que não surpreenda ninguém ouvir que minha infância não foi idílica. A tensão na relação com meu pai é bem documentada. Ele é um homem duro e nos pressionou muito, desde cedo, a meus irmãos e a mim, para que fôssemos os melhores artistas possíveis.

Ele tinha grande dificuldade em demonstrar afeto. Nunca me disse realmente que me amava. E também não me elogiava. Se eu fazia um show excelente, ele dizia que foi bom. Se eu fazia um show ok, ele dizia que foi ruim.

Parecia focado, acima de tudo, em nos tornar um sucesso comercial. E, nisso, ele era mais do que competente. Meu pai foi um gênio da gestão, e meu sucesso profissional, e o dos meus irmãos, deve muito à força com que nos empurrou. Ele me treinou como showman e, sob sua orientação, eu não perdia um passo.

Mas o que eu realmente queria era um pai. Queria um pai que me mostrasse amor. E meu pai nunca fez isso. Nunca me disse “eu te amo” olhando nos meus olhos, nunca brincou comigo, nunca me carregou no ombro, nunca me jogou um travesseiro ou um balão d’água.

Mas lembro que, quando eu tinha uns quatro anos, fomos a um pequeno parque de diversões e ele me ergueu e me colocou num pônei. Foi um gesto minúsculo, provavelmente algo que ele esqueceu cinco minutos depois. Mas, por causa daquele momento, guardo um lugar especial para ele no meu coração. Porque é assim com crianças: as pequenas coisas significam muito — e, para mim, aquele momento significou tudo. Experimentei aquilo uma única vez, mas me fez sentir muito bem — com ele e com o mundo.

Hoje sou pai, e um dia pensei em meus filhos, Prince e Paris, e em como quero que me vejam quando crescerem. É claro que quero que lembrem que sempre quis tê-los comigo, onde quer que eu fosse, e que tentei colocá-los acima de tudo. Mas há desafios na vida deles. Como meus filhos são perseguidos por paparazzi, nem sempre podem ir ao parque ou ao cinema comigo.

E se, ao crescer, eles passarem a me ressentir — e a forma como minhas escolhas afetaram sua infância? “Por que não tivemos uma infância comum, como as outras crianças?”, podem perguntar. Nesse momento, rezo para que me deem o benefício da dúvida. Que digam a si mesmos: “Nosso pai fez o melhor que pôde, diante de circunstâncias únicas. Pode não ter sido perfeito, mas era um homem caloroso e decente, que tentou nos dar todo o amor do mundo.”

Espero que foquem nas coisas positivas — nos sacrifícios que fiz de bom grado por eles — e não critiquem o que tiveram que abrir mão, ou os erros que cometi e certamente continuarei cometendo ao criá-los. Todos nós já fomos filhos de alguém e sabemos que, apesar dos melhores planos e esforços, erros acontecem. Isso é ser humano.

E, quando penso nisso — em como espero que meus filhos não me julguem com dureza e perdoem minhas falhas —, sou levado a pensar em meu próprio pai e, apesar de negaças anteriores, sou forçado a admitir que ele deve ter me amado. Ele me amou, e eu sei disso.

Havia pequenos gestos que mostravam isso. Quando eu era criança, era louco por doce — todos nós éramos. Meu favorito era rosquinha glaceada, e meu pai sabia. A cada poucas semanas, eu descia de manhã e lá estava um saco de rosquinhas no balcão da cozinha — sem bilhete, sem explicação — apenas as rosquinhas. Era como o Papai Noel.

Às vezes eu pensava em ficar acordado até tarde para vê-lo deixar o saco ali, mas, como com o Papai Noel, eu não queria estragar a magia — com medo de que ele nunca mais fizesse. Meu pai tinha que deixar às escondidas, à noite, para que ninguém o flagrasse de guarda baixa. Ele tinha medo da emoção humana; não a entendia nem sabia lidar com ela. Mas ele entendia de rosquinhas.

E, quando abro as comportas da memória, vêm outras lembranças, de pequenos gestos — imperfeitos, mas reais — que mostram que ele fez o que pôde. Então, hoje, em vez de focar no que meu pai não fez, quero focar no que fez — e nos desafios pessoais dele. Quero parar de julgá-lo.

Passei a refletir que meu pai cresceu no Sul, numa família muito pobre. Tornou-se adulto durante a Depressão, e seu próprio pai, que mal conseguia alimentar os filhos, demonstrava pouco afeto e criou meu pai e seus irmãos com mão de ferro. Quem imagina o que é crescer, no Sul, como um homem negro e pobre — roubado da dignidade, sem esperança, lutando para se afirmar num mundo que via meu pai como subalterno? Eu fui o primeiro artista negro a tocar na MTV — e lembro o tamanho do barulho que isso ainda causava. E isso foi nos anos 80!

