Entendendo Michael Jackson: é verdade que Michael Jackson queria virar branco? — PARTE 2 | MJ Beats
Entendendo Michael Jackson: é verdade que Michael Jackson queria virar branco? — PARTE 2 | mjbeats.com .br Michael Jackson na Africa 1992 scaled

Entendendo Michael Jackson: é verdade que Michael Jackson queria virar branco? — PARTE 2

As nuances da identidade étnica/cultural são difíceis de explicar. Normalmente, convencer pessoas comuns que identidade e sensação de pertencimento a uma comunidade vão além da aparência é uma tarefa quase impossível. Mas, no caso de Michael Jackson, as coisas são ainda mais complexas. Para ele, a vida estava longe de ser corriqueira — ele viveu sob os holofotes desde os dez anos de idade; a narrativa de sua vida foi escrita não por ele, mas por outros (destacadamente a mídia), o que resultou numa discrepância entre como ele se sentia e agia e o que era dito sobre ele — incluindo sua raça.

Na primeira parte de Entendendo Michael Jackson: é verdade que Michael Jackson queria virar branco? tratamos do conceito de “raça” e como, de acordo com a atual definição de negro/Afro-americano, é impossível que Michael Jackson tenha se tornado branco. Também falamos da sua doença, vitiligo, que causou uma alteração involuntária na cor da sua pele. No entanto, um debate sobre Jackson e raça não seria eficaz ou justo sem ouvirmos o que o próprio tinha a dizer sobre o tema, e sem analisar como suas ações se relacionavam com suas palavras.

No início dos anos 2000, Jackson foi entrevistado pelo comediante Steve Harvey no seu programa de rádio. Na conversa amistosa, Harvey afirmou que o cantor “realmente significava algo para as pessoas negras (…), ao que Jackson respondeu “Eu tenho orgulho das minhas raízes (…) Tenho orgulho de ser negro, me sinto honrado em ser negro (…).” Essa estava longe de ser a primeira vez que Jackson fazia uma declaração nesse sentido. Enquanto o público discutia sua raça, para ele parecia não haver dúvida: ele era negro e tinha orgulho disso. Mas o que a declaração de Jackson significa, e qual é o seu peso no debate?

Para responder essa pergunta, precisamos entender o conceito moderno de “identidade étnica/cultural”. Enquanto “raça” se apoia principalmente no julgamento externo, baseado em aparência (e alguns estereótipos culturais), a identidade étnica/cultural surge de uma percepção interna de onde você pertence e com qual grupo se identifica. Se trata menos de traços físicos e mais de características, experiências e crenças culturais compartilhadas, com a autoidentificação sendo seu critério primordial.

O critério de autoidentificação é parcialmente produto de uma luta de minorias ao redor do mundo para que possam se autodefinir, ao invés de serem definidas por terceiros. A autoidentificação está presente em convenções internacionais importantes, como a Convenção no 169 Sobre Povos Indígenas e Tribais, da Organização Internacional do Trabalho (OIT/ONU). Também é a metodologia escolhida atualmente pela maioria dos censos demográficos, que evoluíram, no decorrer dos anos, de uma abordagem fenotípica centrada em “raça” para uma visão de raça e etnicidade baseada em identidade.

Nesse contexto fica claro que o fato de que Jackson se identificava como Afro-americano não apenas é um elemento importante — ele é o centro do debate. Compreender a importância da autoidentificação na definição da identidade étnica/cultural de um indivíduo e reconhecer que esse processo não pode ser uma imposição externa, e sim um movimento pessoal que deve partir de dentro, é essencial para analisar as relações raciais na sociedade contemporânea. Impor uma “raça” a alguém não é apenas condenável, é também uma negação de um direito.

A essa altura já deve estar claro que, tanto pelo conceito ultrapassado de raça quanto pelo conceito moderno de identidade étnica/cultural, Michael Jackson nasceu e morreu um homem negro.

