Por Jemerson, Redator MJC
“Na vida, ou você é um vencedor, ou um perdedor”. Por trás de seu egocentrismo e de origens sombrias, Joseph não sabia que a Michael, só cabia uma única escolha: vencer. O filme, no entanto, demonstra com clareza que ele transcendeu essa definição, tornando-se muito mais do que um simples vencedor.
Tive o privilégio de assistir à obra três vezes. A adrenalina tomava conta de mim em cada sessão; afinal, além de fã, sou um colecionador entusiasta e minhas expectativas eram imensas a cada cena. A inquietação na poltrona era inevitável e, logo na primeira vez, não consegui conter as lágrimas.
A produção honra o legado de Michael e desconstrói as críticas ao evidenciar não apenas o seu lado humano e afetivo, mas também sua faceta de profissional meticuloso, perfeccionista e visionário. As atuações de Juliano Krue e Jaafar Jackson funcionam como um verdadeiro homem no espelho: retratam duas eras distintas que se entrelaçam em suas raízes mais profundas.
Krue captura com exatidão a essência do jovem “Big Boy”, vivenciando os primeiros passos de uma carreira musical marcada pelo sofrimento precoce. A representação das performances é lendária e a voz cativa instantaneamente qualquer espectador. Michael já pressentia que sua jornada culminaria em um legado grandioso, mas sentia na pele a dor e o peso avassalador de se tornar o maior astro de todos os tempos.
Eu não esperava menos de um Jackson, e Jaafar provou categoricamente que estava ali para reviver o ídolo. Faço minhas as palavras de Prince Jackson: ele trouxe o Rei do Pop de volta à vida. Através de movimentos complexos, performances arrebatadoras, precisão vocal e pela captura das nuances mais abstratas do artista, Jaafar não se intimidou, garantindo uma estreia fenomenal. A imersão é absoluta. Mesmo com o olhar clínico de um fã técnico — sempre atento à qualidade e ao impacto dos detalhes —, a ilusão é tão perfeita que se torna impossível enxergar o ator por trás do personagem.
A cinebiografia cumpre excelentemente seu papel ao desmistificar rumores midiáticos que transformaram a vida de Jackson em uma avalanche de falácias. A abordagem do vitiligo como uma condição médica real, as motivações de suas primeiras cirurgias plásticas e o acidente quase fatal no comercial da Pepsi foram retratados com notável fidelidade histórica. Reviver na tela esses momentos de dor e a constante rejeição familiar provoca uma profunda reflexão, não apenas sobre a trajetória do artista, mas também sobre as nossas próprias vivências pessoais e profissionais.
Embora parte da crítica alegue uma suposta “suavização” da narrativa, relatos de espectadores que se sentiram perturbados ao verem o jovem Jackson sofrendo abusos físicos de seu pai provam o contrário. Reitero: é impossível não se emocionar diante de cenas tão viscerais. Na obra, os detalhes importam. É fato que o filme carece de maior profundidade em algumas passagens da vida do artista ao tentar condensar sua trajetória em uma maratona de duas horas, mas o público mais imerso na história compreende perfeitamente as razões dessa escolha narrativa.
A precisão técnica também se faz presente na sutileza da mixagem: escutar a base instrumental de “Childhood” enquanto Michael lê Peter Pan, ou uma melodia cantarolada de “Smile” , demonstra um cuidado excepcional. O filme acerta em cheio na maior parte dos quesitos, brilhando especialmente na execução técnica das performances.
Ouvir faixas menos valorizadas da era The Jacksons ganhando peso na mixagem, somadas a excertos de shows com um design de som denso, vibrante e imersivo, reacendeu memórias afetivas de infância. Mesmo ciente de que algumas licenças poéticas precisaram ser feitas — como a inserção de Human Nature (da Bad Tour em Wembley) no contexto cenográfico da Victory Tour, ou Working Day and Night totalmente reconstruída com vocais de 1988 —, o resultado final possui impacto garantido. Jaafar surpreende entregando vocais ao vivo impressionantes que, não raro, confundem a percepção auditiva do espectador.
Sabe aquela beleza inefável que se percebe apenas na profundidade de cada traço facial? Jaafar transpôs exatamente isso para as telas de cinema, cravando seu nome na história das cinebiografias. Por fim, independentemente das ressalvas da crítica, Michael serve para atestar um fato irrefutável: ele é, e sempre será, insubstituível.




