Este texto é um prólogo de um especial chamado “O DOSSIÊ SNEDDON” iniciado sábado passado e terá continuação amanhã e no próximo.
Quando o assunto é o lado mais contestador, visceral e direto de Michael Jackson, a memória da maioria dos ouvintes recorre imediatamente a clássicos de protesto como “They Don’t Care About Us”. No entanto, o álbum HIStory: Past, Present and Future, Book I, lançado em 1995, guarda uma faixa ainda mais pessoal, ácida e agressiva. Trata-se de “D.S.”, uma autêntica diss track desenhada sem filtros contra o homem que liderou a ofensiva judicial contra o artista: o promotor do Condado de Santa Bárbara, Thomas W. Sneddon Jr.
Para compreender a fúria impressa na gravação, é necessário recuar a 1993. Durante as apurações daquele ano, Sneddon conduziu as investigações com um rigor sem precedentes, culminando no cumprimento de um mandado de busca no Rancho Neverland e numa invasiva inspeção corporal no cantor. Embora o inquérito tenha sido encerrado na época sem denúncia criminal formal, o episódio deixou marcas profundas no artista. Anos mais tarde, o trauma e a indignação transformaram-se em combustível criativo.
O Falso Disfarce de “Dom Sheldon”
A concepção original da faixa era ainda mais explícita: intitular-se-ia “T.S.”, em referência direta às iniciais do promotor. Diante do receio do departamento jurídico da gravadora Epic Records quanto a eventuais litígios por difamação, ajustes foram exigidos no encarte físico, onde o nome impresso no folheto passou a ser “Dom Sheldon”.
Contudo, a execução vocal de Michael Jackson ignorou a mudança contratual. Na matriz de áudio, ouve-se claramente a articulação de “Tom Sneddon” sob o verso “Dom Sheldon is a cold man”.
A provocação estendeu-se ao jogo de palavras na própria letra. Na linha “He think he bad cause he’s BSTA”, o cantor fez um trocadilho com a sigla do cargo ocupado por Sneddon (Santa Barbara District Attorney – SBDA), invertendo letras e códigos para assinar o endereço político de seu perseguidor.
Mensagens Cifradas e o Envolvimento do FBI
A composição também abordou o alcance institucional das investigações. No verso “I bet he missioned with the CIA”, Jackson utilizou a agência de inteligência como metáfora para o clima de vigilância constante. Já na pergunta “Does he send letters to the FBI?”, a referência refletiu um fato documentado: em 1993, Sneddon solicitou formalmente a intervenção do Governo Federal sob a aplicação da Lei Mann, pedido que foi negado pelo FBI na época por ausência de elementos probatórios — embora a agência federal viesse a prestar apoio tático anos mais tarde, na operação de 2003.
As alusões raciais e políticas em “You think he brother with the KKK?” ressaltaram a leitura de Jackson sobre a assimetria de poder entre um artista negro e um promotor branco em busca de projeção eleitoral contínua num condado conservador.
Uma Batalha Transformada em Arte
Com a participação de Slash (Guns N’ Roses) na guitarra e uma sonoridade inspirada no hard rock e no rock industrial, “D.S.” transbordou para outras faixas do álbum HIStory — como a provocação ao apelido de “Cachorro Louco” em “2 Bad” —, registrando em forma de arte um dos capítulos mais tensos da vida de Michael Jackson.
🚨 A INVESTIGAÇÃO RECOMEÇA AMANHÃ! Este vídeo e texto são o PRÓLOGO da cobertura especial da MJ Beats. Desde o sábado passado, no site a série O DOSSIÊ SNEDDON, traz uma investigação completa dividida em 15 partes revelando os bastidores jurídicos, os documentos e a história por trás dos processos de 1993 e 2005.




