A Anatomia de uma Obsessão: O Julgamento de 2005 e o Colapso de Tom Sneddon | MJ Beats
Michael Jackson em frente ao Tribunal de Santa Bárbara, 2005

A Anatomia de uma Obsessão: O Julgamento de 2005 e o Colapso de Tom Sneddon

Há na tragédia grega uma figura bastante incômoda – o homem convicto de que encarna a própria ordem cósmica, enquanto apenas dá vazão a uma mesquinha birra particular. Thomas Sneddon Jr. talvez nunca tenha lido Sófocles, mas passou doze anos atuando como o sacerdote furioso de uma moralidade que ele mesmo forjou. Promotores públicos gostam de acreditar – ou gostam que acreditemos – que operam pela sobriedade fria do dever. Kant até lhes emprestaria a ideia de que a justiça deve ser feita ainda que os céus desabem. O detalhe embaraçoso, contudo, é quando o céu desaba apenas sobre a cabeça do próprio acusador, revelando que a cruzada nunca foi sobre a lei, mas sobre o apetite de ostentar um troféu empalhado na parede.

Em 1993, quando as queixas de Jordan Chandler – urdidas com notável precisão mercantil pelo pai – ganharam o noticiário, Sneddon sentiu o cheiro da história. Não hesitou em submeter o homem mais famoso do planeta a uma revista corporal invasiva, com a minúcia constrangedora de quem busca um carimbo anatômico irrefutável. Mas o mundo real é avesso aos delírios burocráticos. A descrição falhou, a perícia não bateu e a via criminal naufragou sem denúncia. O artista, estilhaçado, fez o que artistas fazem – transformou o rancor em ruído, dedicando guitarras ásperas a um certo “Dom Sheldon” em HIStory. Parecia o ponto final.

Só que certas vaidades não envelhecem bem – elas apenas fermentam. Uma década depois, bastou uma entrevista manipulada por Martin Bashir – na qual a excentricidade desajeitada de Jackson foi oferecida como banquete televisivo – para que a máquina de Santa Bárbara se reanimasse. Gavin Arvizo, um garoto convalescente acolhido em Neverland, virou o pretexto sob medida. O fato de os Serviços Sociais terem arquivado as suspeitas meses antes foi tratado como mero estorvo metodológico. Setenta policiais tomaram o rancho. O aparato estatal moveu montanhas, exibiu fianças cinematográficas e obteve a cobiçada foto de fichamento.

O problema de insistir em um roteiro previamente escrito é que a realidade do tribunal tende a ser vulgarmente desobediente. Sob a inquirição cirúrgica de Thomas Mesereau em 2005, o edifício probatório não ruiu com estrondo – desmanchou-se em farsa. As testemunhas de acusação entraram em fila desfilando contradições, disputas por adiantamentos literários e um impressionante prontuário de acusações pretéritas com vistas a indenizações. Até a tentativa de desenterrar velhos fantasmas dos anos 90 tropeçou na recusa de rapazes adultos em encarnar o papel de vítimas de encomenda.

Em 13 de junho de 2005, os doze jurados deliberaram e disseram o óbvio burocrático – inocente em todas as contagens. Não por simpatia ao réu – cujos hábitos continuavam a soar incompreensíveis para a maioria -, mas pela constatação elementar de que o Estado vendera uma fraude. O promotor encerrou sua carreira assombrado pelo próprio vazio. E o réu? Saiu do tribunal livre de algemas, mas irremedivelmente exausto, deixando para trás os restos de um santuário que jamais voltaria a ser seguro.

Resta saber se a sede coletiva por punir a dessemelhança realmente encerrou seu expediente naquele tribunal, ou se a sociedade civil apenas terceirizou o papel de Sneddon para a próxima corte conveniente.