Salvador em um único take: os bastidores da passagem de Michael Jackson pela Bahia | MJ Beats
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Salvador em um único take: os bastidores da passagem de Michael Jackson pela Bahia

A jornada até o Brasil havia sido longa e desgastante, mas quando Michael Jackson e Spike Lee finalmente desembarcaram em Salvador, não havia espaço para celebrações ou alívio público. Tudo indicava normalidade. O relógio corria, a equipe estava posicionada e o trabalho precisava começar imediatamente. Depois de tantos impasses, era hora de filmar.

Salvador oferecia algo que nenhuma outra cidade poderia entregar. Energia, identidade e um cenário vivo. Em meados dos anos 1990, não havia internet nem redes sociais, e a informação circulava por rumores, notas pequenas de jornal e conversas de rua. A chegada de Michael era comentada em voz baixa, quase como um segredo mal guardado.

Rumores, expectativas e o primeiro contato com a produção

Foi assim que muitos souberam que ele viria. Um aviso informal, uma confirmação de alguém que conhecia alguém. Para alguns jovens da época, bastava isso para acreditar. Um deles era Marcos Melencal, hoje produtor audiovisual, que na época dava seus primeiros passos como assistente de câmera em produções estrangeiras.

Marcos já havia trabalhado em outros filmes internacionais. O mercado audiovisual brasileiro era pequeno, quase fechado, e a regra era simples: quem entregava um bom trabalho voltava a ser chamado. Foi assim que ele entrou na equipe. Além de atuar como segundo assistente de câmera, seu domínio do inglês o levou a uma função inesperada.

Ele foi designado para recepcionar Michael Jackson no aeroporto de Salvador. Quando o avião pousou, todos os passageiros desembarcaram, menos um. Michael permaneceu a bordo até que a logística estivesse pronta. Uma banda da Polícia Militar aguardava na pista, um tapete vermelho foi estendido e, ao meio-dia, ele apareceu.

O desembarque que parou Salvador

Chapéu, máscara e passos rápidos. A imagem era quase irreal. Pequeno, silencioso e cercado por seguranças, Michael parecia frágil diante da multidão que tomava o aeroporto. Do andar superior, fãs se aglomeravam. Era difícil enxergar o chão. A certeza era uma só: Michael Jackson estava ali.

A operação precisou ser interrompida rapidamente. A segurança avaliou o risco, retirou Michael da escada e o colocou em uma van. Uma fã correu atrás do veículo. A cidade havia sido oficialmente tomada. O destino era a Praça Tereza Batista, no Pelourinho, onde começariam as gravações.

Ali se concentrou um dos momentos mais impressionantes de toda a produção. Duzentos e vinte percussionistas do Olodum se reuniram em formação. A percussão começou ali e seguiu pelas ruas do Pelourinho sem interrupção. Toda a gravação foi feita em um único take. Nenhuma repetição. Nenhum erro.

O Olodum como coração do clipe

A caminhada seguiu o mesmo trajeto percorrido por Neguinho do Samba e pelos músicos que acompanharam Michael. A Escola Olodum, responsável pela formação desses artistas, tornou-se um ponto central da história. Foi ali que se consolidou a estética, o som e a identidade que o mundo inteiro reconheceria no clipe.

Na lojinha da escola, até hoje, estão expostas as camisetas usadas por Michael Jackson durante as gravações. Foram oito camisas e um colete, todos produzidos pelo Olodum. Cada estampa carrega parte da narrativa visual do clipe, hoje preservada como memória cultural.

A sede do Olodum funcionou como camarim improvisado. Ali os músicos descansaram, trocaram de roupa e se prepararam. Cada espaço do Pelourinho ganhou novo significado. A Casa de Jorge Amado, um dos maiores escritores brasileiros, também serviu de cenário, reforçando o encontro entre música, literatura e identidade negra.

Foi ali, nas pedras do Pelourinho, que Bira Santos ganhou o apelido de Bira Jackson. Ao dançar e tocar ao lado de Michael, teve sua baqueta tomada pelo próprio artista, que tocou seu instrumento. A cena correu o mundo. A partir daquele dia, aquele imóvel passou a ser conhecido como a Casa de Michael.

Sair do local não foi simples. Fãs cercavam a van, beijavam os vidros, pediam autógrafos. O trajeto até o hotel foi lento. Michael se recolheu para descansar, enquanto Spike Lee seguiu com compromissos oficiais, entrevistas e ensaios finais do Olodum.

Nada ali foi improviso. Cada batida, cada passo e cada enquadramento tinham propósito. Salvador não foi apenas cenário. Foi personagem. E naquele encontro entre Michael Jackson e o Olodum, o Brasil não apenas apareceu para o mundo. Ele falou, tocou e resistiu em ritmo próprio.

Para quem deseja aprofundar essa história, ouvir os personagens envolvidos e compreender como arte, política e resistência se cruzam nesse episódio histórico, vale assistir à docussérie Behind the Saturday Sun, de Manuela Bezamat. Mais do que um registro, a obra amplia o olhar sobre o impacto cultural, social e humano por trás de They Don’t Care About Us.