[Opinião] O close que faltou em 'Black or White' | MJ Beats
Michael Jackson no clipe de "Black or White"

[Opinião] O close que faltou em ‘Black or White’

A divulgação de “Black or White” em “4K” deveria ser um daqueles momentos em que a gente respira fundo e diz: “Enfim, estamos vendo o legado de Michael com a dignidade que merece.” Mas, como tantas outras vezes, a euforia foi atropelada por um detalhe que só fãs percebem: dois closes do Panther Dance simplesmente sumiram.

A reação foi previsível. Censura? Reescrita da história? Uma mão invisível aparando os “excessos” de Michael? Talvez um pouco de tudo, talvez só um erro banal. O MJ Online Team — a voz oficial do Espólio — diz que foi isso: erro. Segundo eles, a master usada para gerar a versão 4K estava mal rotulada como “uncensored”, mas, na prática, era uma fita incompleta. Pediram desculpas, prometeram corrigir e lançar uma nova versão.

Mas veja: não é sobre dois closes. É sobre o que dois closes significam.

Michael Jackson não era um artista qualquer. Ele fazia videoclipe como quem escreve um manifesto — Black or White talvez seja o melhor exemplo disso. Quando algo some, mesmo que por engano, a sensação é de que o tecido da obra se rompe, que a mensagem foi mexida, que a história ficou manca. E não ajuda o fato de que esse “4K” vendido como novidade não passa de um upscale — uma maquiagem digital que dá mais pixels, mas não devolve a textura, a força, a profundidade do original. Parece menos preservação e mais marketing: transformar memórias em “lançamentos”.

Por isso, a correção que o Espólio promete é bem-vinda. Mas a pergunta fica: quantas dessas “falhas técnicas” passam despercebidas? Quantas obras de Michael, espalhadas em fitas e arquivos mundo afora, estão à mercê de rótulos errados e decisões apressadas?

No fundo, o que está em jogo não é só nostalgia. É a integridade de um legado. Um acervo que moldou a cultura pop mundial precisa ser tratado com o mesmo rigor que Michael aplicava ao próprio trabalho. E, sim, isso inclui ouvir quem está na linha de frente — nós, fãs, que notamos o que para outros seria invisível.

Quando os closes voltarem — e eles voltarão —, não será apenas um acerto técnico. Será um lembrete: o Rei do Pop não cabe em versões editadas, nem mesmo por engano. E, quem diria, talvez seja a velha fita VHS — com todos os seus chiados — que ainda nos devolve o Michael inteiro.