Entrevista concedida a Andréa Luisa Bucchile Faggion por Miguel “Mike” Beats, ex-membro fundador da Equipe Edcyhis e fundador do fórum MJ Beats, e Richard Mendelsohn (Beakman), webmaster do site ReidoPop.com e organizador da campanha para trazer Michael Jackson ao Brasil;
Originalmente publicado na coluna “Amém”, Edcyhis (Maio de 2003);
Republicação adaptada pela MJ Beats.
Andréa: Michael Jackson sempre foi um astro recluso. Não apenas porque o mistério é importante para o marketing de um mito, mas, talvez principalmente, porque ao não se expor como tantas estrelas de menor grandeza, ele valoriza sua imagem. Afinal, o ouro é precioso porque é raro.
Essa postura sempre gerou respeito entre os fãs, pois ele se manteve como um artista que não vendia primeiro sua vida pessoal para depois vender discos como consequência.
Porém, hoje partimos da suposição de que os recentes especiais de TV sobre sua vida fazem parte da promoção de um novo álbum.
Esse tipo de abordagem agrada a vocês, como fãs?
Beakman: O fato de alguém ser recluso naturalmente aumenta a curiosidade das pessoas. Isso é da natureza humana — o desejo constante de novas descobertas.
Michael Jackson sempre foi um dos maiores símbolos da música pop, e sua figura pública sempre desafiou padrões, especialmente em temas como raça e gênero.
Por isso, ele sempre foi um alvo preferencial de jornalistas e biógrafos não autorizados — muitos dos quais recorreram a métodos pouco éticos.
Esses “bisbilhoteiros antiéticos” não poupam esforços para tentar revelar detalhes íntimos da vida de seus biografados.
Não sei se a promoção de um novo álbum por meio da vida íntima de Michael seja o caminho ideal.
Por um lado, ajuda; por outro, prejudica. Palavras são volúveis e podem ser distorcidas facilmente.
Como fã, vejo que as repercussões têm sido boas. Elas dão a impressão de que ainda não conhecemos Michael por completo, e cada nova descoberta só aumenta o nosso entusiasmo.
O mundo de Michael parece um verdadeiro conto de fadas — quase um personagem de fantasia.
Mike: Não se trata apenas de agradar ou não.
Vejo essa abertura como algo que já deveria ter acontecido há muito tempo.
Até então, as pessoas não sabiam ao certo quem era o verdadeiro Michael Jackson — ou se contentavam com a imagem criada por uma sociedade apoiada nos pilares da grande mídia.
Essa tendência prejudicou muito sua reputação, embora não tenha alterado em nada sua importância para a cultura pop.
Andréa: Se vocês pudessem ter produzido um desses especiais, o que teriam mostrado que não foi mostrado?
Há algo que, na opinião de vocês, deveria ter sido melhor esclarecido ao público não-fã e que não foi? Faltou algo?
Beakman: Acho que esses “especiais” foram, sim, de grande valor para o público.
Mas um tema que segue em aberto é o da acusação de abuso sexual.
Como foi um caso em segredo de justiça, jamais saberemos tudo sobre ele.
Um assunto que adoraria ver explorado seria os bastidores das sessões de gravação de Michael: como ele produz uma música, os arranjos, os backing vocals, as batidas.
Martin Bashir até tentou incluir isso, mas acabou desviando o foco para a vida pessoal, e o material acabou não sendo mostrado.
Mike: Gostei muito do “Take 2”, pois foi esclarecedor para aqueles que “pegaram o bonde andando” após o documentário sensacionalista do Bashir.
Se eu pudesse mostrar algo que ainda não apareceu, com certeza destacaria o verdadeiro alcance das contribuições financeiras de Michael para instituições de cura do câncer e outras doenças.
Ele nunca fez questão de divulgar essas ações, mas isso só reforça o quanto ele é especial.
No lado artístico, gostaria que mostrassem mais sobre o seu processo criativo no dia a dia.
Afinal, ele é um músico, não um alienígena.
Andréa: Muitos, após assistirem aos especiais, passaram a ter uma percepção mais positiva da personalidade de Michael.
O público passou a descobrir um Michael que já era conhecido dos fãs, ou vocês acham que os próprios fãs tiveram que rever seus conceitos sobre Michael Jackson?