Meu pai se mudou para Indiana, constituiu uma família grande, trabalhou longas horas em siderúrgicas — trabalho que destrói os pulmões e humilha o espírito — para sustentar a casa. É de espantar que ele tivesse dificuldade em expor seus sentimentos? É mistério que tenha endurecido o coração, erguido muralhas emocionais? E, acima de tudo, é de espantar que tenha nos pressionado tanto para dar certo como artistas — para nos salvar da vida de indignidade e pobreza que ele conhecera?

Começo a ver que até a dureza do meu pai era uma forma de amor — imperfeita, sem dúvida, mas ainda amor. Ele me pressionou porque me amava. Porque não queria que ninguém olhasse de cima para seus filhos.

E, com o tempo, em lugar da amargura, encontrei bênção. No lugar da raiva, absolvição. No lugar da vingança, reconciliação. Minha fúria inicial, lentamente, deu lugar ao perdão.

Quase dez anos atrás, fundei uma instituição chamada Heal the World. O título era algo que eu sentia por dentro. Mal sabia eu, como o Shmuley apontou depois, que essas duas palavras estão no coração da profecia do Antigo Testamento. Eu realmente acredito que possamos curar este mundo — um mundo ainda marcado por guerras e genocídios? E acredito que possamos curar nossas crianças — as mesmas crianças que entram na escola com armas e ódio e matam colegas, como em Columbine? Ou crianças que espancam até a morte um bebê indefeso, como na trágica história de James Bulger? É claro que sim — do contrário, eu não estaria aqui.

Mas tudo começa com o perdão — porque, para curar o mundo, primeiro precisamos nos curar. E, para curar as crianças, precisamos curar a criança interior, em cada um de nós. Como adulto e como pai, percebo que não posso ser um ser humano completo, nem um pai capaz de amor incondicional, até aquietar os fantasmas da minha própria infância.

E é isso que peço a todos nós hoje à noite. Cumpramos o quinto dos Dez Mandamentos: honrar os pais — não os julgando. Dê-lhes o benefício da dúvida.

É por isso que quero perdoar meu pai e parar de julgá-lo. Quero perdoá-lo porque quero ter um pai — e este é o único que eu tenho. Quero que o peso do meu passado saia dos meus ombros, para que eu possa entrar livre em uma nova relação com meu pai, pelo resto da vida, sem os duendes do passado me atrapalhando.

Num mundo cheio de ódio, precisamos ainda ousar a esperança. Num mundo cheio de raiva, precisamos ainda ousar o consolo. Num mundo cheio de desespero, precisamos ainda ousar o sonho. E num mundo cheio de desconfiança, precisamos ainda ousar acreditar.

A todos que hoje se sentem decepcionados pelos pais, peço que depenem a decepção. A todos que se sentem lesados por pai ou mãe, peço que não se lesem mais. E a todos que desejam afastar seus pais, peço que estendam a mão a eles. Peço — a vocês e a mim — que ofereçamos aos nossos pais o presente do amor incondicional, para que eles aprendam a amar conosco, seus filhos. Para que o amor, enfim, seja restaurado a um mundo desolado e solitário.

Shmuley certa vez me mencionou uma antiga profecia bíblica que diz que chegariam um novo mundo e um novo tempo, quando “os corações dos pais seriam restaurados pelos corações dos filhos”. Meus amigos, nós somos esse mundo. Nós somos esses filhos.

Mahatma Gandhi disse: “Os fracos nunca perdoam. O perdão é atributo dos fortes.” Hoje, sejam fortes. Mais que fortes, ergam-se ao maior desafio — restaurar o pacto rompido. Superemos todos, quaisquer que sejam, os efeitos paralisantes que nossa infância possa ter tido em nossas vidas e, nas palavras de Jesse Jackson, “perdoemos uns aos outros, resgatemos uns aos outros e sigamos em frente”.

Este chamado ao perdão pode não resultar em momentos “à la Oprah” ao redor do mundo — milhares de filhos se reconciliando com os pais —, mas será um começo. E todos seremos mais felizes por isso.

E assim, senhoras e senhores, concluo minhas palavras de hoje com fé, alegria e entusiasmo.

A partir de hoje, que se ouça uma nova canção.

Que essa nova canção seja o som das crianças rindo.

Que essa nova canção seja o som das crianças brincando.

Que essa nova canção seja o som das crianças cantando.

E que essa nova canção seja o som dos pais escutando.

Juntos, vamos criar uma sinfonia de corações — maravilhados com o milagre de nossos filhos e banhados na beleza do amor.

Vamos curar o mundo e cessar sua dor.

E que todos façamos música bonita — juntos.

Deus os abençoe. Eu amo vocês.


(Michael Jackson, Discurso na Oxford Union, 06 de março de 2001.)
Usamos como base a transcrição do MJJJusticeProject; há pequenas variações entre versões. Mantivemos nomes e referências e ajustamos pontuação para o português, sem alterar o sentido.