Entre a favela e o fórum: a história não contada da gravação de They Don’t Care About Us | MJ Beats
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Entre a favela e o fórum: a história não contada da gravação de They Don’t Care About Us

É 10 de fevereiro de 1996. O dia termina pesado no Morro Santa Marta. As câmeras foram desligadas, a favela ainda pulsa, e Spike Lee retorna ao hotel carregando mais do que imagens gravadas. Na recepção, pede os jornais do dia. Um gesto automático, quase ritualístico. Ele folheia as páginas, reconhece seu nome, o de Michael Jackson, e então para. Uma foto chama sua atenção. Um homem de camisa social, expressão dura. Spike levanta os olhos e pergunta, quase casualmente, mas já pressentindo o problema: “Quem é Béjar?”

Naquela história, marcada por tensão, arte e política, poucos personagens se mostrariam tão persistentes quanto Jorge Béjar. Nos anos 1990, seu nome era recorrente na mídia brasileira, quase sempre associado a ações judiciais ruidosas, de forte apelo público. Béjar havia se tornado conhecido por transformar indignação em processos, e Michael Jackson, cedo ou tarde, cruzaria esse caminho.

O primeiro embate aconteceu em 1993. Michael estava prestes a se apresentar no Rio de Janeiro com a Dangerous World Tour. O governo municipal havia concordado em apoiar o evento, mas Béjar entrou em cena. Alegando mau uso de dinheiro público, moveu uma ação popular — e venceu. O show foi cancelado na cidade. Michael seguiu para São Paulo. A ferida política ficou aberta.

Três anos depois, o roteiro se repetia. Desta vez, não era um palco, mas uma favela. Não era um show, mas um videoclipe. Quando Béjar protocolou uma nova ação, agora para impedir a gravação de They Don’t Care About Us no Santa Marta, quase ninguém se surpreendeu. A história parecia condenada a reviver o mesmo conflito.

A batalha nos bastidores da Justiça

As ações de 1993 e 1996 foram protocoladas na Justiça Federal do Rio de Janeiro. Documentos públicos, esquecidos em arquivos empoeirados. Anos depois, a busca por essas peças se transformaria em uma investigação quase arqueológica. Nada era simples. Para acessar os autos, era preciso pagar taxas, cumprir trâmites, envolver advogados. A burocracia brasileira também fazia parte da narrativa.

Em abril de 2020, em meio a uma pandemia, o pesquisador finalmente atravessou os corredores do fórum. Um labirinto de escadas de mármore, corredores silenciosos, servidores apressados. A ansiedade crescia a cada passo. Mas a frustração veio rápido: os processos haviam sido enviados para digitalização. Não havia prazo. Não havia acesso imediato.

Ainda assim, algo foi salvo. A simples iniciativa garantiu que aqueles documentos não se perdessem no tempo. Semanas depois, o processo de 1993 apareceu. Curto, direto. Já o de 1996, liberado meses depois, era outra história: quase 50 páginas, cheias de retórica, argumentos morais e uma visão muito clara do conflito.

Na peça, Béjar atacava diretamente o clipe. Chamava They Don’t Care About Us de exploração da pobreza, um “discurso vazio” sobre violência e desigualdade. Citava a Constituição para afirmar que nenhum artista teria o direito de expor a miséria alheia — ignorando, convenientemente, o fato de que aquela miséria já existia muito antes das câmeras chegarem.

O juiz Luiz Felipe Haddad concordou com parte da argumentação. O resultado foi um golpe duro: o alvará concedido pela prefeitura foi suspenso por 20 dias. Faltavam apenas quatro dias para a chegada de Michael Jackson ao Brasil.

Quando a arte resiste e avança

Como se não bastasse a decisão judicial, outro problema emergia nos bastidores: os vistos de trabalho. Sem eles, Michael, Spike Lee e toda a equipe estrangeira não poderiam filmar. Os pedidos haviam sido aprovados, mas estavam tecnicamente errados. O Ministério do Trabalho passou a questionar se Michael estaria “trabalhando” no país, mesmo que estivesse apenas cantando, dançando e indo embora.

O tempo corria. A produção se aproximava do colapso. Cada dia trazia uma nova exigência, uma nova interpretação da lei, um novo obstáculo. Tudo parecia desenhado para atrasar, desgastar, desestimular.

Mas a tempestade começou a mudar.

Entre recursos, negociações e pressão pública, a engrenagem voltou a girar. A produção não recuou. Michael não recuou. Spike Lee não recuou. As gravações aconteceram. O clipe foi concluído. E, quando veio ao mundo, trouxe consigo tudo o que tentaram impedir.

No fim, a história mostrou seu desfecho inevitável. Michael Jackson venceu. Spike Lee venceu. Não nos tribunais, mas na memória coletiva. They Don’t Care About Us atravessou o tempo como um documento histórico, um grito visual contra a injustiça, nascido exatamente do conflito que tentou silenciá-lo.

Entre a favela e o fórum, a arte sobreviveu. E falou mais alto.

Para quem deseja aprofundar essa história, ouvir os personagens envolvidos e compreender como arte, política e resistência se cruzam nesse episódio histórico, vale assistir à docussérie Behind the Saturday Sun, de Manuela Bezamat. Mais do que um registro, a obra amplia o olhar sobre o impacto cultural, social e humano por trás de They Don’t Care About Us.