Por Andréa Luisa Bucchile Faggion;
Originalmente publicado na coluna “Amém”, Edcyhis (Setembro de 2004);
Republicação adaptada pela MJ Beats.
Primeiro, uma confissão aos leitores: esta humilde colunista não aguenta mais ler moções de advogados, réplicas da promotoria, decisões de juiz, apelações a cortes superiores…
Já era hora de voltarmos ao assunto que, infelizmente, acabou nos trazendo a esse mundo de intrigas e armações dignas de um roteiro hollywoodiano.
Senhoras e senhores, vamos falar de música!
E poderia até se chamar The Music.
Seria apropriado — pois nos lembraria que é isso que importa.
Mas o título é Michael Jackson: The Ultimate Collection — e ele também faz jus.
Esta coleção definitiva é muito mais do que um passeio pelos grandes hits de Michael: é um tributo à memória do homem e da obra.
Nesta caixinha luxuosa de surpresas, Michael esbanja.
Mostra que conquistou o reinado do pop sem sequer ter usado toda sua munição.
Ele veio com Don’t Stop ‘Til You Get Enough, e se deu ao luxo de deixar Sunset Driver guardada.
Ele já havia dado pistas de que a Era Bad poderia ter rendido outro álbum, quando revelou Fly Away (com direito a duas versões — só para se exibir mesmo!) e Streetwalker.
Agora, ele tira do baú não apenas Cheater, mas também a incrível Scared of the Moon — uma canção que, ao ouvi-la, nos força a pensar no absurdo:
um clássico do pop que ninguém conhecia até agora.
E o que dizer da recente Fall Again?
Ela nos tortura, pois nos faz imaginar o que poderia ter sido a Era Invincible.
Se Whatever Happens já apresentava um novo Michael, é em Fall Again que ele brilha.
É inevitável pensar, com profundo desgosto, que este novo Michael está tendo que perder tempo em audiências em vez de em palcos…
Falando em audiências (pois não temos como ignorá-las), ao menos elas servem para nos mostrar que Michael Jackson continua mais vivo do que nunca.
A cada aparição, a mídia brasileira — que, diga-se, entende tanto dos processos quanto nós do campeonato italiano de caça submarina (existe isso? pois é…) — se limita a noticiar sua entrada no tribunal com o já batido “o Rei não perde a pose”.
E ele não perde mesmo!
Mostrar altivez, sem arrogância — eis a maestria daquele cuja coroa repousa naturalmente na cabeça.
Seu figurino?
Não está ali para lançar moda.
Se alguém sair por aí com um terno branco estilizado “à la Jackson”, será num concurso de sósias.
Porque suas roupas — como toda sua atitude — servem para demarcar sua majestade, para marcar a diferença entre ele e os meros mortais.
E para que serve esse desvio todo, saindo do box set e falando da elegância de Michael?
Ora, quem não tem pensado no que virá após o julgamento?
A magia que o box nos faz relembrar, somada à presença quase suntuosa de Michael no entra e sai da corte, nos remete à esperança de que essa saga de dramas possa terminar com chave de ouro.
Não, esta colunista não perdeu totalmente o juízo.
Não está sonhando com quebras de recordes ou com uma volta à unanimidade — até porque, como já dizia Nelson Rodrigues, unanimidades são perigosas.
Mas tampouco consegue imaginar Michael Jackson, em tempos de Usher, cantando para uns poucos “mil gatos pingados” de bom gosto musical.
Michael nunca foi erudito ou underground.
Nunca será.
Ele é a personificação do artista de massa.
E é injusto dizer, como consolo, que se ele se tornar “intimista”, será então mais artista.
Essa teoria carrega um elitismo — como se a verdadeira arte fosse privilégio de poucos iluminados.
A grande ofensa, porém, não é só esse elitismo:
É insinuar que Michael Jackson não teria sido sempre artista — e dos maiores.
Sua obra sempre foi popular, mas nunca populista.
Nunca se rendeu a fórmulas prontas ou ao mercado.
Quer um exemplo?
Who Is It? — com sua duração extravagante — não é uma canção para o mercado.
E ainda assim, integra um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos.
Portanto, não venham me dizer que Michael Jackson precisa deixar de se preocupar com o sucesso para “ser mais artista”.
Não insultem o homem que artista sempre foi!
Além do desejo de comunicar-se com um público sem limites — que sempre definiu o “artista Michael Jackson” —, há em seu punho cerrado ou no “V” da vitória algo mais.
Muito mais do que a certeza da absolvição.
Há o desejo de, mais uma vez, calar aqueles que decretaram seu fim.
[*] Este texto foi adaptado para refletir os valores e diretrizes atuais, com o objetivo de preservar sua relevância e respeito ao público contemporâneo.




