Michael Jackson no coração da Bahia: Os bastidores das gravações de They Don't Care About Us | MJ Beats
Michael Jackson no coração da Bahia: Os bastidores das gravações de They Don't Care About Us | Michael Jackson em Salvador Bahia MJ Beats

Michael Jackson no coração da Bahia: Os bastidores das gravações de They Don’t Care About Us

Naquela manhã, o Pelourinho não parecia o Pelourinho. As ruas, normalmente tomadas por vozes, passos e música, estavam vazias. O silêncio não era comum, mas era necessário. O primeiro dia de filmagem finalmente havia chegado, e a cidade histórica acordava sob um controle que raramente experimentara.

Nada ali foi espontâneo. Um robusto esquema de segurança cercava todo o Centro Histórico. Soldados da Polícia Militar da Bahia, muitos vindos de outros municípios, formavam um cordão de isolamento que impressionava até quem já estava acostumado com grandes eventos. Todas as entradas foram fechadas. Não se entrava, não se saía.

O silêncio que antecedeu a batida

A atmosfera era estranha e quase solene. As barricadas impediam qualquer circulação, e o contraste com a rotina habitual chamava atenção. Ainda assim, havia um som persistente ao fundo. Os tambores ecoavam à distância, servindo como guia invisível para quem sabia onde precisava chegar. Era o único sinal de que algo grandioso estava prestes a acontecer.

Neguinho do Samba assumiu o comando com firmeza. Sem espaço para improvisos, deixou claro que a gravação seria feita de primeira. Não haveria margem para erro. O grupo havia ensaiado exaustivamente, e aquele momento exigia precisão absoluta. O resultado foi exatamente o esperado: uma execução limpa, segura e intensa.

A gravação ocorreu em um único take. Nenhuma interrupção, nenhum deslize. Quando alguém sugeriu refazer, Neguinho foi direto. Estava perfeito como estava. Espontâneo, verdadeiro e fiel à batida. Era assim que deveria permanecer.

A espera escondida e o surgimento inesperado

Enquanto isso, quem não fazia parte da produção se mantinha escondido. Moradores, trabalhadores e curiosos observavam das portas entreabertas. Muitos não estavam cadastrados e poderiam ser retirados a qualquer momento. A espera era silenciosa, tensa e cheia de expectativa. Todos aguardavam o mesmo instante.

Quando Michael Jackson finalmente apareceu, a polícia reforçou o isolamento. Há relatos de que ele pediu para que os fãs se aproximassem mais. Queria vê-los. Talvez porque ainda não tivesse tido contato direto com o público desde que chegara à cidade. Ele surgiu descendo a ladeira com um guarda-chuva preto. Foi o suficiente para provocar comoção.

O local escolhido para os primeiros enquadramentos era um antigo prédio do Pelourinho. Ali, Michael gravaria suas primeiras cenas. Para quem assistia de longe, cada movimento parecia irreal. Era difícil acreditar que aquilo estava realmente acontecendo, ali, diante dos próprios olhos.

Entre o acaso, o medo e o deslumbramento

Em meio à multidão contida, pequenas histórias surgiam. Uma fã, erguida nos ombros de um fotógrafo, conseguiu registrar uma imagem rara. A foto atravessou o tempo e permanece guardada até hoje. Um fragmento pessoal de um momento coletivo.

Em outra locação, na Rua Alfredo de Brito, o clima ficou tenso quando duas pessoas romperam a barreira policial e derrubaram Michael. Por alguns segundos, o silêncio voltou, agora carregado de medo. Spike Lee correu para ajudá-lo a se levantar. O susto passou, mas deixou todos apreensivos.

O dia avançava e chegava a hora das últimas cenas. No coração do Pelourinho, Michael performou ao lado do Olodum. Interagiu diretamente com um percussionista chamado Bida. Ao tomar sua baqueta e tocar o tambor, selou um momento histórico. Naquele instante, Bida se tornava Bira Jackson.

O que mais impressionava era a reação de Michael. A batucada do Olodum parecia atravessá-lo por inteiro. Ele ria alto, jogava a cabeça para trás, se deixava levar pelo ritmo. A gargalhada dele se misturava aos tambores, mais alta que qualquer outro som.

Quando tudo terminou, Michael seguiu para o aeroporto. No caminho, dentro de uma van preta, sorria enquanto se enxugava com uma toalha. Para quem o viu passar, parecia uma despedida silenciosa. É impossível saber o que ele pensava ao olhar Salvador pela última vez naquele dia. Mas se buscava emoção, ela estava por toda parte ao seu redor.

Para quem deseja aprofundar essa história, ouvir os personagens envolvidos e compreender como arte, política e resistência se cruzam nesse episódio histórico, vale assistir à docussérie Behind the Saturday Sun, de Manuela Bezamat. Mais do que um registro, a obra amplia o olhar sobre o impacto cultural, social e humano por trás de They Don’t Care About Us.