Houve alguma novidade para vocês?
Beakman: Não há como agradar a gregos e troianos ao mesmo tempo. Mesmo que lutemos em prol de um objetivo único, sempre haverá desavenças internas.
Alguns fãs dizem que estão surpresos com certos aspectos da vida de Michael:
“Como pode um homem de 44 anos dormir com crianças?”
“Como pode um cantor usar uma mãe de aluguel?”
“Como pôde Michael Jackson balançar aquela criança?”
Oh, meu Deus! Poupe-me de tanta ignorância.
O mundo atual tende a enxergar tudo sob conotações sexuais.
Michael vê o mundo com os olhos de uma criança — e nós já fomos assim.
Ele é a prova viva de que o sonho e a inocência ainda podem existir.
As entrevistas não mostraram um monstro. Apenas uma realidade que parece “irreal” para uma sociedade que perdeu sua pureza de pensamento.
Mike: Houve, sim, novidades interessantes para os fãs.
Gostei muito, por exemplo, do trecho em que Michael critica a forma como a dança tem sido executada e estudada — ele enfatiza que o essencial é o que se sente ao dançar, não apenas a técnica.
A exposição da sua vida cotidiana também foi inédita para nós.
Claro, já sabíamos de fatos como o acidente com queimaduras no couro cabeludo durante um comercial nos anos 80.
Mas a mídia ignora isso hoje, preferindo espalhar a falsa ideia de que Michael quis mudar toda sua aparência.
Ele mesmo disse que só fez cirurgias corretivas no nariz.
Andréa: Parece consenso que os especiais não destruíram o mistério que envolve Michael Jackson.
Ainda existem muitas especulações entre os fãs sobre a vida pessoal e profissional dele — boa parte nem chega à imprensa.
Se Michael lhes oferecesse a chance de esclarecer qualquer mistério sobre sua vida, quais questões vocês levantariam?
Beakman: Um dos aspectos mais fascinantes da vida de Michael é sua relação afetiva com as crianças.
Ele consegue fazer os olhos de uma criança brilharem com magia e amor.
Falo por experiência — tenho irmãos pequenos que adoram assistir aos vídeos de Michael.
Gostaria de entender mais essa “mágica” que ele transmite.
Mike: Sobre a vida pessoal, sinceramente, não faria perguntas.
O mistério faz parte do mito.
Há muitos artistas por aí, mas poucos serão lembrados daqui a 40 anos.
Michael é fascinante porque consegue manter essa aura em tudo que faz — seja na música ou na vida.
Há aspectos que devem, sim, permanecer inexplicáveis. Fazem parte da magia.
Andréa: Supondo que estamos falando da promoção de um novo álbum: qual deveria ser o próximo passo?
Ainda manter o foco na vida pessoal — com mais programas de vídeos caseiros — ou já seria hora de relembrar o público de que Michael é um gênio da música?
Beakman: Na minha opinião, o “modo Quincy Jones de ser” sempre funcionou muito bem.
A estratégia era simples: colocar nas rádios músicas “não tão fortes”, para reacender o interesse.
Depois, lançar um novo single impactante e um clipe memorável.
Foi assim com Thriller — primeiro veio The Girl Is Mine, depois Billie Jean, que se tornou imortal.
Em Bad, a mesma lógica: primeiro I Just Can’t Stop Loving You, depois o clipe de Bad.
Está mais do que na hora de Michael deixar de ser apenas uma “curiosidade de tablóides”.
Mike: Excelente pergunta.
Acho que o show deve continuar.
Querendo ou não, o público sempre vai relacionar o artista à sua pessoa.
Divulgar esses vídeos é positivo — inclusive para fãs que adorariam tê-los.
Mas isso deve andar em paralelo com uma retomada do foco musical.
Michael deve seguir seu coração, não as demandas da mídia.
Sempre digo: Michael não se molda pelo pop.
O pop é que se molda a Michael Jackson.
Ou alguém acha que o mercado aceitaria, sem mais, canções como Little Susie ou Childhood de um artista rotulado como “pop”?
Michael sempre abriu caminhos para o futuro da música — e continuará fazendo isso.
[*] Este texto foi adaptado para refletir os valores e diretrizes atuais, com o objetivo de preservar sua relevância e respeito ao público contemporâneo.