Para falar das “características, experiências e crenças culturais compartilhadas” de Jackson com a sua comunidade, é preciso voltar para os tempos de sua infância, em Gary, Indiana. James Brown, Jackie Wilson e Sammy Davis Jr estão entre as maiores influências de Jackson enquanto crescia. Jackson relembrava com frequência ficar “hipnotizado” ao assistir as performances de Brown na TV (os dois artistas estiveram juntos no palco dos BET Awards de 2003); seu tributo a Sammy Davis Jr na celebração do 60o aniversário de sua carreira foi icônico.

Tendo sido ele mesmo alvo de racismo, Jackson demonstrava uma compreensão profunda das relações raciais e de seu papel como modelo de comportamento desde a juventude. Seu clipe de “Billie Jean” (que foi alvo de uma disputa entre a MTV, cuja programação nos anos 1980 girava em torno de artistas brancos, e a equipe de Jackson) foi o primeiro por um artista negro a ser passado regularmente no canal, abrindo as portas para outros depois dele.

Ainda que, no início da carreira, a obra de Jackson se referisse a racismo e conflitos sociais de uma forma mais sutil, foi a partir de seu álbum “Dangerous” (1991), lançado numa época em que o cantor estava sendo amplamente criticado pelo público pela mudança na cor da sua pele, que as referências se tornaram desafiadoramente explícitas, levando o escritor Joe Vogel a dizer que “conforme sua pele se tornava mais branca, seu trabalho se tornava mais negro.”

“Black or White”, o primeiro single de “Dangerous”, traz Jackson cantando sobre igualdade racial e diversidade cultural. O clipe de “Black or White” reforça essa mensagem ao mostrar Jackson cantando e dançando entre pessoas de diferentes culturas, antes de declarar raivosamente “I ain’t scared of no sheets” (“não tenho medo de nenhum lençol”), numa alusão à organização de extrema-direita Ku Klux Klan, tendo uma cruz em chamas (símbolo do grupo) como pano de fundo. O clipe termina com a “Panther Dance”, um segmento de quatro minutos que usa o simbolismo para aludir à herança cultural negra e à injustiça social.

Do mesmo álbum, o clipe de Jackson de “Remember the Time” (1992), passado no Egito antigo, quebrou mais barreiras raciais ao ser o primeiro a caracterizar egípcios como negros. O clipe, produzido pelo diretor em ascensão John Singleton (o primeiro cineasta negro a ser indicado ao Oscar de melhor diretor, pelo seu clássico filme de 1991, “Boyz n the Hood”), tinha um elenco estelar, que incluía Eddie Murphy, Magic Johnson e a modelo Iman.

Se em “Dangerous” Jackson fez referências à sua identidade étnica/cultural e à diversidade cultural como um todo, em seu álbum “HIStory: Past, Present and Future” (1995) ele levou o debate para o campo do preconceito racial, da violência policial e da injustiça. Talvez a mais politizada de suas músicas, “They Don’t Care About Us” é um hino de protesto contra um sistema que oprime continuamente as minorias e os mais pobres (“some things in life they just don’t want to see, but if Martin Luther was livin’, he wouldn’t let this be”/ “algumas coisas na vida eles não querem ver, mas se Martin Luther estivesse vivo, ele não deixaria isso acontecer”).

Existem dois clipes de “They Don’t Care About Us”, ambos dirigidos pelo aclamado diretor Spike Lee. A “versão da prisão” é focada na injustiça e na opressão, mostrando Jackson como um preso, cantando na frente de imagens de violência e brutalidade policial. A “versão do Brasil” é focada na herança cultural africana e na desigualdade social, com Jackson dançando junto ao grupo tradicional Olodum, na Bahia, e na favela Santa Marta, no Rio.

Esses exemplos dão conta de apenas uma parte dos múltiplos símbolos e referências à sua herança Afro-americana presentes na obra de Michael Jackson.

