Verdades e Mentiras | MJ Beats
Michael Jackson e Lisa Marie Presley (imagem gerada por IA)

Verdades e Mentiras

Por Andréa Luisa Bucchile Faggion;
Originalmente publicado na coluna “Amém”, Edcyhis (Abril de 2003);
Republicação adaptada pela MJ Beats.


Há cerca de uma década, o mundo ficou perplexo com a união de dois dos sobrenomes mais famosos da história do entretenimento americano.

Alguém havia resolvido se chamar Lisa Marie Presley-Jackson.

Naturalmente, a imprensa jamais enxergaria aquele casamento de forma simples — como a união de um homem e uma mulher que se apaixonaram, ponto.

Do lado de Michael, especulava-se que a motivação teria sido a necessidade de reforçar uma imagem de masculinidade e normalidade em meio ao escândalo que o envolvia.

Mas… e quanto a Lisa?

Já milionária, aparentemente sem interesse em explorar a fama herdada do pai, ela se tornou um enigma para aqueles que não conseguiam conceber que uma mulher bonita pudesse, simplesmente, se apaixonar por Michael Jackson.

A mídia apostava: ela estaria planejando o lançamento da tão falada carreira de cantora — o que não aconteceu na época.

E se não foi isso? Então, concluiu-se, só poderia ter enlouquecido!


Hoje, Lisa Marie endossa — ao menos parcialmente — essa narrativa.

Admite que se apaixonou e, cega de amor, acabou sendo manipulada por Michael, que a teria envolvido em seu universo e usado a relação como estratégia de marketing.

O subtexto é claro: “Não me julguem por ter me casado com ‘Wacko Jacko’. Ele foi ardiloso e me fez acreditar em algo que não era real.”


Mas há pontos questionáveis nas declarações recentes de Lisa.

Ela descreve a fase final do casamento como um verdadeiro inferno — e parece esquecer que, mesmo após o divórcio, foi vista diversas vezes feliz e em boa companhia com Michael.

Mais grave do que as “meias verdades” que possa estar contando é o fato de estar expondo detalhes da vida privada de ambos — violando, assim, o direito de Michael à privacidade.

Michael, como era de se esperar, não entrou no jogo.

Limitou-se a afirmar: “Como um gentleman, prefiro não responder.”

Uma resposta que nos leva a perguntar: “Afinal, quem está usando essa história como marketing agora?”


Hoje, Lisa tem um álbum novo para promover.

Nada mais conveniente do que voltar aos holofotes mencionando o nome que todos conhecem: Michael Jackson.

Mais do que isso: ao se aliar à narrativa da mídia, ela se afasta da antiga imagem de defensora de Michael, adotando um novo discurso: “Sim, eu fui usada. Agora tenham pena de mim — e comprem meu CD.”

Será essa a verdadeira Lisa?

Sem ofensas, mas é preciso mais inteligência para sustentar uma mentira sem cair em contradições.

Não é fácil interpretar um papel o tempo todo.

Um repórter mais atento, por exemplo, poderia perguntar se ela não estaria sendo igualmente manipulada pela seita da qual participa.

Nesse caso, poderia esquecer o script e responder como respondeu:

“Se você conhece minha personalidade,” — riu — “saberia que isso não é possível.”

Mas se Lisa não consegue esconder sua verdadeira personalidade para manter seu papel… Michael consegue?


Curiosamente, as entrevistas de Lisa, no fim das contas, acabaram beneficiando Michael.

Ao assumir uma postura crítica e distante, ela legitimou o que antes parecia inverossímil: que o relacionamento deles foi, de fato, real.

No entanto, ao descrever o “homem” Michael Jackson, Lisa acabou decepcionando alguns fãs.

Conseguimos imaginar nosso eterno Peter Pan:

  • bebendo,
  • falando palavrões,
  • tendo relações sexuais com uma mulher?

“Eu sou Peter Pan em meu coração” — seria só discurso vazio, então?


A resposta talvez seja mais simples:

É bem provável que os encontros entre Michael e Lisa não ocorressem em cima da Giving Tree.

Mas isso não torna falso o Michael que sobe em árvores ou brinca com crianças.

Ao contrário: Lisa continua reafirmando a sinceridade de Michael com relação às crianças — e destaca como crianças de todos os gêneros e idades reagem de forma positiva a ele.


No fim, Michael Jackson é um ser humano multifacetado, como todos nós.

Por que, então, seus fãs resistem tanto a aceitar algumas dessas facetas?

Alguns rejeitam o Michael menino.
Outros não aceitam o Michael homem.

Mas por quê?

Talvez porque, para muitos fãs, Michael não é apenas um ser humano.

Ele se tornou um personagem moldado conforme os ideais e sonhos de cada um.

E nada seria mais doloroso do que descobrir que o ideal não é completamente real.


Quando uma de suas facetas se sobressai, alguns fãs se decepcionam.

Outros se apaixonam ainda mais.

Quando outra faceta aparece, as reações se invertem.

No fim das contas, o que faz de Michael Jackson o ídolo que é, é justamente sua habilidade em não se definir totalmente — permitindo que cada fã projete nele um sonho diferente.

Para cada fã, existe um Michael Jackson único.

E que todos eles sejam sempre reais.

Mesmo que muitos tentem desvendá-lo, muitos continuarão a sentir um certo receio de remover o véu.

Afinal:

“Não é bom tocar nos ídolos; o dourado pode sair nas nossas mãos.”
Flaubert


[*] Este texto foi adaptado para refletir os valores e diretrizes atuais, com o objetivo de preservar sua relevância e respeito ao público contemporâneo.