Em outubro de 1983, Paul McCartney e Michael Jackson decidiram que venderiam não só música, mas também fantasia em ’24 quadros por segundo’ (fps). No dia 03, lançaram o single Say Say Say. No dia seguinte, as câmeras já rodavam um videoclipe que custaria US$ 500 mil – o mesmo valor de Thriller. Em outras palavras: isso não era “promoção de single”, era cinema.
A dupla se transformou em “Mac & Jack”: vigaristas carismáticos que vendem uma poção milagrosa, aplicam golpes de sinuca e, no fim, doam tudo para um orfanato. Uma farsa, sim – mas com propósito nobre. No fundo, um espelho do que a música pop sempre fez: vender ilusões embaladas em melodia.
O vídeo reuniu Linda McCartney, LaToya Jackson e participações de Harry Dean Stanton e até Mr. T. As locações reforçaram o clima de Velho Oeste: Los Alamos, o histórico Union Hotel e, sobretudo, o Sycamore Valley Ranch. Detalhe que muda a história: foi ali que Michael conheceu a propriedade que, anos depois, viraria Neverland. Sim, Say Say Say foi o “ponto zero” do mito.
Só que por trás do clima leve havia a semente do conflito. Foi nessa época que Paul aconselhou Michael a investir em catálogos musicais. O jovem astro levou o conselho ao pé da letra e, em 1985, comprou a ATV Music – catálogo dos Beatles incluído. Resultado: a amizade se despedaçou. O que no clipe parecia camaradagem eterna virou, no mundo real, um caso de negócios mal digerido.
Três décadas depois, McCartney tentou virar a página. Em 2015, lançou um remix invertendo os vocais e um novo clipe, em preto e branco, centrado na dança. Um aceno tardio a Jackson, separando a dor da disputa da grandeza artística que os uniu.
Rever Say Say Say hoje é quase cruel. De um lado, temos a leveza de dois gigantes se divertindo no set. Do outro, sabemos que aquela parceria estava prestes a implodir por causa de contratos e cifras. É entretenimento, mas também epitáfio. Um clipe que nasceu para vender fantasia, mas acabou carregando uma das maiores ironias da música pop.