Na sua vida privada, o conhecimento de Jackson sobre História Afro-americana impressionou estrelas de Hollywood como Wesley Snipes. Snipes encontrou com Jackson na África do Sul, onde a dupla teve uma longa conversa sobre temas “da Metafísica à Psicologia, a como o homem negro é tratado”, com Snipes reconhecendo a “Autobiografia de Malcolm X” e “How to Eat to Live”, de Elijah Muhammad, entre os livros que Jackson tinha enfileirados a seu lado no chão.

A mesma consciência de seu papel como figura proeminente negra que norteou a obra de Jackson era igualmente sentida em seu ativismo político. No início dos anos 1990, Jackson foi fotografado ao lado do líder de direitos civis sul-africano Nelson Mandela, sabendo que isso ajudaria Mandela em sua campanha presidencial. A sessão de fotos deu início a uma amizade que duraria anos. Os esforços humanitários contínuos de Jackson também incluíram doações vultosas para a National Association for the Advancement of Colored People (NAACP) e para o United Negro College Fund (UNCF), onde até hoje há uma bolsa que leva seu nome.

Apesar das inúmeras referências à sua herança cultural em sua obra e de seu ativismo político/social, a autoidentificação de Jackson como Afro-americano não estaria completa se ele não fosse reconhecido como tal por membros de sua comunidade — afinal, esse é um aspecto central de pertencer a um grupo. Por mais polêmico que esse aspecto do debate possa se tornar, ele é a única forma de estabelecer o mínimo de limites, com o caso de Rachel Dolezal, nos Estados Unidos, sendo um clássico exemplo dos perigos da autoidentificação sem reconhecimento.

Enquanto Michael Jackson não é unanimemente abraçado por todos os membros de sua comunidade — com a mídia tendo um papel enorme no encorajamento da abordagem física de raça e na desconstrução de sua identidade étnica/cultural aos olhos do público — ele tem sido continuamente celebrado e reconhecido pela sua obra e pelas suas posturas políticas e sociais.

Das referências constantes de Spike Lee à consciência política e racial de Jackson às homenagens de ativistas respeitados (como Maya Angelou, que dedicou um poema a Jackson após sua morte), Jackson continua sendo um modelo para as gerações passadas, atuais e futuras.

Michael Jackson nunca demonstrou ambiguidade ou incerteza em relação a sua identidade ou sua sensação de pertencimento — suas palavras falavam alto; suas atitudes eram claras. No entanto, ele sofria de uma doença que resultou na perda da melanina de seu corpo, um fato que foi explorado pela mídia com o intuito de destruir seu caráter e demonizá-lo. A campanha difamatória contínua contra Jackson não apenas distorceu suas ações, criando a discrepância mencionada anteriormente, mas também fez uso de um estereótipo associado a pessoas de cor — o de que “virar branco” é um objetivo a ser atingindo a qualquer custo.

O problema de perpetuar esse estereótipo é que ele parte da premissa de que ser branco é mais desejável do que ser de outras raças/etnias, e, portanto, que não ser branco é pior/ruim. Não poderia ficar mais claro como essa linha de pensamento favorece uma visão preconceituosa e colonial de raça. Novamente, não se pode enfatizar o suficiente como Jackson nunca mostrou nenhum sinal de concordar com essa linha de pensamento — pelo contrário, ele usou sua plataforma para promover sua herança cultural, para demandar igualdade racial e para celebrar a diversidade.

Nos tempos atuais, é fundamental que nós, enquanto sociedade, reconheçamos e erradiquemos os critérios racistas e obsoletos do passado, aprendendo a respeitar a autonomia de todos os indivíduos de determinar sua identidade étnica/cultural. Já é mais que tempo de darmos fim à intolerância e o preconceito contra Michael Jackson e todas as outras pessoas de cor e apreciarmos a beleza da diversidade que nos cerca.

por Manu Bezamat